São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Opinião

O futebol e os salários dos executivos
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Não é loucura imaginar que os CEOs talvez comecem a violar as normas porque os zagueiros estão recebendo salários polpudos

Alguns anos atrás, fiz uma palestra para um grupo de empresários. Em seguida, na parte social do evento, conversamos sobre os salários dos executivos. Muitos dos presentes disseram que os salários haviam aumentado exageradamente, mas o que guardei mesmo depois de todos esses anos foi a explicação que ouvi de uma pessoa que me disse de um jeito mais ou menos sério: é tudo culpa do "Futebol de Segunda à Noite".

Quando os jogos de futebol começaram a ser transmitidos pela tevê nos Estados Unidos, disse ele, a remuneração dos times vencedores disparou, e com isso os jogadores passaram a receber altos salários. Os CEOs, que veem muito futebol, perceberam o que estava acontecendo e começaram a ser perguntar: "Por que não eu?"

Se os salários fossem fixados por um mercado competitivo, isso não teria importância, mas não é o caso. Os CEOs indicam as comissões que decidem quanto eles valem e a única restrição são as normas sobre remunerações consideradas excessivas. O futebol, prosseguiu meu interlocutor, deflagrou o colapso dessas normas e aí a coisa disparou.

Inicialmente, a explicação me pareceu ridícula — certamente grandes mudanças históricas devem ter raízes mais profundas. No entanto, me peguei pensando recentemente sobre aquela conversa que tive depois de ler um post de blog interessante de Vera te Velde, economista da Faculdade de Economia da Universidade de Queensland, na Austrália, que discorria sobre os testes a que foi submetida a teoria das "vidraças quebradas".

De acordo com essa teoria, as pessoas se sentem mais inclinadas a violar as normas sociais se virem outras fazendo o mesmo, não importa se as normas violadas tenham ou não algo em comum.

Quando você passa diante de um muro pichado, por exemplo, a tendência é segurar firme a bolsa, ou então você joga lixo na rua se percebe que as pessoas ignoram as leis de silêncio.

Conforme observou te Velde, existem atualmente evidências experimentais de sobra a favor da teoria citada (leia aqui o post: bit.ly/1Hjs35b). Portanto, não é loucura imaginar que os CEOs talvez comecem a violar as normas porque os zagueiros estão recebendo salários polpudos.

Tudo bem, não se deve pôr a culpa só no futebol, se é que ele tem alguma culpa. O fato é que o surto dos altos salários, que começou há cerca de 40 anos, não precisa ter causas concretas — talvez seja um caso de contágio de violação de norma.

Isso também explicaria por que os níveis dos altos salários são tão diferentes nos vários países. Em todos eles, o fator determinante mais óbvio é se você fala inglês. Pense nisso como uma epidemia de vidraças quebradas nos Estados Unidos que se espalhou por países culturalmente próximos aos EUA, mas não tanto em outros lugares.

Tudo isso não passa de especulações aleatórias, o tipo de coisa que, no passado, um economista sério não traria à esfera pública. Mas é que ouço as pessoas dizer tanta coisa que pensei, ora bolas, eu bem que podia dizer alguma coisa também.

Ok, esqueçam!



Como as ruas demonstraram mais uma vez neste domingo (04/12), a população repudia a corrupção, apoia a operação Lava Jato e responsabiliza a classe política pela situação do País.

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Se não deixarmos nossa miopia política de lado e afastarmos nossos preconceitos de classe, não vamos prosperar numa aliança estratégica e soberana sobre o baixo clero da política

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Pode-se dizer que as novas gerações da atualidade política brasileira são a essência de tudo de mal, ruim e ilegal, que a chamada classe política faz ao Brasil.

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