São Paulo, 25 de Setembro de 2016

/ Opinião

Otimismo e pessimismo
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Os indicadores da economia não são bons. Mas empresários não devem se deixar levar pelo pessimismo e pelo imobilismo

A divulgação dos dados do PIB do primeiro trimestre pelo IBGE, apontando queda de 0,9% sobre igual período do ano anterior e queda de 1,6%, na comparação interanual vem apenas confirmar a desaceleração das atividades econômicas, apontadas pelos indicadores desse mesmo instituto, com forte redução da produção industrial, das vendas do comércio e do faturamento do setor serviços.

Também os números referentes ao mercado de trabalho mostram aumento do desemprego e diminuição da renda, resultando em perda bastante significativa da massa salarial.

Como desses indicadores são mais atualizados dos que os do PIB, constata-se que o desempenho negativo da economia continuou em abril e mesmo em maio, de acordo com dados preliminares, e que os resultados do segundo trimestre serão provavelmente mais desfavoráveis ainda, porque os fatores que influenciaram nesse sentido continuaram, ou foram agravados, como no caso das taxas de juros que aumentaram no mês passado.

Isso explica o comportamento do INC – Índice de Confiança do Consumidor Ipsos/ACSP -, que mostrou o resultado mais baixo da série desde o início de sua apuração, em janeiro de 2005, sinalizando que o consumidor deverá continuar retraído e que, portanto, as vendas do comércio continuarão fracas nos próximos meses, com impacto negativo sobre a produção industrial.
 
O ajuste fiscal, indispensável e inadiável, avançou com a divulgação dos cortes de despesas anunciados pelo governo e a aprovação das medidas encaminhadas ao Congresso, embora algumas tenham sofrido alguns recuos que reduziram seu potencial de economia para o governo.

É verdade que o anúncio e a aprovação pelo Legislativo das MPs foram muito importantes pelo seu impacto sobre as expectativas e, sobretudo, para a manutenção do grau de investimentos pelo Brasil.

Não se pode, contudo, ignorar tratar-se de um ajuste que, além de insuficiente, ainda é de má qualidade do ponto de vista econômico, pois se baseou em redução de benefícios sociais e aumento da tributação, de um lado, e corte de investimentos, de outro.

A situação da economia é agravada pela crise política de confronto entre Executivo e Legislativo, que o governo vem tentando contornar com “ é dando que se recebe”: a distribuição de cargos que deveriam ser ocupados por técnicos sendo rateados entre partidos.

Há ainda a chamada Operação Lava Jato, que vem paralisando obras, levando muitas empresas à inadimplência e, ao que tudo indica, ainda terá novos desdobramentos.

Diante desse cenário de riscos e incertezas fui indagado se estava otimista ou pessimista com as perspectivas e, principalmente, qual deveria ser a postura do empresário na gestão de seu negócio, pergunta extremamente difícil de ser respondida, especialmente no tocante a quem tem a responsabilidade de administrar uma empresa.

Embora tenha respondido que o empresário não podia ser pessimista, porque isso o levaria ao imobilismo, sei que o empresário é por natureza “um tomador de riscos” e deveria ser um “otimista cauteloso”.

É preciso estabelecer a diferença entre ser e estar pessimista ou otimista.

Ser otimista como o Dr Pangloss, personagem de Voltaire em seu livro Candide (Cândido), para quem sempre estava “tudo o melhor possível no melhor mundo possível”, por pior que fosse a situação, parece não ser a melhor postura. Mas “ser pessimista porque o mundo é mau” segundo José Saramago, não é tampouco caso.
 
Churchill dizia que “ o pessimista vê dificuldade em cada oportunidade, enquanto o otimista vê oportunidade em cada dificuldade”, e Confúcio afirmava que “ o pessimismo torna o homem cauteloso, e o otimismo torna o homem imprudente”.
 
Ainda nessa sequência de reflexões, Roberto Campos afirmava que “ o pessimista é um otimista bem informado”, mas a razão parece estar com Ariano Suassuna, para quem “ o otimista é um tolo, e o pessimista é um chato”, e que devemos ser realistas.

Talvez a melhor conduta para o empresário seja seguir a posição do filosofo comunista italiano Antonio Gramsci, que recomendava “ ser pessimista com a inteligência e otimista com a vontade”, ou “ser pessimista na análise, e otimista na ação”.

Isso significa que o empresário não deve ignorar as análises dos pessimistas, que apontam as dificuldades existentes, mas deve considera-las apenas para orientar melhor suas decisões.

Por exemplo, os economistas se preocupam porque o PIB brasileiro deve cair entre 1% e 2% neste ano. O empresário, no entanto, não deve se deixar levar pelo pessimismo e pelo imobilismo, mas a procurar ver como a empresa deve se posicionar para aproveitar os 98% ou 99% da economia que sobram, e que representam um mercado de mais de cinco trilhões de Reais.

Quando o navegador Bartolomeu Dias chegou ao ponto mais distante do continente africano, onde nenhum outro havia chegado, batizou o local como Cabo das Tormentas, devido aos temporais e dificuldades que enfrentou.

Ao relatar sua viagem ao rei de Portugal, dom João II, este rebatizou aquele local como Cabo da Boa Esperança, por vislumbrar que, passando daquele ponto, estava aberto o caminho marítimo para as Índias, havia tanto procurado pelos portugueses. 

Assim, enquanto os economistas apontam os riscos para se chegar ao Cabo das Tormentas, o empresário, sem desconsiderar as dificuldades apontadas, deve-se preparar para dobrar o Cabo da Boa Esperança, para depois navegar em águas tranquilas.



Na comparação com igual mês do ano passado, a alta foi de 14,8%, de acordo com a CNC

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