São Paulo, 09 de Dezembro de 2016

/ Opinião

O Sermão do Bom Ladrão
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Padre Antônio Vieira foi um brilhante visionário e um conhecedor profundo daqueles que se empenhavam em furtar

 

O padre Antônio Vieira, nascido em Portugal em 1608, e que veio para o Brasil ainda criança, foi um grande orador sacro, cujos sermões se tornaram celebres, não apenas pela retórica brilhante, como pelo conteúdo polêmico de muitos deles, uma vez que esse jesuíta defendia os cristãos novos ( judeus convertidos) indispondo-se com a Inquisição. Lutava contra a escravização do índios, reprovava a conduta dos colonizadores que vinham para o Brasil ou iam para outras colônias de Portugal e, sobretudo, criticava a corrupção e a impunidade dos poderosos.

Dos seus mais de 200 sermões, o que mais tem sido citado no país nos últimos tempos é “O Sermão do bom ladrão”, proferido na Igreja da Misericórdia em Lisboa em 1655, na presença do Rei português Dom João IV, de toda sua Corte, e dos mais importantes ministros dos Tribunais.

Alguns trechos desse sermão são muito fortes por terem sido proferidos na presença das mais altas autoridades, tanto pelas denúncias, como pelas cobranças.

Valendo-se da presença dos dois ladrões na crucificação de Cristo, condenados à morte “sem lhes valer procurador, nem embargo”, e citando a conduta daquele que pediu a Jesus que se lembrasse dele no Paraiso, passa a falar dos ladrões que assaltam o Reino e não são punidos.

Destaca que é mais comum ver-se ladrões que levam reis ao inferno, do que reis que levem ladrões ao paraíso.  Baseado em São Tomás de Aquino e em Santo Agostinho, destaca que para os ladrões, “sem restituição do alheio não pode haver salvação”, e que essa obrigação de restituir "não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas”.

Acentua se referir não aos ladrões miseráveis que roubam um homem, mas "àqules que roubam cidades e reinos, sem temor, nem perigo”, e justifica porque considera que os Reis e princípes são obrigados a devolver o roubado se os ladrões não o fizerem: “primeiro, porque os reis lhes dão os ofícos e poderes com que roubam” e segundo porque os conservam neles.

Embora o rei não possa saber a priori se um indicado irá ou não roubar, para que não seja responsável pelos roubos, recomenda que as pessoas sejam nomeadas apenas por “merecimento”, o que, no geral, segundo ele, não ocorre. Aquele nomeado “sem merecimento”, diz Vieira, não é apenas ladrão, senão ladrão e ladrão: uma vez porque furta o ofício, e outra vez porque há de furtar com ele. O que entra pela porta do “merecimento” poderá vir a ser ladrão, mas os que não entram por ela já o são.

Continua, “uns entram pelo parentesco, outros pela amizade, outros pela valia, outros pelo suborno, e todos pela negociação .... e quando se negocia não há mister outra prova....agora será ladrão oculto, mas depois ladrão descoberto”.

Referindo-se a um relatório apresentado por São Francisco Xavier sobre a situação na Índia, e que segundo ele ocorria nas demais colônias portuguesas, Vieira afirmou que os seus governantes conjugam “por todos os modos o verbo rapio, porque furtam por todos os modos da arte, não falando em outros novos e esquisitos”.

E continua: “começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, a todo ele aplica despoticamente as execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que
mandem todos, os que não mandam não são aceitos".

"Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem e, gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem quando menos meeiros na ganância."

"Furtam pelo modo potencial, porque, sem pretexto nem cerimônia usam de potência. Furtam pelo modo permissivo porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem o fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuar os furtos."

"Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas, porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência." 

"Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente — que é o seu tempo — colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e futuro do pretérito desenterram crimes, de que vendem perdões, e dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente, e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que tudo caído ou não caído lhes venham cair nas mãos."

"Finalmente, nos mesmos tempos, não lhes escapa os imperfeitos, perfeitos, plus quam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse."

"Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províciais suportado toda a passiva, eles, como se tivessem feito grandes serviços, tornam carregados de despojos e ricos, e elas ficam roubadas e consumidas."

Verdadeiramente, continua o padre Antonio Vieira, “ não sei como não reparam os princípes em matéria de tanta importância.... se são ladrões, de nenhum modo se pode consentir nem dissimular que continuem  no posto e lugar onde o foram, para que não continuem a  ser”.

O Sermão é muito longo, mas de uma retórica brilhante e fundamentação lógica, e vale a pena ser lido por extenso.

Interessante é a posição de Vieira sobre a responsabilidade daqueles que nomeiam para cargos públicos pessoas “sem merecimento”, porque essa prática é muito generalizada no país.

Com as devidas adaptações, será que esse sermão não se aplica à situação atual do Brasil?