São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Opinião

O recall da política econômica
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Há uma perfeita analogia entre o recall de um produto defeituoso e o que faz agora o governo federal

Imagine a seguinte situação constrangedora: você adquiriu um produto lançado por uma indústria no mercado – com publicidade atraente e convidativa – por ter características bem diferentes e inovadoras em relação ao principal concorrente.

Alguns meses depois, você recebe um recall advertindo que determinado componente do produto apresenta defeito grave e que põe em risco o consumidor. Deve comparecer, portanto, ao revendedor com o produto, para que seja providenciada a troca do componente.

Até aqui, nada de muito fora do que pode eventualmente acontecer em qualquer produção industrial, a não ser o transtorno com o recall.

Mas a sua surpresa é que, no revendedor, você é “convidado” a pagar pelo componente substituído. E a conta não é barata, pois o valor da reposição representa parcela significativa do preço do produto.

Mais ainda, você acaba descobrindo que as anunciadas características inovadoras não diferem em nada das do concorrente que, como você sabe, foi devidamente desacreditado na campanha publicitária.

Amigos seus que optaram pelo produto concorrente lhe dizem, ainda, que estão satisfeitos e que o deles não apresentou defeito de fabricação.

Você tem a alternativa de reclamar ao Procon, de entrar com uma ação contra o fabricante, o que não diminuirá a sua chateação, mas, pelo menos, poderá lhe restituir o valor indevidamente pago para ter o seu produto em ordem.

Afinal, no mercado prevalece o direito de agir contra a propaganda enganosa e fazer valer a soberania do consumidor. Coisas conquistadas a duras penas neste capitalismo moderno, que se reinventa sempre e se torna mais democrático.

Mas imaginemos outro cenário. Diante da situação econômica do país, você se assusta com uma combinação perversa e acelerada de acontecimentos. O PIB estagnado, já anunciando recessão, a inflação fora de controle, afastando-se da meta estabelecida, a dívida interna aumentando em relação ao PIB, o dólar disparando e dando saudade de quando estava em R$ 2,60, no início do ano, um déficit preocupante na balança comercial e, para completar um escândalo de proporções catastróficas na maior empresa brasileira.

A crise econômica, ainda por cima, é potencializada pela crise política.

Aí acontece o recall do produto lançado nas eleições. Você acha que o produto vencedor conquistou sua posição legitimamente, que eleições são assim mesmo, alguém ganha e alguém perde, que a democracia foi uma penosa conquista do povo brasileiro e não somente deve ser respeitada, como preservada contra qualquer tentativa de desestabiliza-la.

Corretíssimo! Mas você não deixa de se mostrar irritado com o fato de que foi “convidado” a pagar a sua parte neste gigantesco recall. A propaganda lhe enganou, o produto estava com sérios defeitos, e você ainda tem que pagar a conta da substituição de componentes. E, mais ainda, a troca de componente tornará o produto igual ao do concorrente!

Além de pagar a conta, neste caso você não tem para quem reclamar. A não ser para aqueles que o representam no Congresso Nacional, esperando que tenham a grandeza de realmente proteger os cidadãos contribuintes, que são afinal os seus eleitores.

Mas o problema é que o descalabro chegou a tal ponto que se, de um lado é absolutamente necessário e urgente um ajuste rigoroso das contas públicas, de outro nem o Executivo, nem o Legislativo estão dispostos a pagar a sua parte neste recall.

Então já sabemos de antemão como terminará este drama: quem foi “convidado” para pagar foi você, contribuinte e eleitor.

Mas você, na sua indignação, poderia perguntar, entre outras coisas, para quê 39 ministérios se já tivemos apenas de 12 a 14 em fases gloriosas do nosso crescimento?

Por que não se reduz as despesas correntes e de pessoal do governo em favor de investimentos que garantam o nosso crescimento?

Por que não se controla efetivamente a inflação e se reduz o custo do endividamento público?

E por que os nobres parlamentares não cortam as suas despesas e suas delirantes emendas?

Esqueça essas perguntas e seja realista. Afinal você foi “convidado” a pagar e dar sua quota de sacrifício. O que o governo sabe, nessas horas, é apenas aumentar impostos, cortar linearmente investimentos e continuar gastando no que lhe interessa para se manter no poder.

Para piorar, não há nenhuma garantia de que a componente de reposição é realmente avalizada pelo produtor, se o conserto vai ser levado a sério, e se, após o imenso sacrifício, poderemos comemorar resultados.

Como você não pode declinar o honroso “convite”, prepare-se para mais impostos, mais juros, mais “tarifaços” e menos respeito pela sua condição de contribuinte e eleitor.