São Paulo, 08 de Dezembro de 2016

/ Sustentabilidade

Construção sustentável traz novo fôlego ao mercado imobiliário
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A oportunidade de passar de "predadoras" a "benfeitoras" agita o mercado de construtoras e incorporadoras. Melhor para os pequenos negócios, que terão papel essencial nesta transformação, simbolizada pela reforma do Maracanã

Nas entranhas do mercado de construção civil está sendo gerado um movimento que pode resultar em uma mudança radical para o setor. Veja estes dados:

Desde 2005, o mercado da construção sustentável nos Estados Unidos disparou de U$ 10 bilhões para U$ 236 bilhões. O país lidera o ranking mundial do Green Building Council (GBC), rede de organizações, presente em 150 países, dedicada a estimular e certificar obras mais eficientes, saudáveis e feitas para durar.

Nesse ranking, o Brasil ocupa a terceira posição, com 70 prédios certificados com o selo internacional LEED, do GBC, (entre os quais os estádios da Copa, como o Maracanã) e mais de 500 em processo de certificação . As práticas pregadas pelo GBC e outras instituições do setor começam a se transformar em lei em muitos países, inclusive no Brasil.

Para completar, o Banco Mundial elegeu como prioritário para seus investimentos o setor de construção verde. O organismo de fomento prevê que este movimento representará pelo menos 20% do mercado imobiliário brasileiro até o final da década.

Por que estas informações são importantes para quem tem um pequeno negócio? Indicam que há um movimento irreversível e rápido a caminho em um dos setores com o maior número de fornecedores na cadeia produtiva. E quanto mais cedo alguém se adaptar, melhor proveito terá das oportunidades abertas pelo setor. E menos riscos correrá de sofrer sanções, que tendem a ficar cada vez mais duras em relação à construção descuidada, seja grande ou pequena.  

Entre o céu e inferno

Em uma grande obra, há mais de mil fornecedores envolvidos. Desde corporações fabricantes de cimento e aço a pequenas empresas de produtos e serviços.

Encarado como vilão e objeto de desejo nos grandes centros urbanos, o mercado de construção civil vive entre o céu e o inferno.

Mesmo sendo uma das locomotivas do desenvolvimento, convive com a fama de campeão de informalidade, desperdício exagerado de materiais, práticas ilícitas e, principalmente, predador do equilíbrio ambiental do planeta. De acordo com dados do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), a cadeia produtiva do setor consome quase metade das matérias-primas extraídas da natureza.

A energia solar terá papel-chave na sustentabilidade das metrópoles 

A reação a este cenário veio combinada com o movimento pela sustentabilidade, o sistema de gestão que leva em conta a integração da economia com a responsabilidade social e ambiental. Desde o início de 2000, os princípios da construção sustentável vêm aos poucos ocupando luga nos projetos ou reformas de habitação, espaços públicos e edifícios comerciais.

Estes cuidados se tornaram mais urgentes com a entrada em vigor da Política Nacional de Resíduos Sólidos, a Lei 12.305/2010, que traz uma série de obrigações para as empresas e cidadãos cumprirem em relação à destinação correta do lixo.

As práticas de construção sustentável são caracterizadas por tornar uma edificação mais funcional e integrada ao lugar em que está erguida. Inclui fatores ambientais e sociais, como o uso racional e o reuso da água e o aproveitamento da água da chuva, preferência pela iluminação natural, uso de materiais menos agressivos ao meio ambiente, economia de energia e uso de energia renovável, encaminhamento corretodos resíduos, conforto térmico e acústico, tratamento justo dos trabalhadores e cuidados com a vizinhança durante a obra, entre outros pontos.

Um mercado em expansão

Como sabe todo empreendedor, onde há mais riscos há mais oportunidades. No alto da cadeia produtiva, as grandes construtoras, como Even, Cyrela e Camargo Corrêa, têm movido suas redes de fornecedores com as premissas da construção sustentável e passaram a planejar boa parte de suas obras para receber uma das certificações à disposição no mercado.

Contribui para a iniciativa a pressão de clientes e investidores, que não abrem mão da exigência de eficiência e custos controlados nos prédios corporativos de alto padrão (chamados de Triplo A).

Na outra ponta da cadeia, o escritório de arquitetura Ecohabitar adota desde 2007 várias práticas de construção sustentável. Instalado na Granja Viana, em Cotia/SP, a empresa é comandada pelo administrador Gonçalo Soares e a arquiteta e bióloga Maria Martha Nader.

“Existem elementos que podem e devem ser utilizados”,diz Gonçalo, “como o aproveitamento dos ventos, a seleção de materiais que exigem baixa manutenção e menos resíduos, a captação da água e seu reuso e a utilização de madeira certificada e materiais de demolição.”

Uma das pragas da construção civil - o desperdício de materiais, que pode chegar a 40% segundo o CBCS – é enfrentado pela Ecohabitar com o uso de tecnologia. Os sócios adotam o programa Modelagem Inteligente, que proporciona uma visão 3D do projeto e, com isso, conseguem calcular com antecedência todas as necessidades e custos da obra.

Em seus projetos residenciais e comerciais, eles propõem a eficiência energética e adequação ambiental a um custo similar a um projeto convencional.

O dilema do custo

As dúvidas com os custos ainda são um dos maiores empecilhos para a difusão da construção sustentável no país. De acordo com Érica Ferraz de Campos, diretora do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), fórum de empresas e profissionais dedicado à divulgação técnica sobre o tema, acreditar que o gasto excessivo faz parte de obras verdes é uma concepção equivocada.

“O conceito de construções sustentáveis associa-se diretamente aos espaços racionais e eficientes. Significa apresentar um potencial de menor consumo de insumos, tanto na fase do projeto quanto na execução”.

O diretor da Ecohabitar reforça esta visão: “O melhor jeito de economizar em uma obra sustentável é pensar na forma como será a sua utilização futura. Recursos como o aproveitamento de água da chuva, o aquecimento solar e uso de telhados verdes, além de gerar uma economia muito grande após dois a três anos de utilização, ainda fazem com que o cliente consiga melhores vantagens ao fazer um financiamento bancário”.

Para a consultora do Sebrae Dórli Martins, no entanto, o grande entrave para as pequenas empresas que desejam entrar nesse mercado é a falta de informação técnica. “O pequeno empresário acredita que só as grandes empresas têm acesso à sustentabilidade e que tornar o seu negócio mais verde será muito custoso”, diz. 

Conduzida pelo próprio conselho, a pesquisa Aspectos da Construção Sustentável no Brasil e Promoção de Políticas Públicas, que ouviu 381 pessoas do setor este ano, confirma a carência de conhecimento técnico e de capacitação. E revela o que mais está por trás da dificuldade de assimilar as vantagens da construção sustentável.

A maior parte das respostas aponta também como limitadores a falta de campanhas de esclarecimento à população e de demanda por maior grau de capacitação técnica dos envolvidos; a necessidade de criação de ferramentas específicas; a inexistência de incentivos e linhas de financiamentos; e a melhora da legislação e regulamentos específicos. 

Os americanos levaram oito anos para consolidar um caminho sustentável para a construção civil, e hoje o setor está 20 vezes maior. Ao fazer isto, desbravaram um novo mercado para grandes e pequenas empresas do país. Mesmo demorando um pouco mais, o Brasil caminha para chegar lá. 

(Com reportagem e pesquisa de Bianka Saccoman)