São Paulo, 07 de Dezembro de 2016

/ Opinião

O fim da expansão monetária americana
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Com minhas desculpas, passo ao que julgo ser o tema mais importante do cenário internacional – pelo menos do ponto de vista do Brasil

Leitor escreve e pede que eu retome a análise eventos internacionais, coluna sim, coluna não, como costumo fazer.

Tem razão o leitor. Em minha defesa apenas aponto que os eventos internos se impuseram de tal maneira que discorri duas vezes seguidas sobre eles. Com minhas desculpas, passo ao que julgo ser o tema mais importante do cenário internacional – pelo menos do ponto de vista do Brasil.

Concordo com George Friedman ao dizer que chegou a hora que os investidores internacionais aguardavam: o Comitê de Política Monetária dos EUA anunciou em sua reunião de 29 de outubro último o fim do programa de expansão monetária anunciado em 13 de setembro de 2012.

Esse programa consistiu em compras, pelo Comitê de Política Monetária do Federal Reserve, o banco central americano, de títulos bancários, conhecido no jargão local como QE3, e na manutenção da taxa básica de juros dos EUA próxima de zero. O objetivo do programa foi o de estimular a economia. Em sua vigência, o Federal Reserve adquiriu mensalmente US$ 40 bilhões de títulos detidos pelo mercado; posteriormente, em dezembro de 2012, as aquisições alcançaram US$ 85 bilhões mensais.

O fim do QE3 marca, portanto, uma mudança radical na política econômica americana, depois de seis anos de expansão monetária e juros básicos quase nulos. É difícil antever o que ocorrerá, não somente com relação à economia americana, mas principalmente com a economia mundial.

O que há de favorável no evento é o fato de que se trata de uma morte anunciada: o Federal Reserve vem avisando há tempos o mercado do fim próximo do programa de expansão monetária. Ninguém poderá dizer que foi surpreendido e deixou de tomar as medidas de política econômica necessárias para fazer face às consequências da mudança.

Corroborando esse fato, o banco central americano já vinha, desde maio de 2013, reduzindo o valor mensal das compras de títulos, do recorde de US$ 85 bilhões mensais para a compra final esse mês de somente US$ 15 bilhões.

Essa redução nas aquisições não ocorreu sem perturbações no mercado. O menor volume de dinheiro injetado no mercado a partir de maio de 2013 trouxe consigo um aumento na volatilidade dos preços dos ativos, decorrente tanto da menor quantidade de dinheiro na praça como da perda do hábito de acompanhar mais detidamente o mercado depois de seis anos de marasmo monetário.

Não se questiona a volta à normalidade no mercado monetário dos EUA. O QE3 foi concebido como medida transitória para fazer face à perda de confiança dos agentes econômicos com a crise de 2008. O que pode ser perguntado é se a sua eliminação, depois de seis anos de vigência, é positiva ou negativa.

Do ponto de vista americano, serve de indicação que a economia do país caminha para a normalidade. O mesmo não pode ser dito de todos os demais países. A Europa continua patinando e a “Abenomics” – a política econômica do premiê japonês Shinzo Abe – ainda não disse a que veio.

Ainda mais afetados serão os países que dependem do mercado internacional de capitais para financiar seus balanços de pagamentos. No jargão do mercado, cinco deles com enormes saldos negativos em seus balanços de pagamentos em conta corrente estão sendo chamados de “Os Cinco Frágeis” – Turquia, Índia, África do Sul, Indonésia e Brasil. Isso mesmo, estamos no mesmo balaio que os outros quatro.

Como isso foi possível? Faz muito que os economistas profissionais estão alertando o governo para controlar suas contas. Ao excesso de gastos do governo soma-se o excesso de gastos do setor privado, impulsionado por um crescimento sem precedentes do crédito. Como a produção interna não cresce na mesma proporção que a demanda, o excedente transborda para o balanço de pagamentos.

Nesse quadro, é compreensível que o Banco Central tenha decidido elevar a taxa Selic. É possível que volte a fazê-lo, revertendo uma política que havia sido anunciada antes das eleições.

Uma parcela considerável dos recursos externos que desembarcam em nosso país vem em busca de maior rentabilidade em relação ao que é possível obter nos países de origem. Até recentemente, com o Banco Central controlando a desvalorização do real, comprar títulos do Tesouro brasileiro era a melhor aplicação do mercado.

Teremos um período de turbulência pela frente no balanço de pagamentos. O resultado acumulado das contas fiscais no ano passou de um superávit para um déficit primário de R$ 15,705 bilhões. É a primeira vez que isso ocorre desde 1997, quando teve início da série histórica desses dados.

O resumo da ópera é o seguinte: se as contas públicas não produzirem um saldo primário positivo, o esforço do Banco Central será semelhante a enxugar gelo. A diferença é que as condições externas, favoráveis até agora, talvez não sejam tão boas com o fim da expansão monetária americana. A conferir.



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