São Paulo, 08 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Posição Facesp/ACSP: Parada para avaliação
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Uma nova alta dos juros é um remédio que precisa ser adotado com cautela para que seus efeitos colaterais não matem o paciente

Todos os indicadores disponíveis até o momento sinalizam que está ocorrendo sensível retração da atividade econômica em 2015, devido, principalmente, à queda do consumo das famílias, ao menor investimento produtivo e em infraestrutura, à contração do setor industrial e à desaceleração dos serviços.

Os dados do PIB do primeiro trimestre, que sintetiza o estado da economia, mostram queda de 1,6% em relação a igual período do ano passado, com desempenho negativo de todos os setores. A exceção foi a agricultura, que registrou crescimento de 4% nos primeiros três meses de 2015.

A indústria, segundo o IBGE, apresentou redução de 7,6% em abril último, mantendo a trajetória de queda observada desde o segundo semestre de 2014.

O varejo restrito - que exclui veículos e material de construção - caiu 3,5% em abril sobre abril do ano passado. No varejo amplo, que inclui esses dois ramos, o declínio das vendas foi de 8,5%, sendo que indicadores mais recentes mostram que persiste a retração das vendas do comércio.

Os serviços, que vinham sendo o setor mais dinâmico na geração de empregos, apresenta aumento do faturamento abaixo da taxa de inflação, com tendência de desaceleração ainda maior.

O comércio exterior - que poderia ser um canal importante para a retomada da indústria - revela queda de 16,2% nas exportações até maio, que foi contrabalançada pela redução ainda maior (-18,1%) nas importações, impedindo o resultado negativo da balança comercial.

Mas a redução nas compras no exterior de bens de capital, intermediários e matérias-primas sinaliza para o enfraquecimento da produção industrial nos próximos meses.

As estatísticas do mercado de trabalho apontam para o crescimento do desemprego e menor correção dos salários, com queda da massa salarial, o que é agravado pelos aumentos de preços e tarifas, reduzindo o poder de compra dos consumidores.

Em consequência desses indicadores - e do cenário político de incertezas - o Índice Nacional de Confiança do Consumidor ACSP/IPSOS atingiu seu ponto mais baixo desde 2005, quando foi iniciado, revelando baixa disposição da população para a compra de bens de maior valor e para o endividamento.

Esse quadro mostra que a economia brasileira está em recessão.

O mais grave é que as perspectivas para o restante do ano são de que a retração das atividades econômicas deverá se acentuar, como se constata pelas projeções de cem economistas e consultores para o relatório Focus do Banco Central, que apontam a cada semana para uma queda maior do PIB em 2015 - a última foi de recuo de 1,35%.

Mas estimativas de outros segmentos temem que a queda possa ser da ordem de 2%.

Pode-se considerar que a recessão de 2015 está decretada. E que o mais importante agora é evitar que ela se aprofunde muito - o que dificultaria a retomada –, avaliando quais fatores podem contribuir para que a recuperação do nível de atividade comece mais rapidamente e com mais intensidade, partindo-se da premissa de que o ajuste fiscal deverá ser concluído este ano.

As estimativas dos economistas consultados semanalmente pelo BC apontam em média para uma expansão da atividade de 0,9% para 2016, taxa bastante modesta mas que, apesar disso, ainda depende do que for feito - ou não – em 2015.

Esse cenário parte do pressuposto de que o maior impacto do aumento dos preços administrados se registre no ano em curso. E, dado o efeito retardado dos aumentos dos juros sobre a atividade econômica, a queda do consumo possibilitaria uma queda expressiva na inflação no próximo ano, mesmo que não convergindo para o centro da meta de 4,5%. 

Considera também que o ajuste fiscal, ao aumentar impostos e reduzir gasto público, contribuiria indiretamente para a redução dos aumentos de preço.

São duas premissas ainda não asseguradas, porque se fala de novo aumento das tarifas de energia, e existem dúvidas se o ajuste fiscal será suficiente, dado os efeitos negativos da própria recessão sobre a arrecadação, frente ao crescimento vegetativo das despesas de custeio do governo.

Como a atividade econômica deverá começar 2016 no ritmo que encerrar o ano em curso e deve demorar para pegar “velocidade de cruzeiro”, mais difícil será a retomada ao longo de 2016, e menor será a chance de o país crescer a uma taxa pelo menos razoável.

Nesse sentido, a sinalização que o BC tem transmitido - de que poderá promover novas elevações da taxa SELIC - são preocupantes, porque podem agravar o quadro recessivo da economia brasileira e reduzir as possibilidades de recuperação, pois o efeito da política monetária é defasado e se fará sentir negativamente no ano que vem.
 
Por isso, consideramos indispensável que a autoridade monetária faça uma parada para avalição na sua política de elevação dos juros, aguardando que o impacto das medidas já adotadas se faça sentir inteiramente, antes de aumentar a dosagem.

Esse remédio precisa ser adotado com cautela para que seus efeitos colaterais não matem o paciente.

 



Redução maior foi discutida na reunião do Copom, mas ainda depende da queda na resistência de alguns componentes do índice de preços, segundo Ilan Goldfajn, presidente do BC

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