São Paulo, 27 de Setembro de 2016

/ Opinião

Relativismo moral e mídia
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Há uma imensa e lamentável lacuna quando se pensa na mídia e em seu papel na criação de valores que nos dignifiquem individualmente

 

Há algum tempo procuro na grande mídia brasileira janelas para as campanhas cívicas contra o que costumo chamar de “déficit de cidadania” de nossa cultura política, missão mesma de nosso Instituto.

Mas quem produz e decide a programação da grande mídia está longe de ser o cidadão comum, senão os cidadãos de elite, proprietários, com educação de terceiro grau e pagadores de impostos, participantes ou não das recentes manifestações contra a degradação política nacional.

Nesta linha de argumentação, é puro cinismo, como tenho observado, responsabilizar, por exemplo, o povo brasileiro, o cidadão comum, pelo sistema político vigente e escolhido para nos representar, se não com os piores, no mínimo com os menos ruins, jamais com os melhores entre nós.

Para além disso, tem sido minha missão acompanhar o lixo cultural produzido pela nossa mídia sem nenhuma sombra de responsabilidade cívica. A exemplo do que já fizeram grandes grupos de mídia no mundo mais civilizado, desde a BBC inglesa até a Fox americana e, acreditem, a Televisa mexicana.

Vão intento. Como se nossas elites já tivessem se conformado de vez com a falsa crença de que é preferível não se expor a disputar espaço da opinião pública com os donos da res publica, feudo dos políticos profissionais e não espaço de expressão política de todos os cidadãos eleitores e pagadores de impostos.

Além do que, é mais comum do que se pensa a falsa crença de nossas elites de que nossa miséria cultural é uma fatalidade histórica, o que mal tem justificado sua criminosa omissão cívica e política.

Atribuo a esta omissão o nosso maior gargalo. Como se de fato pudéssemos prosperar economicamente num ambiente político tão devastado quanto o nosso.

Todavia, algumas de nossas melhores cabeças já concluíram que chegamos ao limite. Para além dos gargalos tangíveis da gestão do setor público, nosso maior gargalo é a crise de valores do setor privado.

O que significa dizer que se passa no campo de nosso imaginário social. E que temos de agir urgentemente na trincheira da mídia para promover o resgate de valores morais de nossa cultura política.

Lendo alguns artigos recentes nos noticiários, vejo com preocupação o avanço de um certo relativismo moral no imaginário social de nossas elites, que exclui a responsabilização civil e até mesmo criminal às escolhas de condutas sociais condenáveis por parte de cidadãos livres, ao repisar o falso argumento esquerdista de que no fundo "a culpa é da sociedade".

É a velha história: se todos somos culpados em sociedade, então ninguém é individualmente culpado de nada. Esta tem sido a nossa sina caso a própria história não estivesse querendo nos provar o contrário: nunca estivemos numa busca coletiva tão intensa de responsabilização social e política por tudo o que nos aflige.

Da responsabilidade social das empresas, à responsabilidade fiscal dos governantes, à responsabilidade civil dos cidadãos. Mas o que não encontramos ainda é a responsabilidade política de todos nós, independente na trincheira de nossa parca militância.

Recentemente, o autor de um desses artigos equivocados da grande imprensa se debruçou sobre a onda de crimes a faca no Rio de Janeiro, cometidos por menores de idade. E optou claramente pelo caminho torto de culpar a sociedade.

No afã de provar sua falsa tese, cita um samba clássico de raízes puramente rousseaunianas: "Se o homem nasceu bom/ E bom não se conservou/ A culpa é da sociedade/ Que o transformou”.

Não, caro poeta. Absolutamente, não. Sabemos que o homem não nasceu como bom selvagem. Qualquer pedagogo ou psicólogo infantil sabe que mesmo crianças na mais tenra idade podem ser manipuladoras, vingativas e traiçoeiras.

Somos bons e maus por natureza; vivemos em estado de pecado, como sempre nos alertaram todas as grandes religiões da tradição judaico-cristã. Menos pela panaceia da educação, a chamada obviedade ululante nelsonrodrigueana, e mais pela missão de formação do caráter do cidadão, pela família, religião e demais instituições da sociedade civil, todos temos plenas condições de administrar por conta própria nossas próprias escolhas.

Aliás, não é por outra razão que a exigência do livre arbítrio é mais da alçada das religiões do que das doutrinas políticas liberais.

É o livre arbítrio sobre o que a vida coloca em nosso caminho que nos definirá a correção de nossas escolhas e a índole de nosso caráter. Retirar desta equação a responsabilidade individual e tentar substituí-la por uma tese coletivista simplista não ajuda a compreender este fenômeno e muito menos a solucioná-lo.

É a base de todo o direito penal que orienta nossas vidas, e revogá-lo está fora de questão por motivos óbvios e civilizatórios. A menos que a intenção não manifesta seja instaurar a barbárie para justificar a vitória da revolução cultural.

Esse relativismo moral é o cerne da verdadeira crise de responsabilidade que vivemos. A responsabilidade dos pais, que se omitem na difícil e exaustiva   não temos ilusão disso   tarefa de educar filhos; a responsabilidade do Estado, que se omite em fornecer educação voltada para valores morais e não apenas um fluxo quase estéril de informações da ordem do conhecimento e ultimamente ideologizadas de forma patética; a responsabilidade da mídia, que se omite em transmitir os valores e conceitos da moralidade pública e do protagonismo da cidadania, preferindo o discurso fácil do denuncismo com sua cobertura obsessiva do delito e da delinquência política sem-fim; e a responsabilidade do empresariado, que se limita a pressionar e cobrar dos governos apenas as pautas de seu interesse imediato de mais responsabilidade fiscal e reforma do sistema tributário.

O resultado é claro. O relativismo moral dos costumes celebrados sobretudo na produção de entretenimento da mídia televisiva, sob a falsa argumentação da liberdade de expressão, acaba justificando também a imoralidade da vida pública e isentando de responsabilidade a grande mídia de sua maior função social que é a defesa dos valores morais e do civismo.

Afinal, como se diz cinicamente, "nossos representantes políticos são espelho da sociedade". Meio caminho andado para a máxima de que isso não tem jeito mesmo, então não vale a pena perder tempo.

Sintomático é que a própria mídia convoca os cidadãos para o protagonismo em dezenas de campanhas cívicas, como as de vacinação, combate e prevenção de epidemias, cuidados no trânsito, alcoolismo, respeito aos direitos humanos de minorias e muito mais.

Mas se omite curiosamente quanto à esfera política, sobretudo em relação às iniciativas de controle social vindas das organizações da sociedade civil. Temos um sem-número de cidadãos e organizações dispostos a apoiar e fazer parte de uma transformação na representação política de má qualidade que temos.

Existem propostas de políticas públicas a serem compartilhadas, debatidas a fundo e levadas ao conhecimento da sociedade, até mesmo para o cidadão comum se perceber como único agente de transformação efetivo da cultura política.

 



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