São Paulo, 01 de Outubro de 2016

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Os tucanos correm o risco de escorregar no excesso de otimismo pela perspectiva de derrotar o PT à Presidência da República

José Dirceu era apenas assessor no gabinete da liderança do PT na Assembleia Legislativa, numa época em que Lula perdia eleições para o clã dos Fernandos -Collor de Mello e Henrique Cardoso- quando cruzei com ele num dos corredores do Legislativo.

Ele me disse que, apesar do acúmulo de derrotas, Lula ainda seria eleito presidente da República. Como era época de vacas magras, em que Lula não ganhava eleição para o Palácio do Planalto e já tendo incluído em seu currículo duas derrotas para FHC e uma para Collor, a declaração de Dirceu evaporou no espaço.

Mas, não deu outra, porque os anos passaram, e Dirceu acertou na mosca.

É oportuno lembrar essa passagem de tantos anos atrás para avaliar que a trajetória dos tucanos Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin, tem tudo a ver com a caminhada de Lula pelos labirintos da política, após a profecia de Zé Dirceu.

Os três tucanos têm pique e votos para chegar à Presidência da República, principalmente quando o PT definhar, e a força eleitoral de Lula esmorecer, chegando ao ponto de não eleger mais candidatos-postes.

Um dos comentários que Lula fez na campanha do ano passado de Dilma Rousseff foi que o ciclo de Poder do PT poderia chegar ao fim em 2018, ano em que haverá eleição presidencial.

Aécio perdeu, até agora, a única eleição que disputou para presidente, e sua algoz foi Dilma Rousseff, em 2014, enquanto José Serra já perdeu duas, uma para Lula, em 2002, e outra para Dilma, em 2010, e Alckmin foi derrotado também por Lula, em 2006.

Os tucanos, no entanto, não podem esquecer que Lula perdeu três eleições antes de se eleger presidente pela primeira vez, em 2002. As derrotas de Lula ocorreram em 1989, 1994 e 1998.

Diante do ótimo desempenho do trio de tucanos nas eleições do ano passado, é natural que o PSDB vá enfrentar dificuldade na hora de indicar seu candidato à presidência, em 2018.

O senador Aécio leva vantagem sobre Serra e Alckmin por ter alcançado 51 milhões de votos na derrota para Dilma Rousseff, mas também Serra e Alckmin receberam votações consagradoras para o Senado e governo do Estado, respectivamente.

É oportuno lembrar que Aécio continua no comando do partido e tem o controle dos eleitores que vão escolher, em convenção, o candidato do PSDB à Presidência na próxima eleição.

A guerra de bicadas no ninho de tucanos para a conquista da legenda, portanto, será inevitável. Os adversários ironizam apostando que as penas vão voar para todos os lados.

A dúvida é saber se os atuais dirigentes do partido convocam ou não convenção para a renovação do diretório nacional do PSDB.

É duvidoso que o senador Aécio Neves aceite sem esboçar reação mudar o comando do partido às vésperas da indicação do candidato ao Planalto.

Caberia ao novo diretório a tarefa de coordenar os trabalhos quando o partido terá de escolher também os candidatos aos governos estaduais, Câmara dos Deputados, Assembleias Legislativas e Senado.

A luta pela conquista da legenda presidencial tucana será mais acirrada ainda, porque o PSDB está convencido de que a próxima eleição será mais fácil do que as anteriores, e que seu candidato enfrentará um PT ainda combalido pela crise que pipocou no País com o escândalo das propinas na Petrobrás.

Como precisa estar com os pés no chão e a cabeça no lugar, para não permitir excesso de otimismo com a mística do "já ganhou", que tem derrotado candidatos bons de voto, a cúpula do PSDB sabe que, mesmo atropelado, o PT dará trabalho aos adversários, sobretudo se Lula confirmar que é candidato.

Os tucanos querem reconquistar a Presidência da República e, para isso, terão de derrotar aquele que ainda é considerado o eleitor nº 1 do País.

Os tucanos estão cientes de que não podem confiar em vitória antes das eleições, porque correm o risco de passar pelo vexame a que se expôs FHC em 1985, quando sentou na cadeira do prefeito de São Paulo, antes da eleição, para ser fotografado pela revista Veja, e depois foi obrigado a engolir um gigantesco sapo, enquanto assistia à posse de Jânio Quadros.

Os tucanos não podem pisar em terreno minado e depois continuar batendo panelas até 2022.



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