São Paulo, 05 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Uma certa Europa começou a morrer
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A reação grega não é apenas uma questão econômica. Ela é sobretudo política, por representar o primeiro e imenso recuo no projeto glamouroso de construção europeia

Digamos que o plano não poderia ter sido mais generoso. Transformar um mercado comum em união política entre seus Estados membros e em seguida dotá-la de uma moeda única. 

O calote grego a instituições como o BCE (Banco Central Europeu) corresponde ao mais dramático limite desse cenário.

A questão não está em saber se o governo grego tinha sólidas razões - como o naufrágio econômico provocado por anos seguidas de austeridade econômica- ou se a boa lógica estava do lado dos credores, a começar da Alemanha, onde os assalariados sentiam-se como financiadores de um pequeno país em que as aposentadorias, e é apenas um exemplo, eram mais precoces e mais generosas que as deles.

A verdadeira questão está na impossibilidade de unificar sob o mesmo manto monetário economias e projetos políticos díspares, que cedo ou tarde forçariam a emergência de conflitos insanáveis. 

Recapitulemos. A Europa começou a nascer no início dos anos 1950, com o projeto da Comunidade do Carvão e do Aço. Um punhado de países juntava seus recursos naturais para impedir que algum deles procurasse se expandir por meio de uma nova guerra, em nome da busca de um suposto espaço vital.

Veio em 1956 o Tratado de Roma, que dois anos depois daria nascimento ao Mercado Comum Europeu. A lógica permanecia a mesma: integrar de tal forma as máquinas produtivas nacionais que se tornaria impossível um conflito entre fabricantes e fornecedores de insumos, entre industriais e seus clientes.

Foi essa a primeira Europa, que respirava  como foco institucional de dissuasão de novos conflitos. Os europeus ainda vivos e os mortos da Segunda Guerra Mundial eram, no caso, os grandes atores.

A segunda Europa começou a nascer com a ideia de que a integração entre os Estados Membros era um processo contínuo e com tendência a uma constante radicalização. Entretempos, a reunificação da Alemanha (1991) forçou relisticamente a França - sua eterna rivval - a aceitar como hegemônico o antigo inimigo de três sangrentas guerras (a de 1871 e as duas mundiais do século 20).

François Mitterrand e Helmut Kohl foram então os arquitetos dessa Europa radicalizada que incluía diplomas universitários que passariam a valer em qualquer território do bloco à desregulamentação do setor financeiro (um belga poderia ter conta corrente na Espanha) ou às privatizações (a Renault, por exemplo), para que o Estado de determinado país não concorresse com o setor privado de outro.

Veio então o Tratado de Maastricht, que previa a instituição de uma moeda conjunta. Dos atuais 28 Estados membros, 16 adotaram o euro.

Paradoxalmente, surgiu um movimento que definia a construção da Europa em duas velocidades - uma marcha mais lenta para os pobres que nela ingressassem, e uma marcha mais veloz para os mais ricos que nela já se encontravam. Em outras palavras, não haveria dinheiro, por exemplo, para novos empréstimos a fundo perdido que levantaram a Espanha (sobretudo por meio da construção civil) ou a Itália (com o desenvolvimento das regiões do Sul).

A Grécia entra na história como uma espécie de patinho feio, sem capital ou tecnologia para disputar uma banqueta com os grandes, mas dona de um binômio praia-história que continuaria a atrair milhões de turistas.

Foi justamente entre os gregos que se construiu a primeira tempestade perigosa para o bloco. Eles são historicamente politizados. Lembre-se de que viveram uma Guerra Civil liderada no pós-Guerra pela esquerda, à qual Stalin não auxiliou, em nome da preservação das fronteiras entre democracia e comunismo.

Procuremos agora ver o cenário por enquanto mais verossímil. O governo de Atenas vencerá o plebiscito no qual submeterá aos eleitores o plano de austeridade europeu (com a ajuda do FMI e dos Estados Unidos) e suas teorias ortodoxas.

Persistindo o impasse, a Grécia deixa a zona do Euro. Volta a operar com moeda própria, sem mais precisar se submeter à disciplina monetária ou fiscal que o Banco Central Europeu procura impor a todos os membros do bloco que adotam a moeda.

O chamado novo dracma (divisa anterior do país) é um instrumento mágico para gerar inflação, aumentar a competitividade das exportações e com isso fazer reservas cambiais que permitam â economia grega sair de seu atual buraco.

Essa é uma lógica. Mas uma outra lógica paralela estará se desencadeando em termos de União Europeia. Se o euro se tornou vulnerável, por que não algumas das instituições europeias também não o seriam... note que há fortes adversários da UE organizados politicamente no Reino Unido, na Áustria, na França e na Holanda.

Para essa gente, aliás situada na extremidade oposta à do atual governo grego, a crise desencadeada por Atenas será um mel na sopa. Estaremos, segundo eles, diante da comprovação cabal de que é preciso enfraquecer ao máximo a Europa e voltar às lógicas ditadas pelos estados nacionais.

Essa segunda Europa tem ao menos o mérito de demonstrar a fragilidade  com que a construção dela se operou. E também aponta para o fato de a primeira Europa pertencer a gerações já mortas e sepultadas, essas sim, romântica e generosamente interessadas em arquitetar um instrumento político de paz.