São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Partidos sem sigilo
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A quebra do sigilo bancário dos partidos políticos é uma boa medida, mas não basta para moralizar essas instituições

Caso haja interesse efetivo na maior moralização das atividades dos partidos políticos no país, a quebra do sigilo bancário destes, como determinou o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) é apenas um passo entre tantos outros necessários.

Sabemos todos que os partidos políticos brasileiros são agrupamentos de interesse como meio de grupo buscar chegar legitimamente ao poder para usufruir de práticas condenáveis, na maior parte das vezes, buscando o enriquecimento ilícito de seus integrantes, ao menos parte deles.

Sabemos também que os partidos possuem, até pela obrigatoriedade legal de sua constituição, um programa ideológico e medidas que defendem e que devem ser a razão de sua existência.

Na prática, porém não é o que acontece. A simples leitura dos programas partidários revela, além de uma nítida confusão de ideais programáticos, distinções de siglas, verdadeiros festivais líricos de utopias a serem perseguidas que se traduzem na prática em nada.

À exceção de partidos radicais de esquerda, cuja ideologia esdrúxula, extemporânea, não se coaduna com a visão de vida e de mundo do brasileiro (vejam os resultados dessas siglas nas eleições) todos os demais poderiam ser o mesmo.

Existem, na verdade, para acomodar grupos que brigaram dentro de um deles, que perderam espaço e querem também possibilidade de negociar cargo e verbas públicas decorrentes.

Os grandes partidos políticos pátrios são assim. O PT é assim, O PSDB é assim. O PMDB dá aulas de como ser assim. O Democratas é assim. E os que surgiram, estão surgindo ou querem surgir, não fogem dessa regra não escrita: ter um partido político para através deles ter poder de barganha com as verbas do orçamento federal. E as ramificações estaduais e municipais.

Acabar com o sigilo bancário dos partidos é um primeiro passo, mas ainda tímido, uma vez que para haver consulta popular e transparência nessas contas, para acompanhamento dos eleitores, ainda será preciso aprovação de lei no Congresso Nacional.

Fossem os brasileiros minimamente educados politicamente e teriam interesse em pressionar os senadores e deputados federais, além dos próprios partidos, para essa aprovação em caráter de urgência. Deveriam também pressionar para acabar com a farra da elevação anual do Fundo Partidário, que é também a origem dos muitos partidos pequenos, alguns chamados de aluguel, que proliferam na vida do continente tupiniquim.

É possível que a quebra do sigilo, se levada a sério, acabe com a festa de muito dirigente dito de partido nanico, que vice dos recursos públicos do fundo. Na verdade, dirigir e ter um partido político acaba sendo um negócio, pois a administração desse fundo é, ou era, sem abertura das contas, fazendo muito dirigente partidário viver disso.

Claro que haverá negação, mas ninguém se iluda.  Se o governo federal do PT usou criatividade contábil e até mudou lei para deixar na legalidade ilegalidades contáveis cometidas, por que os partidos haveriam de fazer diferente?
 
Agora, pode ser que melhore. É bom enfatizar: pode ser.

A vida política nacional é tão corrupta, tão desavergonhada, tão sem compromisso sério com a probidade, a ética a moralidade, que vale tudo vindo o exemplo de cima.

Gilberto Carvalho admitiu: pertence à quadrilha que Aécio Neves denunciou. E vai seguir pertencendo porque, mesmo deixando a boca no Planalto, não vai ficar no sereno. Cargo bom não falta para acomodar. Mas nem confissão de político é levada a sério. Fica por isso mesmo.

Então estamos combinados. Já que se quer pôr a casa em ordem, que os governantes sejam responsáveis, sérios, mesmo difícil de acreditar, competentes, também difícil de acreditar com o ministério novo, mas que os partidos sejam fiscalizados com rigor, porque se depender deles, só gargalhando mesmo, como eles gargalham da ingenuidade do brasileiro. Tão bonzinhos.

 

 

 



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