São Paulo, 26 de Setembro de 2016

/ Opinião

O verbo e o destino dos ladrões
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Padre Antônio Vieira, um homem do século 17, antecipou em conhecidíssimo sermão algo que os brasileiros hoje conhecem tão bem

O Padre Antônio Vieira (1608-1697) deixou uma vasta produção intelectual que impressiona pela sua atualidade, tratando de religião, política, costumes e relações internacionais.  Mas neste Brasil de hoje, impressiona muito mais a pertinência do Sermão do Bom Ladrão, “um dos melhores de todo o gênio de Vieira” (Padre Honoratti), o qual se transcreve.

LEITOR A

Chamam-se sátrapas, porque costumam roubar assaz. E este assaz é o que especificou melhor São Francisco Xavier, dizendo que conjugam o verbo rapio [furto] por todos os modos. O que eu posso acrescentar pela experiência que tenho, é, que não só do Cabo da Boa Esperança para lá, mas também das partes daquém, se usa igualmente a mesma conjugação. Conjugam por todos os modos o verbo rapio [furto]; por que furtam por todos os modos da arte, não falando em outros novos e esquisitos, que não conhecem Donato, nem Despautério. Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos, é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo.

LEITOR B

Furtam pelo modo imperativo, porque como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções de rapina. Furtam pelo modo mandativo, por que aceitam quanto lhes mandam; e para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, por que desejam quanto lhes parece bem; e gabando as cousas desejadas aos donos delas, por cortesia sem vontade as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito; e basta só que ajuntem a sua graça, para serem, quando menos, meeiros na ganância.

LEITOR A

Furtam pelo modo potencial, porque, sem pretexto nem cerimônia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes, em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas; porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente (que é o seu tempo) colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente, o pretérito e o futuro, do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões e dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente; e do futuro empenham as rendas, se antecipam contratos, com que tudo o caído, e não caído lhes vem dar a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos e plusquam mais que perfeitos, e quaisquer outros, por que furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar, para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tivessem feito grandes serviços, tornam carregadas de despojos e ricos; e elas ficam roubadas e consumidas. (“História do Futuro”, UnB, 2005).

Vieira podia ter encerrado aí essa magistral crítica aos desmandos dos sátrapas de El-Rey, mas ele entendeu que devia coroa-la com uma das mais finas peças de ironia já compostas na literatura portuguesa.

Rei dos reis, e Senhor dos Senhores, que morrestes entre ladrões para pagar o furto do primeiro ladrão – e o primeiro a quem prometestes o Paraíso, foi outro ladrão -; para que os ladrões e os reis se salvem, ensinai com vosso exemplo, e inspirai com vossa graça a todos os reis, que não elegendo, nem dissimulando, nem consentindo, nem aumentando ladrões, de tal maneira impeçam os furtos futuros, e façam restituir os passados, que em lugar de os ladrões os levarem consigo, como levam ao Inferno, levem eles consigo os ladrões ao Paraíso, como Vós fizestes hoje: Hodie mecum eris in Paradiso [Lc XXIII, 43: hoje estarás comigo no Paraíso] 

Nós também brasileiros. Para nos libertarmos da tirania da corrupção que nos oprime, rogamos que o rei e os ladrões tomem o mesmo destino profano que a Justiça lhes reserva.   

 



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