São Paulo, 03 de Dezembro de 2016

/ Opinião

O radical
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"Não há mudança política em uma sociedade sem a participação do radical. Se ela é boa ou má, é uma outra história, ou melhor, é um problema da História."

Quem é o radical? Prosaicamente temo-lo por uma pessoa capaz de ações extremadas, infensa a qualquer diálogo ou composição e orientada exclusivamente pelas suas convicções.

Embora a nossa percepção moderna, via de regra, seja negativa quanto ao radical, não é possível deixar de reconhecer o seu papel, muitas vezes decisivo, para as grandes transformações da Humanidade, a começar pelos cristãos que se extremaram sendo imolados no exemplo de São Paulo, que combateu o bom combate, terminou a carreira e guardou a fé.  

Não há mudança política em uma sociedade sem a participação do radical. Se ela é boa ou má, é uma outra história, ou melhor, é um problema da História.

Os nazistas e comunistas, sem o menor arrependimento, imolaram milhões de pessoas em nome da mudança. Outros extremados podem estar sub judice histórico, como os puritanos de Cromwell ou os sans-cullotes de Paris, mas tanto a Inglaterra quanto a França devem tudo ao radicalismo de Churchill e De Gaulle, que, por caminhos bem distintos, souberam preservar e resgatar a grandeza de suas nações.

Para nós, contemporâneos sem as lentes da História, não é fácil estabelecer uma linha divisória entre o radicalismo bom e o radicalismo mau, para atribuir juízo de valor às ações das pessoas que se extremam nas palavras e atitudes em determinado cenário.

Ainda mais numa sociedade como a brasileira atual, com sistemas de pesos e contrapesos políticos, sociais e econômicos, na qual a permanente busca de equilíbrio desqualifica previamente qualquer extremismo, vigendo um consociativismo tomado até por defeito nacional, no diagnóstico de certos sociólogos e cientistas políticos.

É melhor buscar esse juízo no que une os radicais de todos os tempos e geografias, no seu momento por excelência: a crise. É nela que resplandecem os talentos e excepcionalidades dos radicais de todos os jaezes, é na crise que o radical aparece na sua real dimensão e funcionalidade. E na crise onde brilha o radical está a matriz de seu julgamento: a sua origem.

Por que há uma diferença entre o radical que assume o poder a partir da criação e exploração das crises e aquele que, convocado ao poder, enfrenta a crise que ele não criou e leva o sistema de volta ao equilíbrio.

Napoleão, Lênin, Hitler, Churchill e De Gaulle foram radicais, cada qual a seu jeito e tempo, uns empolgando o poder pela crise e gerando uma após outra para nele permanecerem, outros vencendo a crise para saírem pela porta dos fundos do poder e serem consagrados pela História.

Ajustemos essa perspectiva ao cenário brasileiro. Quem é o radical na atual crise? O ministro do STF que, contumaz em discordar de seus pares, assume sozinho a punição aos responsáveis pelo maior escândalo de corrupção política já julgado no Brasil?

O senador, o deputado que em minoria partidária leva à tribuna o repúdio da maioria da população à política imposta pelos ideólogos do governo? O juiz, o procurador, o auditor, o policial que não se dobra às pressões ou ameaças e continua a investigar e a denunciar a corrupção que enlameia o País?

A pessoa comum, pagadora de impostos, trabalhadora e cidadã, que vai às ruas pedir a punição dos responsáveis pelos crimes praticados contra a coisa pública? Por incrível que pareça, é esse tipo de pessoa que os arautos do governo tentam classificar como radical. Que seja então, que o tomemos pelo radical da reação.

Quem mais é radical? Há outros por certo. O mais conhecido deles está no poder e no poder se faz de senhor da verdade, pontifica suas teses absurdas com aquele ar de gravidade que o poder empresta, e usa o poder para fazer sua radicalidade parecer normal, normalmente mediante a estratégia do politicamente correto, aquela supressão do debate mediante a imposição da verdade única.

Esse é o radical da ação, que trabalhou durante décadas para gestar crise após crise até chegar ao poder, e, no poder, continua trabalhando para a crise que levará à implantação do socialismo no País e, mais do que isso, fará do Brasil a nova sede do socialismo internacional, como estabelecido pelo Foro de São Paulo.

Mas há um outro radical, não tido como tal, mas como os outros capaz de ações extremadas, que nega o diálogo, embora se apresente aberto a ele, e que só se move por uma convicção, o seu interesse.

Seu extremismo se resume na firme determinação de não fazer o que se espera dele por atribuição legal ou institucional, seu diálogo é o da esfinge e não há o que o demova de seu oportunismo.

Apregoando moderação e se apresentando como conciliador nos momentos de crise, ele defende vigorosamente a acomodação que o beneficia.  É o radical da negação, que repudia todos os compromissos que assumiu.

Talvez o exemplo mais notório do século XX seja o de Pétain, o general francês, um soldado que saiu das sombras para trair seu juramento de defender a pátria, clamando pela rendição da França batida em 1940, mas ainda não vencida, para deportar seus compatriotas judeus para os campos de concentração nazistas e para colaborar com o esforço de guerra de Hitler.

No Brasil eles são os que participam do condomínio do poder com o PT, que são capazes de negar a ameaça política que paira sobre o País e que ainda posam de salvadores da Pátria.

O Brasil é um grande país, mas não é relevante no cenário internacional. Nas oportunidades em que se encaminhava para uma posição de destaque, suas fragilidades e crises inviabilizaram ou abreviaram os ciclos de desenvolvimento que o levariam a um patamar social, político e econômico mais elevado.

Tradicionalmente, todos os recursos, esforços e preocupações do País se dirigem para o desenvolvimento e para a superação das desigualdades sociais e regionais. Talvez por isso os brasileiros, pelas suas lideranças, estejam sempre tão voltados para o país, um tanto incapazes de ver o cenário que os cerca. Aliás, milhares de brasileiros estão vendo sim, mas para ir embora e não voltarem mais.

Isso precisa mudar, por que o país está para se notabilizar mundialmente pelo fracasso, ao escolher o caminho errado da História. Muito mais do que pelo PIB, inexpressivo ou negativo, o País está ficando para trás em termos de desenvolvimento, por qualquer expressão que seja.

Muito mais do que pela retórica do PT, o País está se encaminhando para se transformar em um polo de poder socialista no mundo. E isso não deixará de ter consequências graves para o Brasil.

A crise está instalada, não precisa ser inventada ou exagerada para que propósito for. É o tempo dos radicais, bons e maus. Portanto, mesmo que não se sinta como um, parafraseando a chamada de um famoso seriado cuja nova série acaba de ser lançada, está na hora de você escolher o seu bando.

Mas cuidado com a escolha.  Dependendo do desfecho da crise, você terá de conviver, por muito tempo, com suas graves consequências, se não tanto você, pela sua idade, os seus filhos e netos. E dessa vez não haverá como se arrepender, nem como deixar o barco, como certos radicais estão fazendo nestes dias de borrasca.

 



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