Tecnologia

As novas realidades do varejo


Com a realidade virtual, consumidoras podem ver na hora como ficam diferentes cores de batom. E não se trata de foto: as imagens estão em movimento


  Por Sérgio Teixeira Jr. 18 de Janeiro de 2017 às 17:37

  | Jornalista especializado em tecnologia e negócios, vive em Nova York (EUA)


O Big Show, evento que todo mês de janeiro reúne a indústria varejista americana – além de visitantes do mundo inteiro --, é grande. Muito grande. 

São 22 mil metros quadrados de feira, com mais de 500 expositores demonstrando suas soluções e tecnologias para os mais diversos problemas dos lojistas (físicos ou virtuais). 

Boa parte dos pavilhões do Jacob Javits Center, no oeste de Manhattan, é ocupada por empresas que oferecem sistemas vitais, como leitores de códigos de barra, impressoras de cupons fiscais, computadores para checkout e sinalizações chamativas. 

Mas a cada ano que passa a presença de tecnologias avançadas se faz sentir com mais peso no evento da National Retail Federation, ou NRF. 

Este ano, era comum caminhar pelos corredores do evento e deparar com homens e mulheres usando óculos de realidade virtual na cabeça, mexendo em prateleiras, trocando móveis de lugar ou caminhando por espaços digitais. 

A VR, como é conhecida a realidade virtual na sigla em inglês, e a realidade aumentada - AR, que ficou famosa ano passado com o jogo Pokémon Go – provaram que não são coisa só para gamers, muito pelo contrário. Logo, logo elas serão parte integral do varejo.

“Para determinadas categorias de produto, a imagem é muito mais importante que números ou palavras”, disse o consultor Brian Kilcourse, da consultoria especializada RSR Research. 

“Os consumidores querem interfaces mais simples e têm altas expectativas em relação ao varejo, pois já sabem do que a tecnologia é capaz.” 

Considere a categoria de cosméticos e produtos de beleza. Uma coisa é uma cliente observando a imagem de um batom ou a foto de uma modelo com o produto aplicado. Outra, bem diferente, é ver-se a si mesma com o batom nos seus lábios. 

Desde o ano passado, a varejista de cosméticos americana Sephora utiliza o sistema de realidade aumentada desenvolvido pela canadense Modiface para permitir que suas clientes façam exatamente isso.

O escritor de ficção científica Arthur C. Clarke afirmou celebremente que as tecnologias suficientemente avançadas são indistinguíveis de mágica – e essa é a experiência da maquiagem com realidade aumentada. 

Nos aplicativos de celular, tablet e no website da empresa, as clientes da Sephora podem experimentar virtualmente batons, cílios postiços e outros itens de maquiagem usando o Virtual Artist. 

Com a câmera voltada para o próprio rosto, as consumidoras podem ver na hora como ficam diferentes cores de batom. E não se trata de foto: as imagens estão em movimento. 

“No setor de beleza, é muito difícil encontrar o produto certo”, afirmou Parham Aarabi, fundador e CEO da Modiface. 
“Cada pessoa tem um tom de pele diferente, e há inúmeras opções. A realidade aumentada é uma grande ajuda.” E isso vale também para os varejistas: as clientes que usam a realidade aumentada interagem por mais tempo com a marca, compartilham mais e compram mais, disse Aarabi.
 
A tecnologia da maquiagem virtual pode parecer mágica hoje, mas ainda há muito a evoluir. As câmeras dos celulares e computadores estão melhorando, assim como o software. 

Uma das inovações que vêm por aí, segundo o CEO da Modiface, é a possibilidade de tirar uma foto de uma modelo em uma revista, por exemplo, e ver a mesma maquiagem aplicada no rosto da usuária. Mais que isso, o sistema é capaz de identificar quais produtos correspondem aos usados na fotografia. 


TOUR VIRTUAL

A Marxent, startup de Dayton, no Meio-Oeste americano, aplicou uma lógica parecida para o varejo de móveis e itens de decoração doméstica, usando realidade virtual. 

A empresa desenvolveu um sistema completo para que os consumidores possam reproduzir ambientes de suas casas e no mundo virtual, testando o posicionamento dos móveis e diferentes acabamentos. 

“Temos uma base de dados de milhares de sofás, mesas, geladeiras e assim por diante”, disse Vince Kilian, gerente de produtos da Marxent. 

“O cliente pode fazer um projeto completo sozinho, sem a ajuda de um decorador e sem ter conhecimento de softwares complexos de design auxiliado por computador.”

A Marxent está testando o sistema com a Ashley Furniture Homestore, uma das maiores redes de lojas de móveis dos Estados Unidos. 

Tudo começa num aplicativo de celular ou tablet. O cliente desenha a planta baixa do ambiente, que é automaticamente convertida para três dimensões. 

Depois, basta colocar os objetos nos lugares desejados. Se o cliente tiver um óculos de realidade virtual, pode caminhar pelo ambiente virtual. Ou então pode ir a uma loja física para fazer esse passeio virtual (os aparelhos de VR ainda têm custo alto e dependem de computadores potentes). 

“Na loja, o cliente pode contar com a ajuda de vendedores especializados, além de ver os produtos ao vivo”, afirmou Kilian.

Se o cliente consegue ter uma experiência tão realista – tão mágica – sem sair de casa, qual é o futuro das lojas? 
Para o consultor Kilcourse, elas não vão desaparecer tão cedo. No caso da Sephora, as clientes podem “testar” várias cores em casa, mas muitas delas acabam selecionando cinco cores finalistas para efetuar a compra em uma loja. 

E, no caso da realidade virtual, os óculos de VR ainda estão chegando ao mercado, e deve levar anos para que todos os consumidores tenham um par em casa – se é que eles serão tão onipresentes como PCs e celulares. 

A única certeza é que essas novas realidades – virtual e aumentada – chegarão ao varejo. “Inicialmente, o investimento será das grandes empresas”, afirmou o consultor Kilcourse. “Mas tenho certeza de que a tecnologia vai se disseminar por todo o setor.”

 

FOTO: Thinkstock