Opinião

Voltando ao jogo


Depois da ação na Síria neste 6 de abril, o mundo certamente se torna menos volátil com a volta dos Estados Unidos ao jogo diplomático e militar internacional


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 07 de Abril de 2017 às 13:47

  | Historiador


Não resta dúvida de que o ataque de mísseis dos Estados Unidos contra instalações militares sírias que estariam armazenando armas químicas foi um ponto de inflexão na estratégia norte-americana para a guerra civil na Síria. No entanto, mais do que o consenso de que houve mudança, é preciso saber em que sentido.   

Uma semana atrás, escaldados pelo desastre no Iraque e pela desordem sangrenta na Líbia, os Estados Unidos, agora mais alinhados a Israel, haviam se posicionado de maneira realista em favor de alguma estabilidade na região, assumindo que era melhor lidar com Assad do que com a imprevisibilidade que sobreviria à sua queda.

Depois de sete anos, a Primavera Árabe se revelara um fracasso completo, um erro monumental consumado por uma sucessão de outros, desde a suposição de que a democracia liberal pudesse ser implantada em países sem tradições e mecanismos de representação política até a insensatez de igualar as situações de Egito e Síria, na verdade, completamente distintas. 

Como Kissinger já havia mostrado, na Síria, as manifestações da Primavera Árabe desencadearam um conflito entre sunitas e xiitas, agravado pela “complexidade demográfica” do país que arrastou para a guerra grupos étnicos e religiosos que não podiam confiar uns nos outros, e pelo envolvimento de potências mundiais e regionais que colocaram o peso de seus interesse em uma guerra que fragmentou o território sírio em enclaves de sobrevivência.

Em tal contexto, o apelo de Barack Obama, em agosto de 2011, para o afastamento de Bashar al-Assad, e a pressão dos Estados Unidos na ONU nesse sentido e por um governo de coalizão soaram como ingenuidade e fraqueza que foram cruamente aproveitadas pela Rússia e Irã.

É a partir dessa perspectiva que se pode alargar as vistas sobre o que significou o ataque  de 59 mísseis de cruzeiro Tomahawk desencadeado às 21:40 hs dessa 5a feira (horário de Brasília) pelo USS Ross e USS Porter contra a base aérea síria de  Shayrat, atingida por 58 deles. E colher alguns indicativos.
IMAGEM DE SATÉLITE DIVULGADA PELO PENTÁGONO MOSTRA OS EFEITOS DO ATAQUE DE MÍSSEIS

Em primeiro lugar, que os Estados Unidos não tolerarão a posse, e muito menos o emprego, de armas de destruição em massa por estados renegados. O recado está dado à Coreia do Norte, e talvez  não houvesse oportunidade melhor de transmiti-lo do que na ocasião do jantar oferecido por Donald Trump ao presidente chinês  em sua residência de Mar-a-Lago, na Flórida, uma hora antes do ataque.  

Trump, um falador nato, fala alto e claro também por intermédio de seus principais assessores. Dessa vez, a bola foi levantada pela contundente Nikki Haley, embaixadora norte-americana na ONU que na 4a feira transmitiu duro recado à Rússia: ou ela usa as rédeas em seu cliente sírio, ou se prepara para ações unilaterais dos Estados Unidos.

Bola cortada pelo Secretário de Estado Rex Tillerson, afirmando, após o ataque, que na questão das armas químicas do governo sírio “a Rússia é cúmplice ou simplesmente incompetente”. Em suma, acabaram-se os dias fáceis para Putin. 

E indo para a torcida, contando com o apoio de aliados europeus, Israel e vários países do Oriente Médio ao seu ataque à Síria, e com a neutralidade da China, o próprio Trump apelou a todas as nações civilizadas a se juntarem aos Estados Unidos para “acabar com o terrorismo de todos os tipos e de todos os modos”.  Sem dúvida, um pontaço, engolido em seco também pelo Irã. 

São simplesmente pueris algumas análises que já pululam na imprensa a respeito da iniciativa de Trump em punir Assad e enviar a devida sinalização a outros atores da grande cena internacional. Move-as muito mais a ideologização da opinião que há de criticar Trump por ser Trump, do que entender o que ele deve fazer como presidente do país mais importante do mundo. 

Em 2013, Assad matou mais gente. Mas em 2017 o mundo ficou mais complicado por conta de seus patrocinadores russos e iranianos, e da ameaça que representa outro ditador bem mais perigoso sob a complacência chinesa. Quem está vendo os mísseis atingirem apenas Assad está enxergando pouco. 

O mundo continuará a ser tão perigoso como sempre foi, porém, depois da ação na Síria neste 6 de abril, ele certamente se torna menos volátil com a volta dos Estados Unidos ao jogo diplomático e militar internacional.  

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