São Paulo, 26 de Setembro de 2016

/ Sustentabilidade

O exemplo ético vem de cima. Ou não?
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Uma pesquisa revela que gestores formam o grupo mais propenso a pegar atalhos antiéticos para cumprir suas metas. Sinal de alarme para empresas que querem cultivar a transparência para conviver com a lei anticorrupção

Veja dois exemplos, entre outros, de companhias que estabeleceram a prática de tolerância zero:

*No Magazine Luiza, o “Disque-Presidente” é um canal de comunicação direto entre os colaboradores da rede, a empresária Luiza Trajano e a diretora de gestão de pessoas Telma Rodrigues, para denunciar de forma sigilosa práticas em desacordo com os princípios da empresa. Dois auditores trabalham silenciosamente na apuração de denúncias.

*Na Totvs, multinacional brasileira de capital aberto que desenvolve softwares para MPEs, há um Comitê de Conduta instituído desde 2008. Também conta com um canal de denúncias gerido por uma empresa externa, para fortalecer a cultura baseada em melhores práticas de governança corporativa. E sua empresa, está preparada para lidar com comportamentos antiéticos? 

Medidas exageradas? Saiba, então, que um estudo recente com mais de 3 mil profissionais de 45 companhias de diferentes setores e portes concluiu que a metade deles tende a adotar atalhos tidos como antiéticos para atingir suas metas. E mais: 40% aceitariam presentes para beneficiar um fornecedor.

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Essas revelações emergem da “Pesquisa de Perfil Ético”, conduzida pela ICTS Protiviti, uma consultoria especializada em auditoria e gestão de riscos. O que chama a atenção é que daqueles favoráveis aos “atalhos”, 63% são graduados, e 56% pertencem a áreas de gestão. Ou seja, de onde deveria vir o exemplo.

Diante disso, é possível afirmar que a pesquisa reflete um ambiente corporativo pouco confiável no País, ou que o resultado é uma espécie de alerta para as organizações?

"A conclusão é que as empresas devem deixar claro e explícito o que é esperado dos funcionários em termos éticos. E criar mecanismos para que isso faça parte da rotina por meio de programas estruturados que envolvem comunicação e conscientização", afirma Marcelo Forma, sócio-diretor da ICTS Protiviti.

Ainda que mais de metade dos entrevistados seja contra comportamentos antiéticos no ambiente de trabalho, como constatou a pesquisa –56% dos funcionários disseram que denunciariam atos ilícitos incentivados pela empresa –o fato é que, de acordo com Forma, menos de 20% das companhias estão preparadas para conviver com os rigores da lei anticorrupção, sancionada em janeiro de 2014.

“Quando situações de desvio ético se manifestam, podem não só deteriorar os resultados, mas gerar um problema enorme de imagem e de reconhecimento público principalmente por parte dos clientes”, afirma Forma.

PREVENÇÃO É O MELHOR CAMINHO

No Magazine Luiza, a presidente Luiza Helena e a diretora de gestão de pessoas analisam pessoalmente as denúncias. O sigilo é garantido e nenhum colaborador sofre pena, punição ou retaliação por testemunhos sobre práticas de má fé ou lesão ao patrimônio da empresa. “Com esse canal, todos são convidados a manter a política de transparência e diálogo aberto”, afirma um assessor da rede.

Já na Totvs, onde “parte extremamente importante da cultura da empresa é baseada em pessoas”, segundo Alexandre Mafra, vice-presidente executivo de finanças e RH, uma das práticas mais comuns é checar a aderência do colaborador ao DNA da empresa desde o início.

Essa checagem inclui testes de background (espécie de avaliação educacional) e aplicação de questionários para avaliar questões ligadas à ética, desde que os funcionários entram na empresa.  “São práticas que resultam em uma imagem extremamente forte e relevante de governança junto aos investidores e clientes”, diz Mafra.

Seguindo essa linha, Forma recomenda aos clientes realizar procedimentos preventivos por meio de ferramentas desenvolvidas pela consultoria capaz de identificar, no processo de recrutamento e seleção, o nível individual de compliance dos participantesou seja, de agir de acordo com as regras estabelecidas pela organização. “A ideia é saber como o colaborador se comportaria caso enfrente situações de suborno, fraude, ou vazamento de dados que causariam prejuízos enormes aos envolvidos”, diz.
Forma: testar desde o processo de seleção dos candidatos

Para Luiz Edmundo Rosa, diretor da ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos, a simples existência da legislação, embora signifique um passo importante no combate à corrupção, é insuficiente para coibir a contravenção.

“Temas como esse não fazem parte do currículo das escolas da maneira que a lei defende”, afirma ele. “Há uma grande ineficiência na discussão a respeito dos limites do certo e do errado’. É algo que não está bem difundido na população, e são tantas as tentações para desvios de conduta, que a melhor chance que se pode dar é educar.”

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Uma informação alentadora é que em uma análise feita pela ICTS com mais de 35 mil pessoas em processos seletivos no Brasil, 22% mostraram princípios tão rígidos que, haja o que houver, indicaram que atuariam de forma ética ante11% que demonstraram alta propensão ao risco.

São indivíduos que, caso expostos a situações de conflito ético, colocariam seus interesses acima da organização. “Mas, 67% indicaram atuar conforme regras e ambiente onde se inserem. Daí a importância de trabalhar fortemente princípios éticos na empresa”, afirma Forma.

Outra questão fundamental que se coloca diz respeito à formação das lideranças -sejam supervisores, chefes, gerentes ou coordenadores -dentro de um grupo de trabalho com referências de ética -o exemplo que vem de cima. “O primeiro grande investimento da empresa depois da educação é na formação de líderes éticos. Afinal, se um líder tem falhas nesse sentido, como esperar essa característica dos funcionários?”, diz Rosa.

 



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