Quem aprendeu e quem esqueceu


Sem bússola, sem rumo e sem destino, o Brasil amanheceu hoje na enseada das vivandeiras, aquele lugar de piratas políticos hábeis em atrair os militares para águas turvas


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 19 de Maio de 2017 às 16:35

  | Doutor em ciências militares e historiador


 

O Brasil está desaprendendo o que parecia ter aprendido. A insensatez de cada dia dá a impressão de estarmos fazendo um périplo do absurdo, voltando a tempos e portos pelos quais não devíamos mais navegar.

Sem bússola, sem rumo e sem destino, o Brasil amanheceu hoje na enseada das vivandeiras, aquele lugar de piratas políticos hábeis em atrair os militares para águas turvas. 

Só assim se pode entender a anunciada ida de chefes militares ao Palácio do Planalto hoje à tarde para ouvir do presidente Michel Temer explicações sobre as graves denúncias que o atingiram e deles receber solidariedade (sic), após o que ele faria um novo pronunciamento. 

Há coisa muito errada nisso. Em relação aos gravíssimos fatos que levaram o STF a investigar o próprio presidente, este não tem que dar explicações aos militares, mas sim aos demais poderes da República e à sociedade, por intermédio dos instrumentos institucionais de que ele, presidente, dispõe. 

O papel dos militares é garantir a ordem e defender os poderes constituídos. Para isso eles recebem ordens, não explicações, pois, se as ordens forem legais, elas dispensam explicações. 

Trazer os militares  à sede do poder executivo para alegadas explicações pode ser entendido como uma tentativa canhestra do presidente em falar através deles, ou com o respaldo deles, algo simplesmente inaceitável neste estágio da evolução sócio-política brasileira e que soará muito mal, aqui e lá fora.

Não é a primeira vez que políticos em apuros tentam envolver os militares nas suas trapalhadas.

Generais foram levados ao Planalto em pleno escândalo do mensalão e sua presença no palácio só serviu para aumentar o mal estar, dentro e fora da caserna. Em plena tempestade do impeachment, uma esquerda tosca pensou que poderia inibir as manifestações democráticas pela decretação de um estado emergencial respaldado pelas Forças Armadas.

Há muito tempo, um determinado general, diante da tentativa de um certo presidente em decretar estado de sítio por causa do discurso de um notório governador, escreveu ao Ministro da Guerra:

“Guanabara, DF, 4 de outubro de 1963
Excelentíssimo Senhor
General-de-Exército Jair Dantas Ribeiro
Ministro da Guerra
....
V. Excia, agora sugere o estado de sítio. Parece ser um recurso desnecessário.
...
Os acontecimentos, porém, se precipitam e o Exército aparece em tudo como um todo, servindo de base a decisões do Govêrno.
...
Os membros do Alto Comando não foram ouvidos. Resta-nos, portanto, o uso legítimo desta faculdade. Senão, ficaremos apenas para os atos formais, consequentes dos fatos consumados e alguns realizados sob forma de aparentes manifestações prestigiosas. 
Com a atitude de subordinado respeitador, subscrevo-me
General-de-Exército Humberto de Alencar Castello Branco”  

Pois é, e tem gente que diz que o País aprendeu. Só não disseram com quem.

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