São Paulo, 07 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Sem fins e sem meios
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A ideia de desenvolvimento escapou da esfera de racionalidade econômica de um Roberto Campos para se tornar confusa e ideologizada ("desenvolvimentista") nas mãos do PT

Uma das mais graves perdas no pensamento brasileiro foi a da ideia de desenvolvimento.

Desaparecidas as mais profícuas mentes que criaram as condições para a arrancada do Brasil na segunda metade do século passado, Lucas Lopes (1911-1994) , presidente do BNDE  e segundo Ministro da Fazenda de Juscelino Kubitscheck (1902-1976), e Roberto Campos (1917-2001), que o substituiu à frente do banco, o pensamento hegemônico de esquerda ficou com o campo livre para impor sua versão de desenvolvimento, hoje propalada como desenvolvimentismo, reduzindo o horizonte intelectual da economia do país a uma antinomia entre “desenvolvimentistas” e sabe-se lá o quê, liberais, monetaristas ou financistas, a turma convocada por Dilma para “dar um jeito nas coisas”.

Mas há outro “ismo” em voga, pois tão conspícuo quanto o que se aduziu ao desenvolvimento é o que se colou ao nacional. Sufixo usado para designar uma teoria, prática ou característica, o “ismo “também pode expressar patologia, no caso em tela gerada pela completa subordinação da política do país à perspectiva do nacional e do desenvolvimento.

Foi assim, como acontece a tudo que se pretende exclusivo, que as transfigurações do nacional e do desenvolvimento geraram um nacionalismo de meios, e não de fins, e um desenvolvimentismo de fins, sem meios.  Um erro e uma impossibilidade.

Quanto ao erro do nacionalismo, presumindo a boa-fé dos muitos que a ele aderiram, o desenrolar da História já esclareceu o bastante. Usado na América Latina como instrumento do marxismo soviético e parisiense para mobilizar corações e mentes contra o capitalismo norte-americano, ele catapultou teses e cátedras que fizeram carreiras brilhantes, políticas inclusive, e mesmo com a queda do Muro de Berlim demoraria um pouco para cair-lhe a máscara.

No Brasil, seria preciso que o PT assumisse o poder para que a sua impatriótica mas implacável práxis de desprezo pelo interesse nacional demonstrasse o caráter meramente instrumental desse nacionalismo de fachada.

Já em relação ao desenvolvimentismo, esse enredo do impossível com charme de utopia é mais complicado, mas tem um começo inocultável. O Plano de Metas (energia, transportes, alimentação, indústria de base e educação), lançado logo no início do governo JK, em 1956 - que já nascera morto sem a reforma para fazer flutuar a taxa de câmbio em proveito da diversificação e expansão das exportações - estava destinado a ser enterrado definitivamente sem as reformas financeira e fiscal, o que efetivamente aconteceu com a rejeição, dois anos mais tarde, do Plano de Estabilização Monetária.

Diante do desastre anunciado de uma explosão de investimentos sem lastro financeiro, prevalecera a demagogia política e optou-se pela ruptura com o FMI, consumada em cerimônia no Catete e leitura de nota oficial do governo na Câmara de Deputados, tudo coroado pelo comício feito por JK, com Luís Carlos Prestes ao seu lado, da bancada do palácio presidencial. Além de gatilho para a bancarrota, o episódio foi o começo do macro populismo na história econômica do Brasil.

O desenvolvimentismo que se apregoa atualmente no Brasil parte das mesmas crenças do passado em inflação justificável, ou das descrenças equivalentes na estabilidade da moeda, uma concepção incapaz de sustentar o desenvolvimento.

Apesar dessas ideias terem caído no descrédito já no início dos anos 60, algumas ressuscitaram no Brasil durante a segunda metade dos 80, com a visão heterodoxa de inflação que encaminhou os desastres de sucessivos planos econômicos até que “uma transformação cultural [estabilidade monetária], um sucesso político [derrota da visão socialista] e um avanço econômico [redução da explosão inflacionária]” (Roberto Campos), o Plano Real, encerrasse a temporada de aventuras.

Se é lamentável nos descobrirmos expostos novamente a tais ideias, é estarrecedor pensarmos nas poucas chances de êxito do pessoal chamado para “colocar a casa em ordem”, estando subordinado a um poder político com DNA de desprezo pelos fundamentos da estabilidade econômica e de fé na desigualdade das relações de troca entre centro e periferia mundiais.

Muito menores são as chances das reformas macroeconômicas de que o Brasil necessita.
Para piorar a situação, o debate sobre o futuro do Brasil minguou, na medida em que, do outro lado do campo desenvolvimentista, alinham-se economistas que perderam a memória do desenvolvimento ou, talvez, por receio de serem confundidos com os seus adversários, eximem-se dessa questão crucial para a superação do impasse histórico no qual o país se encontra.

Outra razão para esse alheamento se deve ao fato de que boa parte deles têm formação e experiência nas melhores universidades e centros financeiros, de países que não estão preocupados com desenvolvimento simplesmente por que são desenvolvidos.

Se as mais percucientes inteligências da área econômico-financeira do país não estão orientadas para o desenvolvimento brasileiro, quem estará? As agências internacionais governadas por esquerdistas que divulgam estatísticas favoráveis ao PT às vésperas de eleições?
 
Aguardaremos inertes mais quatro anos para redescobrirmos quão desigual é a nossa sociedade representada politicamente pelo voto-bolsa? Quão inviável é o País sem segurança, infraestrutura, educação e saúde? Quão pouca riqueza cada brasileiro gera em seu próprio benefício, vivendo em um anacrônico ambiente produtivo?

Não é o Bolsa-família que deve se transformar num programa de Estado, mas sim o programa suprapartidário, democrático e capitalista de desenvolvimento do país, no qual a iniciativa privada conheça as metas e os incentivos à vista e no qual a ação estatal oriente educação, pesquisa e produção no único eixo de ação capaz de alterar o panorama de atraso social, político e econômico do Brasil.

Em suma, aceitar o desafio do encaminhamento da sociedade de conhecimento, a única desenvolvida integralmente.

“Nem todos os futuros são para desejar, porque há muitos futuros para temer”, escreveu Antônio Vieira há mais de três séculos. Derrotar politicamente o autoritarismo socializante neste momento é necessário, mas está longe de ser suficiente. Se o Brasil não for pensado seriamente em curto prazo, tudo o que essa derrota significará é a oportunidade de entronização do demagogo ainda mais cínico e a renovação do populismo ainda mais perverso.

É preciso repensar a esperança de um futuro para o Brasil, para o que os termos de Vieira podem ser muito úteis: “para se avaliar a esperança, há que se medir o futuro”.

Nesta conjuntura brasileira do século XXI, em que se opõem os desenvolvimentistas de fins sem meios e os que clamam por meios sem terem fins, medir o futuro é adequar os fins aos meios, como lembrou o próprio Vieira de que não há um sem o outro. 

Urge dar o primeiro passo para reverter a situação do País que perdeu os fins e, precisamente por não tê-los mais, vai ficando sem meios.



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