São Paulo, 29 de Maio de 2017

/ Opinião

Uma avalanche de más notícias
Imprimir

Com a sucessão dos números medíocres na economia, nem o Coringa – com sua inteligência maligna em seus desafios ao Batman – seria tão eficiente em criar o caos...

Desde cedo somos ensinados nas escolas que o Brasil é um país privilegiado, pois não tem terremotos, furacões, nevascas e outras catástrofes naturais. Mas, em compensação, já adultos percebemos que o país é submetido, de tempos em tempos, a verdadeiras calamidades de gestão pública, que nos levam ao descontrole da economia, retrocesso, grandes danos e sofrimento.

Somos surpreendidos por uma avalanche de más notícias que levam os agentes econômicos ao desânimo e falta de confiança no futuro. Quando nos damos conta, percebemos que o acumulo de erros do governo na condução da economia foi de tal monta que as consequências sobre o dia-a-dia da produção, consumo e investimentos eram inevitáveis.

Assim, neste primeiro trimestre de 2015, a avalanche começa com as contas do governo registrando o pior resultado em 17 anos para este período. Segundo números divulgados pela Secretaria do Tesouro Nacional, foi registrado um superávit primário de R$ 4,48 bilhões. Este resultado representa uma queda de 65,8% em comparação ao primeiro trimestre de 2014, quando o superávit primário ficou em R$ 13,1 bilhões.

Fica comprometida, portanto, a economia que o governo deveria fazer para pagar juros da dívida pública e tentar manter a trajetória de queda em relação ao PIB.

Em uma situação de recessão, em março as receitas apresentaram aumento de R$ 3,6 bilhões (3,8%) e as despesas cresceram R$ 4,3 bilhões (5,7%), quando comparadas a março do ano anterior. Isto implicou também em queda nos investimentos, que caíram 31,3% no primeiro trimestre deste ano, para apenas R$ 15,3 bilhões.

O segundo impacto da avalanche foi a queda do rendimento médio real (descontada a inflação) dos trabalhadores. Foi a maior queda desde janeiro de 2003, segundo dados da Pesquisa Mensal do Emprego (PME), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo a pesquisa, a renda caiu de R$ 2.196,76 para R$ 2.134,60, uma redução de 2,8%. Na comparação com março do ano passado (R$ 2.200,85), a perda do rendimento foi de 3%, no maior recuo desde fevereiro de 2004.

O que importa nesses números é menos o percentual, mas sim a tendência que se delineia para o futuro.

Os funcionários públicos estatutários e militares foram os que mais perderam rendimento na comparação com fevereiro, e também na comparação anual, com quedas de 2,3% e 3,1%, respectivamente.

A segunda maior perda foi a dos trabalhadores com carteira assinada, que perderam 2,1% em comparação com fevereiro, e 2,3% na comparação com março de 2014. Essas perdas dão uma ideia do que está para vir com relação à produção e consumo de bens e serviços, em decorrência das reduções no poder de compra.

Com o encolhimento da renda, a parcela de famílias inadimplentes e sem condição de quitar seus débitos atingiu em abril o maior patamar em um ano. Ao mesmo tempo, a fatia do orçamento familiar destinada a quitar dívidas cresceu de 28,8% para 30,3% entre o total de endividados entre março e abril, devendo continuar a subir nos próximos meses.

Pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), aumentou de 59,6% para 61,6% das famílias pesquisadas, as que se declararam endividadas, entre março e abril. No mesmo período, a fatia dos inadimplentes sem condição de quitar suas dívidas subiu de 6,2% para 6,9%. Trata-se do maior percentual desde março de 2014.

Embora o percentual de famílias endividadas, em abril, ainda seja menor que o observado em abril do ano passado (62,3%), e a parcela de renda das famílias comprometida com pagamento de débitos também fosse maior, de (30,9%), o crédito mais caro estimulou uma maior cautela entre os consumidores.

Em 2015 os consumidores têm comprado em ritmo menor, o que ajuda a manter o percentual de endividados em nível abaixo ao de 2014.

Estes fatos ajudam a compor uma visão mais abrangente das tendências da economia brasileira, que não são nada animadoras: crescimento negativo do PIB, inflação fora de controle, aumento brutal dos juros para tentar conter a inflação, desvalorização do real, desequilíbrio das contas públicas, déficits na balança comercial e de serviços, além do risco de rebaixamento do Brasil da condição de “grau de investimentos” afugentando capitais externos necessários para equilibrar o Balanço de Pagamentos.

Nem o Coringa – com sua inteligência maligna em seus desafios ao Batman – seria tão eficiente em criar o caos...

 



A agropecuária foi o destaque positivo da atividade econômica, com alta de 10,8%, segundo levantamento da Serasa

comentários

Embora com média pouco acima da América Latina, o país continua atrás de quatro dos 11 países do Continente, de acordo com levantamento da FGV

comentários

Parte do mercado acredita que ele não tem fôlego para evitar novas concessões na reforma da Previdência, com efeitos muito ruins no futuro da economia

comentários