São Paulo, 25 de Setembro de 2016

/ Opinião

O paradoxo da parcimônia
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Por que os investimentos em empresas encolheram tanto?

Como disse o economista Francesco Saraceno, o departamento de pesquisas do Fundo Monetário Internacional, que sempre foi excelente, tornou-se uma fonte extraordinária de informações e de ideias na Era de Blanchard [economista-chefe do FMI]. Hoje em dia contamos, de modo especial, com a Perspectiva Econômica Mundial semianual que nos proporciona novas perspectivas fantásticas sobre o funcionamento do mundo. E a última edição não é exceção.

A grande novidade intelectual aqui é o Capítulo 4, que trata do investimento privado (leia aqui). Como informa o relatório, os poucos investimentos em empresas têm contribuído enormemente para a fragilidade econômica global. Mas, por que os investimentos em empresas encolheram tanto?

De modo geral, há duas explicações para isso. Uma delas diz que há uma falta de confiança nas empresas devido a problemas fiscais decorrentes de reformas estruturais que não foram feitas e, possivelmente, de uma retórica negligente.

Os conservadores americanos, em especial, gostam muito de uma hipótese que podemos traduzir pela expressão "Mãe, ele está olhando esquisito para mim!". Em outras palavras, o que está por trás disso é aquela história de que o presidente Obama, ao dizer ocasionalmente que alguns empresários se comportaram mal no passado, feriu os sentimentos deles e perpetuou a recessão econômica.

A outra explicação sustenta que os investimentos em empresas recuaram porque a economia está debilitada. Especificamente, o argumento diz que os efeitos da desalavancagem [do gasto] das famílias e a consolidação fiscal resultaram em um crescimento lento, o que reduziu o incentivo ao acréscimo de capacidade  — o chamado efeito "acelerador" — produzindo o baixo investimento que reduziu ainda mais o crescimento.

O FMI aposta suas fichas nessa segunda explicação. De fato, a instituição acha que os investimentos tiveram um desempenho um pouco melhor do que podia se esperar em um contexto de debilidade econômica. Curiosamente, foi a essa conclusão que eu cheguei faz algum tempo depois de analisar os dados referentes aos EUA em 2010, no auge da era do sujeito "olhando esquisito para mim".

Mas, espere um pouco, não é só isso.

Para lidar com o problema da causação reversa — isto é, menos investimento pode resultar em crescimento frágil, e vice-versa — o FMI adota uma estratégia de "variáveis instrumentais".

Em termos bem simples, o FMI está interessado em episódios de crescimento frágil que não tenham sido causados especificamente por outros fatores, de modo que possa afirmar com certeza que a queda nos investimentos é efeito, e não causa.

O instrumento a que o fundo recorre para isso é o da consolidação fiscal: ou seja, ele descobre casos em que os cortes de gastos, ou a elevação tributária, ou ambas as coisas, deprimem a demanda e, por conseguinte, os investimentos.

O que o FMI não diz explicitamente é que, ao usar esse procedimento, ele consegue, de passagem, refutar uma crença amplamente difundida, porém falsa, a respeito dos déficits, além de confirmar uma proposição keynesiana altamente controversa.

A falsa crença é que os déficits necessariamente "expulsam" os investimentos, de tal forma que a redução dos déficits deve liberar os fundos resultando em maiores investimentos. O FMI, porém, discorda: quando os governos põem em prática medidas de redução do déficit, os investimentos caem em vez de subir. Isso mostra que os déficits atraem os investimentos, e não o contrário.

Existe ainda uma outra maneira de lidar com a questão: quando os governos introduzem medidas de austeridade, eles estão tentando reduzir seus empréstimos líquidos — na verdade, porém, eles estão ampliando sua taxa de poupança.

Quando o FMI nos diz que tais tentativas de aumentar a poupança na verdade levam a menos investimentos, e não mais — e uma vez que  poupança é igual a investimento, a poupança real cai. Portanto, o que temos aqui é a confirmação empírica da existência do paradoxo da parcimônia!

Tradução: A.G.Mendes



As ações de grupos que se empenham em contestar a legitimidade do presidente prejudicam a governabilidade e em nada contribuem para que o país possa superar suas imensas dificuldades

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Milhares de passageiros passam por dia em nossos aeroportos e sofrem com a falta de um serviço essencial, prestado por trabalhadores, é sempre bom repetir, credenciados para este fim.

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Ainda que estas ações aconteçam na escola e entre crianças e jovens, a lei deve ser cumprida e os responsáveis, punidos

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