São Paulo, 01 de Outubro de 2016

/ Opinião

Primeiros movimentos
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Presidente Dilma abandona a linguagem radicalizada da recente campanha eleitoral e escolhe equipe moderada e não hostil ao mercado

Os primeiros movimentos da presidente Dilma na montagem de seu ministério têm mostrado uma nítida inflexão em relação ao que era defendido por ela e por seu partido no processo eleitoral. Há algo novo aqui.

Neste, presenciamos uma radicalização do quadro político, com o PT adotando as suas mais tradicionais posições esquerdistas, algumas de cunho bolivariano. É o caso das propostas de Assembleia Nacional Constituinte Exclusiva para a Reforma Política, de regulação da mídia, de conselhos populares e de subjugação das Forças Armadas via revogação da Lei da Anistia. O partido reafirmou essas mesmas posições logo após a vitória mediante uma Resolução de sua Executiva.

Na montagem do governo, porém, estamos observando uma nítida inflexão para o centro do espectro político-partidário, em uma espécie de repetição do que foi a composição ministerial do primeiro governo Lula. Lá, também, o radicalismo petista foi sendo deixado progressivamente de lado. Ou seja, o partido defende, em processos eleitorais, propostas por ele mesmo imediatamente senão abandonadas, relegadas a uma posição secundária.

O caso mais notório é o da indicação de Joaquim Levy para a pasta da Fazenda. Trata-se, perdoem-me a expressão, de um dublê petista de Armínio Fraga. Liberal como ele, chegou a participar da equipe por este montada para formular o programa de Aécio Neves. Logo, o seu candidato foi o tucano e não a petista. Ademais, é, atualmente, um alto executivo do Bradesco.

Simboliza, portanto, tudo o que foi criticado por Dilma e pelo PT no processo eleitoral. Em seus programas, banqueiros e seus executivos “roubam” comida dos pobres e têm como único objetivo o “seu” lucro, o que, na cartilha esquerdista, significa uma grande perversão. Alguém fruto deste meio só pode executar políticas “ortodoxas”, “fiscalistas”, que, por definição, são execráveis.

Logo, como pode tal pessoa-símbolo ser chamada para ocupar a tão importante pasta da Fazenda? Algumas observações se impõem: a) a presidente Dilma, apesar dela, deve reconhecer o peso da realidade, ou seja, PIB medíocre, inflação em alta, abandono da responsabilidade fiscal, ameaça de rebaixamento do “rating” brasileiro, desemprego que deve aumentar e assim por diante; b) embora a presidente seja contra essas políticas por convicção e orientação ideológica, deve infletir o rumo de seu governo, pois as mudanças se impõem; c) o sucesso de seu governo dependerá dessas mudanças, bem como a pretensão do PT de usufruir de um novo mandato dentro de quatros anos; d) entre a ideologia e a preservação do poder, o governo petista manifestamente está assumindo a segunda posição.

Note-se que não se trata de um caso único na composição ministerial, pois a senadora Katia Abreu também foi escolhida para a pasta da Agricultura. Trata-se de uma pessoa que se destacou na presidência da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), lutando contra as invasões do MST e as demarcações arbitrárias de territórios indígenas. Defendeu intransigentemente o direito de propriedade e teve participação ativa na modificação do Código Florestal e na Lei dos Portos. Ou seja, a sua postura se pautou pelo fortalecimento da economia de mercado e do estado democrático de direito.

É neste contexto que devemos apreciar a sua aproximação com a presidente Dilma Rousseff e a sua escolha, agora, como ministra. Eu seria tentado a dizer que houve uma conversão da presidente ao agronegócio, e não o contrário. Saliente-se que houve, em seu governo, uma nítida redução das invasões do MST, demarcações de terras indígenas foram praticamente congeladas, não mais se falou de índices de produtividade. Além disto, a presidente participou ativamente das transformações do Código Florestal. Sem a anuência presidencial, tais transformações não teriam jamais se produzido.

Os jornais noticiaram que, diante dessas circunstâncias, o PT teria exigido a efetivação de Miguel Rossetto na Secretaria Geral da Presidência e a nomeação do presidente do INCRA, Carlos Guedes de Guedes, no Ministério do Desenvolvimento Agrário. Apesar de ambos fazerem parte da DS (Democracia Socialista), suas atuações administrativas têm se caracterizado pela moderação e pela negociação. Não houve radicalismos.

Neste sentido, não se pode falar propriamente de uma orientação mais à esquerda da presidente. Tirou Gilberto Carvalho da Secretaria Geral, este sim um radical, olheiro de Lula no palácio do Planalto, e colocou em seu lugar uma pessoa de sua estrita confiança. A escolha de Guedes, por sua vez, segue uma orientação governamental de diálogo, evitando confrontos de força, como, no passado, foram a tônica do que acontecia no campo brasileiro.

Mais especificamente, haveria maior sintonia no interior do palácio do Planalto com a escolha de Miguel Rossetto. A presidente o escuta, algo raro em seu ambiente. Embora seja proveniente do setor mais à esquerda do PT, tem demonstrado, em suas atuações, um perfil pragmático de negociador. Sua passagem recente pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário foi pautada pela moderação, não tendo havido nenhuma radicalização.

Carlos Guedes de Guedes, por sua vez, é uma pessoa muito próxima a Rossetto, o que pode, mesmo, descontentar algumas outras alas do PT que temem perder poder. É  uma pessoa moderada, hábil negociadora e avessa a radicalismos. Respeita o direito de propriedade, procurando conciliá-lo com demandas sociais, como a dos quilombolas e da reforma agrária. Sob sua gestão não houve nenhuma afronta a esse direito, e a violência no campo diminuiu sensivelmente. Na presidência do INCRA, está tornando esse órgão um instrumento de gestão territorial, com avanços significativos na área.  

Pode-se, portanto, observar que esses primeiros movimentos da escolha presidencial por novos ministros estão se pautando por uma sinalização em direção ao centro do espectro político. O calor da eleição está perdendo temperatura. Estejamos atentos às próximas escolhas.

 



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    Denis Lerrer Rosenfield
    Graduado em Filosofia pela Universidade Nacional Autônoma do México, e “Doutor de Estado” pela Universidade de Paris I Panthéon Sorbonne. É professor