São Paulo, 05 de Dezembro de 2016

/ Sustentabilidade

Por que este empreendedor gosta do cheiro de lixo
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Como Nate Morris, que se declara um ambientalista, passou a dominar os contratos da gestão de resíduos das grandes corporações no multibilionário mercado do lixo nos Estados Unidos

Nate Morris guiou o seu Toyota Prius alugado até o estacionamento perto da Bavarian Waste Services, empresa de gerenciamento de resíduos da cidade rural de Walton, em Kentucky. Ao sair do carro, inalou o odor pútrido exalado do aterro sanitário da Bavarian.

"Sentiu o cheiro?", disse com um sorriso. "É o cheiro da oportunidade".

Ele trajava um elegante blazer azul-marinho, inadequado para uma visita ao depósito de lixo. Ocorre que Morris, 33 anos, se alterna entre dois mundos. Sua empresa, a Rubicon Global, atua como um centro de ligação da indústria às empresas coletoras de resíduos e aos recicladores que tratam os resíduos produzidos. Morris pode visitar um aterro sanitário pela manhã e, em outro momento do dia, um executivo da Fortune 500.

Desde a fundação da Rubicon em 2008, Morris ganhou o domínio dos contratos da gestão de resíduos das grandes corporações. Lojas do grande varejo, redes de supermercados e hospitais utilizam a Rubicon. A Under Armour, do ramo de vestuário, é cliente, assim como a 7-Eleven. Por meio da combinação dos Megadados e dos leilões online de contratos de coleta, a Rubicon se propõe a reduzir as contas dos resíduos dos clientes entre 20% e 30%, ao mesmo tempo em que, segundo Morris, ajuda o meio ambiente.

Para entender o que a Rubicon faz, é preciso conhecer um pouco do negócio.

Milhões de empresas americanas geram lixo, desde restos de alimentos, papelão, plásticos a diferentes outros materiais. Essas corporações contratam empresas de gerenciamento de resíduos para a coleta do lixo e para o transporte até um aterro sanitário.

Duas grandes empresas americanas, a Waste Management e a Republic Services, dominam o mercado. Possuem frotas de caminhões e centenas de aterros sanitários. Milhares de empresas coletoras de lixo, regionais e menores, preenchem as lacunas.

A Rubicon, com sede em Atlanta, não trabalha propriamente com a coleta dos resíduos. Não possui um único caminhão ou aterro sanitário. As empresas a contratam como uma espécie de consultor de resíduos. Ela começa fazendo um leilão online dos contratos de coleta de resíduos dos clientes, fomentando a concorrência entre as empresas de gerenciamento de resíduos para reduzir o preço.

Restos de pizza viram etanol e uniformes velhos, estofamentos

A Rubicon também estuda novas possibilidades de reciclagem dos resíduos dos clientes, unindo as indústrias aos recicladores que enxergam o valor oculto do lixo. Para uma rede nacional de pizzarias, a empresa indicou que boa parte dos restos da massa poderia ser transformada em etanol. A Rubicon descobriu que 400 mil uniformes velhos de um supermercado regional poderiam ser retalhados e revendidos como estofamento de camas de animais de estimação. Os recipientes que transportavam frutos do mar para uma empresa foram reutilizados no transporte de sêmen de touro para outra.

Assim, além de economizar dinheiro para seus clientes, a Rubicon consegue incentivá-los na direção da responsabilidade ambiental desviando resíduos dos aterros sanitários e os transformando em bens reciclados.


A indústria do lixo vale US$ 55 bilhões nos EUA, segundo estimativa de 2012
Foto: The New York Times

As possibilidades de ganhar dinheiro são enormes, de acordo com algumas avaliações. Um relatório da As You Sow, um grupo que promove a reciclagem, calculou que somente em 2010, na categoria específica de materiais de embalagem, US$ 11,4 bilhões em mercadorias valiosas se perderam nos aterros sanitários. De acordo com um relatório feito pelo Waste Business Journal em 2012, a indústria do lixo no geral valia US$ 55 bilhões de dólares. Números como esses explicam porque, enquanto uns prendem o nariz, Morris sente o cheiro da oportunidade.

Morris foi criado por uma mãe solteira e pelos avós maternos em Louisville, no Kentucky. No ensino médio, uma coluna fraturada acabou com a promissora carreira de futebol americano de Morris, e ele começou a se concentrar em outros interesses, como a política. A política é uma boa parte da vida de Morris, mas ele sabia que queria ganhar a vida com os negócios. Aprecia especialmente histórias de empreendedorismo como a do Coronel Harland Sanders, que construiu o império da Kentucky Fried Chicken a partir de um único e modesto restaurante na beira da estrada.

"Amo as histórias de quem vence pelo próprio esforço porque eu esperava que fosse a minha história", diz.

Quando estudava na Escola Woodrow Wilson de Assuntos Públicos e Internacionais da Princeton, ele procurou um velho amigo, Marc Spiegel, para explorar ideias de negócios. Sua família coletava lixo há gerações, e ele passou a instruir Morris no ramo dos resíduos. Aprendeu que as maiores empresas de coleta, como a Waste Management, também eram donas dos aterros sanitários; de fato, elas obtinham boa parte do lucro através das taxas que cobravam para a utilização desses aterros.

"Todos os estímulos eram centrados no preenchimento dos aterros para geração de renda", contou Morris. Ele percebeu que, se trabalhasse a favor das indústrias para conseguir renda desviando os resíduos dos aterros sanitários, isso alinharia os lucros com resultados pró-ambientais. "Sentimos que o mercado poderia se tornar líder na questão ambiental", disse.

Morris usou seus cartões de crédito pessoais para montar um site e para pagar a documentação básica, e depois procurou outro amigo de Kentucky: Hank Dudgeon, corretor de imóveis de sucesso em Washington que atualmente é o diretor de desenvolvimento comercial da Rubicon. Dudgeon usou seus contatos para colocar Morris frente a frente com o diretor executivo da principal rede nacional de pizzarias mencionada acima (que Morris não quis citar o nome por solicitação da empresa).

"Eu disse algo como 'Quero o seu contrato de lixo´”, recorda Morris, ao que o executivo da pizza, intrigado respondeu: "Ninguém nunca me pediu isso antes".

Morris falou sobre as várias maneiras que achava que a Rubicon poderia reduzir a conta do lixo da empresa – e conseguiu o contrato.

"Não imaginava você como lixeiro", disse a mãe

Um investimento crucial veio de John Ashcroft, que foi o Procurador Geral de Bush. O investimento abriu as portas para o negócio de um grande varejista, e isso, por sua vez, atraiu a atenção de um homem que Morris chama de "o Michael Jordan do lixo": Perry Moss, que trabalhava para uma corretora de lixo chamada Oakleaf Waste Management.

A indústria do lixo tem corretores que trabalham para a redução dos custos das coletas dos clientes. Mas quando a Oakleaf entrou em cena, em meados dos anos 1990, ela modernizou esse segmento da indústria, introduzindo um sistema de cobrança online e orientando os clientes no sentido da reciclagem.

A Oakleaf cresceu tão explosivamente que chamou a atenção da Waste Management, que a comprou em 2011. Porém, Moss, cuja paixão era a reciclagem, sentiu que os seus valores não se alinhavam com uma empresa tão profundamente envolvida com aterros sanitários como a Waste Management. Então, ingressou na Rubicon como presidente em maio desse ano.

A contratação de Moss preparou a Rubicon para atender clientes em todos os 50 estados americanos, bem como no Canadá e em Porto Rico. Além de marcas como a 7-Eleven, empresas menos conhecidas com grandes pegadas contrataram a Rubicon.

Um cliente é Martin-Brower, que entrega 520 milhões de caixas de produtos a 18 mil restaurantes anualmente e é o principal distribuidor do McDonald's. Steve Kinney, um dos vice-presidentes da Martin-Brower, disse que a experiência da Rubicon havia ajudado a empresa a descartar resíduos orgânicos, papelão e embalagem a vácuo mais eficientemente.

Ao se declarar um ambientalista, Morris acrescenta: "Senti que isso era um problema que muitas pessoas de dentro da minha própria convicção política ignoravam, e sinto que deva ser o nosso problema. O principal propulsor das mudanças ambientais não deveria ser o governo ou as ONGs; deveria ser o mercado".

É com isso, pelo menos, que Morris está contando quando tenta aplicar as ferramentas inteligentes do Vale do Silício às montanhas de lixo em decomposição do Kentucky rural e além. É uma visão improvável, e ele ainda acha que leva tempo para explicar. Na volta do aterro sanitário da Bavarian Waste, ele se lembrou da reação da mãe quando ele lhe revelou o seu negócio embrionário.

Ele se recorda do que ela disse: "Não imaginava você sendo um lixeiro. Você poderia ter feito isso quando saiu do ensino médio".Isso foi há muitos anos. "Ela mudou de opinião", diz Morris.

Do The New York Times News Service/Syndicate

 



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