São Paulo, 07 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Viver sob o terror
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Os atentados de Copenhague e Paris diferem dos de Madri e do 11 de Setembro, embora as duas formas de terrorismo reflitam a intolerância criminosa

O recente atentado em Copenhague vai criando uma rotina de violência contra a liberdade de expressão, travestida de vingança contra blasfêmias. Há diversos aspectos a considerar nesse atentado.

Em primeiro lugar, trata-se de um ato violento e condenável, mas que não tem todas as características de um atentado terrorista.
O terrorismo se caracteriza pelo uso premeditado, ou pela ameaça do uso premeditado, de violência contra pessoas ou grupos, com o objetivo de alcançar um objetivo político ou social, através da intimidação de uma grande audiência que vai além das vítimas imediatas.

O atentado de Copenhague pretendia, antes de tudo, vingar o que os perpetradores consideraram uma blasfêmia. Tratou-se de uma punição a indivíduos isolados que se reuniram para discutir a liberdade de expressão envolvendo temas ligados à religião.

Em Copenhague, as vítimas eram conhecidas. O atentado terrorista típico ignora quem são suas vítimas.

Em Copenhague, o número de vítimas foi relativamente pequeno; em atentados terroristas típicos, como a explosão de carros bomba em uma feira no Iraque, busca-se o maior número possível de vítimas.

Além disso, há a questão do objetivo político ou social. O terrorismo pretende, como o próprio nome indica, imobilizar as pessoas pela brutalidade da violência gratuita.

De certa forma, assemelha-se ao bombardeio aéreo de populações civis em uma guerra convencional: pretende-se com ele destruir a moral de uma população e sua capacidade de continuar apoiando as forças armadas convencionais na luta contra o inimigo.
Copenhague e Paris têm muito mais em comum que as ações do grupo terrorista Boko Haram, na África Ocidental, ou do al-Qaeda, no Iêmen, ou no episódio dos atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos.

Quanto aos métodos, há também diferenças essenciais entre o terrorismo convencional e os ataques a Copenhague e Paris. Esses métodos assumem uma variedade de formas que envolvem principalmente o emprego de explosivos de alto poder de destruição e cujas consequências são de ampla visibilidade.

Quaisquer que sejam as formas, os objetivos são claros: aplicar suficiente pressão sobre um governo para dele obter concessões de natureza política.

Daí a importância da grandeza do ato: se um governo a que se dirige o um conjunto de atentados considera que os custos de futuros atos de terror podem ser maiores que os custos de ceder às demandas dos terroristas, é possível que daí resulte alguma forma de acomodação entre as partes em conflito.

É, portanto, do maior interesse de um grupo terrorista aumentar as consequências de seus atos, não os limitando a eventos desconexos e esparsos.

Serão ainda mais eficazes se constituírem uma cadeia de eventos com enormes danos econômicos, incluindo-se nessa categoria a destruição de prédios e instalações, civis e militares, de oleodutos e refinarias de petróleo, de outras instalações de importância econômica – tudo isso sobreposto à perda de vidas, a um aumento do nível de ansiedade da população e a outros custos econômicos.

O conjunto de episódios no dia 11 de Setembro causou custos estimados entre 80 e 90 bilhões de dólares, considerando-se apenas o valor dos salários perdidos pelas mais de 3.200 vítimas dos ataques, a destruição dos prédios e dos aviões e a redução do comércio nas áreas atingidas – sem levar-se em conta, é claro, o valor das vidas perdidas, inestimável por qualquer método de cálculo, e da dor das famílias dos que perderam suas vidas naquela estupidez.

São esses fatores que me levam a distinguir o que ocorreu em Copenhague e Paris dos acontecimentos no metrô de Madrid em 11 de setembro de 2004, com 191 mortos e 1.700 feridos.

Nas democracias ocidentais injúria, difamação e outros crimes contra a honra são passíveis de processo judicial contra os ofensores. As punições estão prescritas em lei. Não cabe, portanto, a quem quer que seja, tomar a lei em suas próprias mãos e executar friamente seus detratores.

A ocorrência de tais atos diz muito a respeito das práticas e costumes que esses grupos pretendem preservar contra o que consideram sérias violações de sua cultura.

Não é o ponto de vista majoritário das populações de países com maioria muçulmana, onde as pessoas querem simplesmente levar suas vidas sem envolver-se com a política.

Terroristas têm motivações políticas e são delinquentes. Distinguir essa gente dos demais é imperativo se quisermos entender o que como praticam seus atos criminosos. Simples assim.

 



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