São Paulo, 04 de Dezembro de 2016

/ Opinião

São as calçadas, estúpido!
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Em lugar das desérticas faixas de ciclistas, São Paulo precisa se equipar de calçadas confortáveis e decentes

Em 1992, em um cartaz pendurado na sede da campanha de Bill Clinton, James Carville, o grande estrategista eleitoral escreveu: “É a economia, estúpido!”. 

Clinton disputava a eleição com George H. Bush, o pai, candidato republicano à reeleição. Bush vinha apostando no sucesso obtido pelos americanos na primeira Guerra do Golfo e na popularidade inédita de quase 90% de aceitação, ignorando que o país submergia em grave recessão.
 
Clinton venceu, insistindo no tema da economia e, especialmente, nas questões relacionadas com a vida quotidiana dos cidadãos e suas necessidades imediatas.

Posteriormente, a frase famosa de Carville serviu para sinalizar (ou criticar) estratégias eleitorais que tinham o foco errado de prioridade, destacando o essencial em determinada situação ou referindo-se a outras questões consideradas básicas para o eleitor.

Trasladando a frase de Carville para o que está acontecendo em São Paulo, se poderia reinventá-la para um foco mais desejado pelos cidadãos contribuintes: “São as calçadas, estúpido!”.

Ao invés de espalhar pela cidade faixas para bicicletas pintadas de vermelho – em ruas onde passam raros ciclistas e/ou com topografia desfavorável – seria mais lógico contemplar centenas de milhares de pedestres simplesmente com boas e acolhedoras calçadas.

Obviamente estamos falando de calçadas largas, com pavimento homogêneo, boa iluminação, arborização adequada e, sobretudo, oferecendo conforto e segurança ao pedestre.

Ou seja, calçadas com a função que as calçadas têm em qualquer grande metrópole do mundo civilizado, qual seja a de estimular e facilitar ao convívio urbano.

No entanto, ao colocar o foco em “ciclovias” pintadas a esmo, o poder público municipal se esquece da importância civilizadora das calçadas, bem como seu papel de suporte à convivência, ao comércio e à economia.

O que temos, numa importante metrópole como São Paulo, é uma situação surreal, onde as calçadas são concebidas para... os automóveis!

Elas são, em geral, inclinadas para facilitar a entrada de veículos, a arborização é destruída para o mesmo fim, não existe um padrão homogêneo de pavimento e, frequentemente, o pedestre tem que caminhar pelas ruas porque as calçadas são ocupadas por veículos ou invadidas por “empreendedores” que vendem suas mercadorias nas calçadas, sem pagar impostos, o que é um constrangimento a mais para os pedestres contribuintes.

Isto faz de São Paulo uma metrópole que devaneia (e às vezes delira) em ser Nova York e tem a realidade quotidiana de Calcutá!

Metrópoles se formam em longos processos históricos. Acolhem, em sua formação, atividades de caráter mercantil, industrial, financeiro e cultural.

Crescem e se caracterizam pela diversidade étnica, cultural, religiosa e política. O habitante da cidade torna-se detentor pleno dos direitos civis e políticos, portanto, um cidadão que é simultaneamente consumidor, contribuinte e eleitor.

Erros de foco nas prioridades são fatais porque contradizem a percepção quotidiana do cidadão.

A metrópole paulistana ganharia muito mais se o foco tivesse sido o das calçadas. Ganhariam os cidadãos, o comércio, a cultura e se caminharia mais seguramente para o processo civilizador.

Refugiar-se em shoppings para ter a sensação de conforto e segurança – que não se tem nas calçadas – é uma forma de alienação que reforça o processo de degradação urbana e decadência do comércio de rua.

Não se pode esquecer que “cidadania” vem do latim “civitas”, cidade, tal como “cidadão”. E cidades se formaram a partir das trocas, do comércio, da convivência nas ruas, calçadas e praças. Foram sempre processos longos e penosos de conquistas e fristrações.

Hoje, o habitante da cidade – especialmente de uma grande metrópole, como São Paulo –, na qualidade de cidadão, é cada vez mais um sujeito da ação. O cidadão-contribuinte-consumidor-eleitor não pode ser simplesmente um sujeito de contemplação, omisso e fechado em si mesmo.
 
Nada contra, portanto, o ciclo-ativismo e as ciclovias onde, de fato, couberem.

Mas cabe agora despertar os pedestres-ativistas, para defenderem um direito básico da cidadania, qual seja a liberdade de ir e vir a pé, em calçadas agradáveis, seguras e, sobretudo, feitas para eles.

Quem sabe se nesse deserto de boas ideias acabe surgindo um estrategista eleitoral (ou apenas um marqueteiro) com o grande talento de Carville e sugira que se gaste melhor o suado dinheiro dos contribuintes em boas calçadas? Que tal pôr o foco em algo mais básico para o cidadão?

 



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