São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Sustentabilidade

Vale a pena entrar no jogo das grandes empresas?
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Em busca da sustentabilidade, grandes empresas começam a abrir a cadeia de fornecedores para as pequenas. Aprenda como se dar bem

A Kymberlito Minérios, pequena produtora de minérios utilizados na fabricação de tintas, poderia estar com a vida mais fácil se destinasse sua produção apenas a empresas de médio porte. No entanto, desde a fundação em 2008, os donos optaram por trabalhar como fornecedores de uma grande empresa, de preferência multinacional. 
Em 2009, fechou um contrato com a alemã Basf, gigante mundial do setor químico, para oferecer kimberlito para a marca Suvinil. 
Desde então, a pequena empresa de mineração instalada em Mairiporã, município da Grande São Paulo, vem passando por um gradativo processo de aprimoramento para cumprir, primeiro, as exigências de qualidade estabelecidas pela cliente. E, recentemente, se adequar aos parâmetros de sustentabilidade estendidos pela Basf para sua cadeia mundial de fornecedores. Só no Brasil, são três mil.

“É difícil para uma empresa pequena conseguir ter acesso a uma grande empresa e também trabalhoso manter o contrato”, diz Victor Sanches, sócio da Kymberlito junto com a família. “Mas o ganho organizacional é enorme. Melhoramos processos, ganhamos produtividade, estamos sempre buscando acertar os gargalos. Se tivéssemos como clientes apenas empresas menores, teríamos nos acomodado.” 

FAÇA O QUE EU FAÇO

A visão do microempresário constitui um dos trunfos perseguidos pelo movimento que pretende melhorar as condições ambientais, sociais e econômicas do planeta. Como afirma o consultor Marcus Nakagawa, da iSetor, consultoria especializada em preparar empresas para as práticas sustentáveis, o poder de influência das grandes corporações sobre suas longas cadeias de fornecimento é reconhecido como um dos fatores-chave para vencer a acomodação empresarial, mudar mentalidades e provocar as transformações necessárias.
 
Chamadas de empresas-âncora, corporações como Unilever, Vale, Nestlé e Banco Itaú, antes acostumadas a dar preferência a outras grandes empresas quando se tratava de política de compras, recentemente acordaram para a importância dos pequenos empreendedores em seus programas de sustentabilidade. 

Não se trata de um caminho fácil tanto para a empresa-âncora como para a pequena que sonha em entrar neste circuito. Não é simples desenvolver um fornecedor, mesmo para quem tem um programa estruturado há mais de 10 anos, como a Basf. E pode ser doloroso e caro o processo de adaptação do pequeno. A imagem de um departamento de compras implacável povoa – e com razão - o imaginário de grande parte das micro e pequenas empresas. 

Afirma Adriano Maia, gerente da Basf DNA área de desenvolvimento de negócios em compras para a América do Sul: “na implantação de um procedimento global para identificar maior risco na cadeia de fornecedores em relação à sustentabilidade, a grande mudança que fizemos não foi apenas em relação às empresas fornecedoras, mas à área de compras. Antes só se olhava preço. Tivemos que deixar claro que, junto com o pilar econômico, é preciso adotar as práticas de meio ambiente e social. É esta soma que gera sustentabilidade econômica.”

A grande dificuldade é desfazer a lógica esquizofrênica que prega a necessidade de inovação e mantém os departamentos de compras sob pressão do preço mais baixo e exigências descabidas. Para o consultor Marcus Nakagawa, “os compradores ainda não entenderam que sustentabilidade trata de minimização de riscos.” Para Paulo Branco, vice-coordenador do GVCes - Centro de Estudos de Sustentabilidade da FGV, “a pequena empresa tem soluções para desafios que as grandes não conseguem encontrar”. 

QUALIDADE E PRODUTIVIDADE

Fabricante de embalagens plásticas para grandes companhias e também fornecedora da Basf, a Frascomar entendeu a importância da qualificação e direcionou desde 2009 os investimentos para a certificação ISO 9001:2008. A adaptação aos procedimentos estabelecidos pela Basf, de acordo com sócio-diretor Mario Honda Shimada, “nos pegou preparados para atender aos critérios solicitados”. 

Assim como a Kymberlito, incorporar os critérios de responsabilidade socioambiental a estas práticas teve para a Frascomar um caráter de continuidade. Em 2014, a empresa não teve dificuldades com as mais de 15 auditorias a que foi submetida por clientes como Natura, L’Occitane, Disney e Galderma, entre outros. 

Embora os investimentos sejam altos, a empresa tem consciência que o retorno não deve ser medido no curto prazo. “Comprovadamente é rentável no médio/longo prazo”, diz. “Por exemplo, reduzimos em mais de 80% as queixas e reclamações de nossos clientes nos últimos dois anos e incrementamos a produtividade da nossa empresa.” Os resultados, segundo o empreendedor, podem ser vistos na atual carteira de clientes, formada por empresas de grande porte e prestígio. 

RESPOSTA VELOZ

Se conseguiram vencer a barreira de entrada e atender as infindáveis exigências das corporações para se homologar como fornecedor, as pequenas empresas não parecem ver tanta dificuldade para dar o passo seguinte. É justamente entre as pequenas que a Basf vem encontrando uma ânsia maior pelo aprendizado, como aconteceu com a Frascomar. 

No programa global Juntos pela Sustentabilidade, desenvolvido em parceria com outras multinacionais da área química, a empresa mantém uma sequência de atividades para a cadeia de suprimentos que inclui avaliação de práticas sustentáveis na cadeia, workshops e construção de plano de ação para suprir os pontos deficitários.
 
“Constatamos os maiores avanços nas empresas menores”, aponta Adriano Maia, gerente da Basf de desenvolvimento de negócios em compras para a América do Sul. “Como têm menos acesso a recursos de consultoria, demonstram muito interesse em ter um plano de ação para resolver os gaps de trabalho.” 

Na cadeia de fornecimento da Basf, a maioria das empresas de pequeno porte é familiar, com uma estrutura entre 70 e 80 funcionários. “Elas agarram com força a oportunidade de ganhar conhecimento rápido, se adequar e ver resultado”, diz Maia. Ao adotar estas práticas, os resultados ficam evidentes com o tempo em pontos críticos como, por exemplo, segurança e saúde dos funcionários. “Observamos uma redução nos acidentes. Elas também passam a conceder benefícios mais interessantes aos funcionários, como plano de saúde. No geral, ficam mais produtivas.” 

VALE A PENA ENTRAR NO JOGO?

Envolvida na primeira fase do programa da Basf, a Kymberlito Minérios vem tratando os parâmetros de sustentabilidade como uma continuidade natural dos cuidados com qualidade que já adotava. “Estamos no meio do processo para obter o ISO 9001”, afirma Victor Sanches. E uma vez por ano, a empresa consegue avaliar sua evolução respondendo ao questionário formulado pelo Instituto Ethos e adotado pela Basf como um sistema de avaliação.

Pontos fundamentais para a sustentabilidade, como o respeito à legislação tributária e fiscal, gestão financeira e economia de energia, são questões assimiladas pela empresa. “O pagamento de impostos tem acompanhamento praticamente automático pelo cliente e as condições de trabalho, como segurança e salubridade, são monitorados periodicamente por uma ONG contratada pela Basf.”, explica Sanches. 
Quanto à energia, o insumo representa 30% dos custos da mineradora e nenhum esforço é poupado para garantir a manutenção da margem de lucro. “Estamos sempre renovando maquinário para baixar esta taxa.” Os resíduos sólidos são recolhidos por uma empresa certificada. Nos planos para 2015, está a o projeto de captação de água de chuva. O próximo passo será mensurar tudo isso e estabelecer metas de redução, como prevê o programa da Basf.
 
Com estas credenciais, a empresa vem conseguindo aumentar o portfólio de clientes, mas ainda não o suficiente para diminuir a dependência do contrato da Basf. A prospecção, é claro, prioriza as grandes empresas. De acordo com Sanchez, “a meta é ter mais uma multinacional no portfólio”.
    
Para Paulo Branco, a experiência de empresas como a Kymberlito não deve ser vista pelo pequeno empreendedor como uma restrição, mas como uma oportunidade. Ele aponta uma tendência clara entre as grandes empresas mais antenadas de desenvolver seus fornecedores e abrir espaço para pequenas. “Elas estão olhando como as empresas pequenas afetam seus negócios”, diz. “Sabem que é uma dificuldade encontrar fornecedores com boas práticas. Se ele já chegar preparado, isto se torna um diferencial competitivo.”[div-img]Para quem pretende se habilitar à homologação de uma grande empresa, o consultor do Sebrae São Paulo, Rodrigo Hisgail Nogueira, indica a série de ferramentas e capacitações gratuitas oferecidas pela instituição. O empreendedor tem acesso tanto a instrumentos para gerenciar o consumo de energia e água e dar destinação aos resíduos sólidos quanto para melhorar a gestão e posicionar estrategicamente o negócio e torná-lo mais competitivo.

Se já conquistou espaço na cadeia de um conglomerado e está se perguntando se fez a coisa certa, vale o conselho de quem faz isto há seis anos. “Procuro aproveitar a agilidade proporcionada pelo meu porte pequeno”, explica Victor Sanches, “e transformar em diferencial competitivo. O pequeno é flexível e consegue resolver problemas com mais facilidade e rapidez que uma empresa grande.”

 



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