São Paulo, 28 de Setembro de 2016

/ Sustentabilidade

É possível transformar o custo saúde em prosperidade econômica
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Um estudo mostra que investir em prevenção e hábitos saudáveis da população pode liberar 10% do PIB mundial de gastos com tratamentos médicos

Um funcionário afastado do trabalho por problemas de saúde significa um custo extra para a empresa, aumento na taxa de sinistralidade  do benefício saúde e produtividade em queda. 

Uma família sem plano corporativo de saúde pode gastar 30% do orçamento e até ter uma quebra econômica em razão de problemas médicos de algum membro, dinheiro que será desviado do consumo, da alimentação, do lazer e da educação. 

Uma empresa destina 70% do orçamento de benefício saúde para cobrir as despesas de 15% de funcionários portadores de doenças crônicas. 

Os gastos da população brasileira com o sistema de saúde (público e privado) correspondem a 9% do PIB. Contrariando a crença geral, a participação privada é maior do que a pública e muito dinheiro sai do bolso do paciente.

Um quadro desanimador. O financiamento da saúde sempre foi encarado por governos e cidadãos de toda parte como um grande passivo a ser aceito com resignação. Doentes precisam ser financiados. Ponto. No entanto, num mundo em que o dinheiro anda escasso, muita gente começou a se perguntar como seria possível transformar este sorvedouro de recursos financeiros, sociais e humanos em uma fonte de prosperidade para os países. Por que há tão pouco investimento em promoção e acesso à saúde quando comparado com os investimentos em setores tradicionais?

CUSTOS X INVESTIMENTOS

A combinação de pessoas em más condições de saúde, tempo dos cuidadores, prejuízos pelo absenteísmo na empresa, despesas do serviço social e aposentadorias forçadas levou a Organização Mundial de Saúde-OMS a calcular o custo global com cuidados médicos em 10% do PIB mundial.

No Brasil, calcula-se em 8,9% do produto interno bruto. Nos Estados Unidos, em 2009, o custo médico relacionado à obesidade foi estimado em US$ 152 bilhões.

Como se vê, o discurso na área de saúde gira sempre em torno de despesa. Um grupo de pesquisadores percebeu que trocar o conceito de custo por investimento pode ser a chave para mudar este cenário. Custo pesa, investimento tem retorno. No lugar de um sistema dominado pelo conceito de atenção à doença, entra o de população saudável.  

A ideia vem se espalhando e chegou este ano ao Fórum Econômico Mundial, a reunião em Davos, Suíça, que reúne a nata política e financeira do planeta. O porta-voz foi o relatório Maximizing Healthy Life Years: Investments that payoff  ( em uma tradução livre, Maximizando os anos de vida saudável: investimentos que se pagam), produzido pela consultoria de negócios Bain.

Os especialistas defendem  que direcionar os investimentos para que as pessoas vivam mais tempo com saúde terá um impacto poderoso sobre o crescimento econômico. Seria a criação de um ciclo virtuoso da economia e da saúde. 

 

FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL APOSTA EM UM CICLO VIRTUOSO E UMA NOVA MENTALILDADE PARA A SAÚDE

PARECE FÁCIL FALAR...

Por que a simples troca de um conceito poderia revolucionar um sistema quase impermeável a mudança de hábitos? O fator decisivo, segundo o estudo, está em se calcular o retorno sobre o investimento, o ROI, em cada uma das ações necessárias.

E quando se fala em ROI fica muito mais fácil vender a ideia para investidores, empresas, governos e até indivíduos. Todo mundo gosta de ganhar, seja dinheiro vivo, seja sobra no orçamento para investir em outras áreas da vida, seja mais alegria e produtividade. 

Para incentivar governos e empresas a olhar de forma diferente sobre o potencial de retorno do investimento proporcionado por uma população saudável, os pesquisadores fizeram uma série de simulações com exemplos reais de ações benéficas à saúde.

Calcularam o ganho com um projeto existente em Singapura, onde reside uma população adepta de comidas gordurosas. Para reduzir os casos de doenças cardíacas, a secretaria de saúde local subsidia a compra de óleo de cozinha saudável para quem come fora. Em cinco anos, o projeto terá um retorno sobre o investimento (ROI) de 1.100%. O que seria um custo alto no orçamento da cidade entrou como investimento de grande rentabilidade. 

Chegar a um estado da arte na saúde não implica aumentar os brutais investimentos já feitos. Trata-se mais de calibragem. O relatório chegou a um conjunto de situações que representam pontos com forte poder de influência sobre o estado de saúde de um indivíduo, para melhor ou para pior.

Para governos, empresas e investidores, fazer o investimento certo nestes campos tem reflexo direto na longevidade saudável. É, portanto, uma garantia do melhor retorno sobre o investimento. São eles:

1.Ambiente favorável para a saúde
2. Gravidez saudável
3. Alimentação equilibrada na infância
4. Vacinação adequada
5. Engajamento social adequado
6. Mínimo de conhecimento em literatura médica
7. Peso corporal saudável
8. Senso de autoeficiência
9. Alta taxa de adesão ao tratamento

A partir desses gatilhos, os especialistas desenharam um mapa do ecossistema da saúde para ajudar governos, empresas e investidores a compreender quais medidas tomar em defesa de uma população saudável. São sete fatores interdependentes que articulam uma infinidade de ações simultâneas.  

Não se trata de uma reforma qualquer. O ecossistema de saúde pode ser considerado uma das áreas mais complexas que cercam nossas vidas. Não é a toa que os investidores de risco pouco se animam a colocar dinheiro neste mercado, mesmo com tal potencial. 

Doença ainda é um tema tabu para ser misturado com negócios. Há um silêncio sobre o quanto pode ser oneroso um doente para sua família, para a empresa onde trabalha, para o sistema de saúde, para a sociedade. E para si próprio. No Brasil, o custo pesa especialmente para os parentes - quem financia a maior parte das despesas de saúde no país são as famílias brasileiras. 

Dinheiro não falta para o sistema de saúde do país, apesar da constante reclamação dos envolvidos. Falta clareza para decidir onde investir no setor, dizem os especialistas, falta elencar prioridades. Exatamente o achado dos autores do estudo da Bain com sua lista de situações-chave para conquistar a longevidade saudável e fazer bons investimentos. 

Para Norbert Hueltencschmidt, coautor do relatório e executivo da consultoria Bain, “todos os investidores esperam um retorno. A vontade para investir de ambos os setores, público e privado, depende da prova de que esses retornos se concretizarão." 

No final do relatório, ele tenta responder a uma pergunta crucial: por que há tão pouco investimento em promoção e acesso à saúde quando comparado com os investimentos em setores tradicionais? Para que o ‘retorno sobre o investimento’ cumpra seu papel, ele reconhece que muitos desafios terão que ser repensados, a começar pela falta de alinhamento entre os setores público e privado, que se comportam como concorrentes. 



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