São Paulo, 26 de Setembro de 2016

/ Opinião

Uma avalanche de más notícias
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Com a sucessão dos números medíocres na economia, nem o Coringa – com sua inteligência maligna em seus desafios ao Batman – seria tão eficiente em criar o caos...

Desde cedo somos ensinados nas escolas que o Brasil é um país privilegiado, pois não tem terremotos, furacões, nevascas e outras catástrofes naturais. Mas, em compensação, já adultos percebemos que o país é submetido, de tempos em tempos, a verdadeiras calamidades de gestão pública, que nos levam ao descontrole da economia, retrocesso, grandes danos e sofrimento.

Somos surpreendidos por uma avalanche de más notícias que levam os agentes econômicos ao desânimo e falta de confiança no futuro. Quando nos damos conta, percebemos que o acumulo de erros do governo na condução da economia foi de tal monta que as consequências sobre o dia-a-dia da produção, consumo e investimentos eram inevitáveis.

Assim, neste primeiro trimestre de 2015, a avalanche começa com as contas do governo registrando o pior resultado em 17 anos para este período. Segundo números divulgados pela Secretaria do Tesouro Nacional, foi registrado um superávit primário de R$ 4,48 bilhões. Este resultado representa uma queda de 65,8% em comparação ao primeiro trimestre de 2014, quando o superávit primário ficou em R$ 13,1 bilhões.

Fica comprometida, portanto, a economia que o governo deveria fazer para pagar juros da dívida pública e tentar manter a trajetória de queda em relação ao PIB.

Em uma situação de recessão, em março as receitas apresentaram aumento de R$ 3,6 bilhões (3,8%) e as despesas cresceram R$ 4,3 bilhões (5,7%), quando comparadas a março do ano anterior. Isto implicou também em queda nos investimentos, que caíram 31,3% no primeiro trimestre deste ano, para apenas R$ 15,3 bilhões.

O segundo impacto da avalanche foi a queda do rendimento médio real (descontada a inflação) dos trabalhadores. Foi a maior queda desde janeiro de 2003, segundo dados da Pesquisa Mensal do Emprego (PME), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo a pesquisa, a renda caiu de R$ 2.196,76 para R$ 2.134,60, uma redução de 2,8%. Na comparação com março do ano passado (R$ 2.200,85), a perda do rendimento foi de 3%, no maior recuo desde fevereiro de 2004.

O que importa nesses números é menos o percentual, mas sim a tendência que se delineia para o futuro.

Os funcionários públicos estatutários e militares foram os que mais perderam rendimento na comparação com fevereiro, e também na comparação anual, com quedas de 2,3% e 3,1%, respectivamente.

A segunda maior perda foi a dos trabalhadores com carteira assinada, que perderam 2,1% em comparação com fevereiro, e 2,3% na comparação com março de 2014. Essas perdas dão uma ideia do que está para vir com relação à produção e consumo de bens e serviços, em decorrência das reduções no poder de compra.

Com o encolhimento da renda, a parcela de famílias inadimplentes e sem condição de quitar seus débitos atingiu em abril o maior patamar em um ano. Ao mesmo tempo, a fatia do orçamento familiar destinada a quitar dívidas cresceu de 28,8% para 30,3% entre o total de endividados entre março e abril, devendo continuar a subir nos próximos meses.

Pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), aumentou de 59,6% para 61,6% das famílias pesquisadas, as que se declararam endividadas, entre março e abril. No mesmo período, a fatia dos inadimplentes sem condição de quitar suas dívidas subiu de 6,2% para 6,9%. Trata-se do maior percentual desde março de 2014.

Embora o percentual de famílias endividadas, em abril, ainda seja menor que o observado em abril do ano passado (62,3%), e a parcela de renda das famílias comprometida com pagamento de débitos também fosse maior, de (30,9%), o crédito mais caro estimulou uma maior cautela entre os consumidores.

Em 2015 os consumidores têm comprado em ritmo menor, o que ajuda a manter o percentual de endividados em nível abaixo ao de 2014.

Estes fatos ajudam a compor uma visão mais abrangente das tendências da economia brasileira, que não são nada animadoras: crescimento negativo do PIB, inflação fora de controle, aumento brutal dos juros para tentar conter a inflação, desvalorização do real, desequilíbrio das contas públicas, déficits na balança comercial e de serviços, além do risco de rebaixamento do Brasil da condição de “grau de investimentos” afugentando capitais externos necessários para equilibrar o Balanço de Pagamentos.

Nem o Coringa – com sua inteligência maligna em seus desafios ao Batman – seria tão eficiente em criar o caos...

 



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