São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Opinião

O Oscar não é arte, é cinema como business
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Prêmio da indústria cinematográfica americana é indevidamente confundido com o reconhecimento da qualidade artística

O senso comum diz basicamente o seguinte: um filme indicado para o Oscar é melhor que um não indicado, enquanto um filme ganhador do Oscar tem qualidade superior ao de qualquer outro filme não ganhador.

Essa hierarquização da produção cinematográfica não passa de uma grande bobagem. E não em razão das imensas injustiças registradas pelo histórico da Academia (contra Charlie Chaplin ou Orson Welles).

A questão é outra. O Oscar é uma festa do cinema como business, e não como arte. O que já é algo notável, diante da qualidade que o cinema americano atingiu. Não apenas por sua imensa produção - numericamente superada apenas pela Índia, em longas - o que permite imensa economia de escala, mas pela qualificação técnica das equipes envolvidas.

Uma das chaves para o lado business do prêmio foi dada há uns quinze anos pelo insuspeito Financial Times. O que ele basicamente informava é que a Academia deixou de ser um coletivo com votação democrática, em razão da mudança da estrutura do modelo de negócios de Hollywood.

Expliquemos melhor. Em 1913, quando a primeira premiação ocorreu - ela se tornaria pomposa apenas em 1929 - a produção estava em mãos de estúdios estruturados verticalmente. Era a Metro-Goldwin-Mayer, a Paramount, a Warner Bros e a Columbia, aos quais se juntou a United Artists.

Um grande estúdio era ao mesmo tempo uma empresa que controlava todas as etapas da produção. Ele mantinha contratados roteiristas, diretores, atores e atrizes, compositores e uma imensa equipe técnica. Tudo era feito internamente, a exemplo do que ocorria também com outros setores industriais, como o das montadoras de automóveis.

Em nome de uma racionalização dos negócios, os estúdios emagreceram e se tornaram pequenos núcleos capacitados a terceirizar todas as tarefas, do contrato de um ator ao de uma empresa especializada em efeitos especiais, de um operador de câmera ao autor de trilhas sonoras.

O que o Financial Times argumentou é que os núcleos operacionais em que se tornaram os estúdios estão sempre diante de um bom leque de opções para fechar pontualmente contratos que permitam fabricar determinado filme. Mas se o estúdio for ambicioso e quiser ganhar muito dinheiro por meio da premiação de um Oscar, ele vai terceirizar a produção com pequenos grupos e empresas que já têm um Oscar em seu portifólio.

Ou seja, antes mesmo que o filme comece a ser rodado, o produtor ou o estúdio já parte com um estoque de votos para o Oscar, dependendo de quem ele já contratou para a direção de fotografia ou iluminação, para a concepção das roupas, maquiagem ou escrita da música da trilha.

Vamos nos entender bem. O estúdio ou o produtor não "compram" o voto dos seus prestadores de serviços, no sentido corruptor que o verbo possa ter. Ele os integra a uma instituição coletiva que é a equipe para a produção de determinado filme. Os integrantes dessa equipe que têm o direito a voto na Academia irão, natural e obviamente, votar neles próprios. Com uma nova indicação ao Oscar ou com um novo Oscar, o prestador de serviços subirá de patamar na remuneração de seu trabalho.

A moral dessa história é simples. Não é verdade que os 5.783 votos da Academia (número dado há três anos pelo Los Angeles Times) nasceram por critérios individuais, de empatia emocional com os filmes. Eles votam também por critérios empresariais, para valorizar o produto cinematográfico no qual estiveram envolvidos.

É claro que nem todo voto segue essa motivação. Se a votação é auditada pela PwC, não há nenhuma auditoria que indique a razão pela qual o votante "x" optou pelo filme "y" na categoria "z". Ele pode um admirador desinteressado e sincero, ou pode ser amigo, marido ou parceiro (terceirizado) da produção do filme pelo qual votou.

É por isso que o filme com o Oscar não é necessariamente melhor que o filme sem o Oscar. O filme com o Oscar é o filme com os votos daqueles que podem estar reagindo por uma motivação empresarial - e não necesariamente artística.

Só quando o plano empresarial e o plano artístico se juntam numa reação unificada, aí sim, temos excelentes filmes americanos merecidamente premiados com o Oscar.

 



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