São Paulo, 27 de Setembro de 2016

/ Opinião

Questão de nome
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Não é correto atribuir o lado confessional - "muçulmano" - aos atos terroristas contra o Charlie Hebdo e contra civis da Nigéria

Deveríamos chamar de islâmicos os terroristas que assassinaram jornalistas e civis na sede do Paris Hebdo e do supermercado em Paris? Não é isso precisamente o que os terroristas desejam, associar suas atividades criminosas com uma religião e uma cultura?

Não se trata de preciosismo verbal. No dia 3 de janeiro, o movimento terrorista Boko Haram atacou Baga e Doron Baga, no nordeste da Nigéria, e destruiu quase quatro mil estruturas. Nada sobrou das casas, escolas e clínicas dos vilarejos atacados.

Além da destruição causada, o grupo terrorista assassinou friamente mais de duas mil pessoas, a maioria das quais crianças e idosos que não conseguiram fugir dos atacantes. A Anistia Internacional considerou o ataque “o maior e mais destrutivo” de todos os examinados pela organização.

Damos a esses terroristas o nome apropriado de sua organização, um dos braços da Al Qaeda que atuam na África. Não foram qualificados como “islâmicos” o ataque ocorrido em 11 de março de 2004, quando diversas bombas explodiram simultaneamente em diversas composições dos trens metropolitanos de Madri. Ocorrido em outro dia 11, a exemplo dos atentados em Nova Iorque e ao Pentágono, o saldo das vítimas elevou-se a 200 mortos e 1500 feridos. Inicialmente atribuído ao movimento separatista basco ETA, posteriormente verificou-se que por trás do crime estava a Al Qaeda.

Em 2005, quatro explosões no metrô e em um ônibus em Londres deixaram mais de 50 mortos e 700 feridos. A motivação para o ataque teria sido o apoio do governo do primeiro ministro Tony Blair aos Estados Unidos em sua intervenção no Iraque. Não se atribuiu a autoria dos atentados aos “islâmicos”.

Para ficar com somente mais um exemplo, o metrô de Moscou foi vítima de terroristas em março de 2010, em que morreram 36 pessoas e resultaram feridas outras 60. O governo russo responsabilizou grupos separatistas do Cáucaso do Norte pelo atentado, sem referir-se à religião dos atacantes – embora boa parte deles provavelmente fosse de origem muçulmana.

É natural de tenhamos dado extrema atenção ao atentado em Paris, em parte por nosso eurocentrismo, em parte porque os atos criminosos punham em cheque um dos nossos principais valores, a liberdade de expressão. Talvez devêssemos ter dado cobertura similar aos massacres ocorridos na Nigéria, mais não fosse pelo grande número de vítimas e pelo emprego de crianças-bombas responsáveis pela morte de 19 civis em um mercado situado em outra localidade no mesmo nordeste da Nigéria.

De qualquer forma, a cobertura unânime da grande imprensa, ao enfatizar o caráter islâmico dos atacantes, ignorou outros aspectos que transcendem a opção religiosa dos terroristas. Outros ataques terroristas mostram que essa visão é simplista e serve somente para dar uma justificativa a atos cometidos por criminosos comuns.

Na manhã de 28 de junho de 1914, o arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro e sua esposa, Sophie Chotek von Chotkowa und Wognin, foram friamente assassinados na cidade de Sarajevo por terroristas sérvios. Desse incidente e da cadeia de eventos que a ele se seguiu originou-se a Primeira Guerra Mundial – a Grande Guerra, como então se denominava o conflito.

Sete terroristas, organizados em duas células, encontraram-se na cidade nos dias que antecederam a visita dos austro-húngaros. Traziam em seus bolsos explosivos e revólveres a serem usados contra o casal real e pacotes de cianido a serem usados caso caíssem prisioneiros das autoridades.

A despeito das medidas de segurança previamente tomadas, o jovem sérvio da Bósnia Gavril Princip seria o autor do atentado do qual resultou a morte do príncipe herdeiro e da duquesa de Hohenberg.

O grupo a que pertencia Gavril Princip, conhecido como Mão Negra, foi responsabilizado. Não se fez referência então a “eslavos” ou a qualquer outra denominação que não responsabilizar o governo da Sérvia como responsável pelo atentado e pelas mortes.
Talvez mais produtiva fosse uma investigação de onde vem o dinheiro necessário para financiar os terroristas – na Europa, na África e no Oriente Médio. “Follow the Money”, “siga o dinheiro”, é um sábio conselho em investigações criminais. São os financiadores do terrorismo os culpados em última instância por esses atos criminosos.

Qualificá-los simplesmente como islâmicos somente os valoriza aos olhos das minorias muçulmanas na Europa que se julgam discriminadas nos países de destino. Mais correto seria atribuir à Al Qaeda a ação e aos financiadores do terrorismo a responsabilidade última pelos crimes.

 



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