São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Sustentabilidade

Aumentar o preço da água poderia anular rodízio, diz economista
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Em palestra na Associação Comercial, Ronaldo Motta, professor da UERJ, defende a elevação da conta de água e medidas ambientais mais rígidas

Desde a confirmação do período de estiagem, ideias sustentáveis e econômicas começaram a ser colocadas em prática pela população para o uso de um dos bens mais fundamentais para a manutenção da vida: a água.

A falta de chuvas e a seca dos mananciais geraram uma infinidade de teorias a respeito da crise hídrica. Como especialista, Ronaldo Serôa da Motta, professor de Economia do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e ex-coordenador de Estudos de Regulação e de Meio Ambiente do IPEA, também tem a sua, e a expôs durante a reunião da CPU (Conselho de Política Urbana), e do COE (Conselho de Economia), da ACSP (Associação Comercial de São Paulo).

Segundo Motta, diminuir o tempo do banho, checar vazamentos e utilizar água de reúso são medidas válidas e que devem ser seguidas de maneira ortodoxa. A questão, segundo afirma, é que o valor cobrado pela água não corresponde ao atual momento. Por isso, a elevação do preço seria uma alternativa ao tão temido rodízio.

Em linhas gerais, Motta defende fixar um preço realista para a água capaz de demonstrar o quanto é escassa. Assim, quando a oferta é pouca e a demanda é grande, preços maiores indicam que a água deve ser poupada. Para Motta, o custo praticado hoje sugere que esse bem essencial é farto e inesgotável - o oposto do que mostra a crise atual, principalmente na região sudeste.

"Os valores poderiam variar em regimes de escassez hidrológica. Há legislação que possibilita essa regulação e isso pode ser discutido e aplicado de forma gradual", diz. “Nossa política de preço da água, do ponto de vista econômico e ambiental, é simplesmente insustentável: criamos consumo intensivo e os preços sinalizam a abundância do recurso. É um paradoxo.”

Outro ponto abordado pelo economista, diretamente ligado à falta de água, diz respeito ao desmatamento. De acordo com Motta, o Brasil é exemplo no controle de desmatamento de florestas devido a uma combinação que envolve decisões políticas, alta capacidade de monitoramento e reforço institucional.

Ele cita dados de 2011, do Prodes (Projeto de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia Legal), operado pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que apontam que em 2011 a Amazônia teve o menor índice de desmatamento dos últimos 23 anos - o instituto começou a fazer a medição, em 1988.

A perda somou uma cobertura vegetal de 6.418 quilômetros quadrados, entre agosto de 2010 e julho de 2011 – uma área equivalente a quatro vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Na época, o governo federal afirmou que houve uma redução de 8% em relação ao ano anterior.

Apesar do resultado positivo, o especialista destaca que o Brasil precisa investir mais e apresentar medidas mais eficazes no combate à degradação florestal. Segundo Motta, o momento de crise econômica e ambiental tem que ser visto como uma oportunidade de inovação. "Temos que agrupar investimentos até 2020. Se nada for feito agora, será mais caro e problemático no futuro", diz.

Para Rogério Amato, presidente da ACSP, a crise hídrica é extremamente preocupante. “É um assunto de sobrevivência, muito mais sério do que uma falta de água temporária. Quando olhamos para a história do mundo, vemos que cidades inteiras desapareceram diante do mau uso da água. Temos que mobilizar todos para esta questão.”

Antonio Carlos Pela, coordenador da CPU e vice-presidente da ACSP, acredita que a opinião pública e a sociedade devem se fortalecer para enfrentar a crise. “Trata-se de um problema de gestão, pois temos os recursos. Recordo-me que o apagão energético, em 2001, obrigou toda a população a rever hábitos e mudar atitudes. Acredito que o mesmo acontecerá com a crise hídrica. Vamos valorizar mais este recurso vital e nos inteirar do que pode ser feito no cotidiano”, diz.  

 



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