Opinião

O custo perverso


Existe crime maior do que fraudar o processo que elege as pessoas que nos representarão em quase todas as expressões de vida em sociedade?


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 18 de Abril de 2017 às 14:47

  | Historiador


Encurralada por si própria, a classe política brasileira tenta agora descriminalizar o maior dos crimes que cometeu, o de Caixa 2. 

Prova cabal da falta de um pensamento político no Brasil, aquele que “modela e mantém a vida política e sua evolução”.

Hoje, existe entre nós apenas teoria política, cada vez mais adstrita a guildas acadêmicas, com praticamente nenhuma influência sobre a classe política, que a cada dia parece mais afastada da sociedade.

A citação acima, do texto de Ernest Baker para aula inaugural em Cambridge, consta de obra*  da Coleção Pensamento Político da UnB, complementada pela Coleção Bernardo Pereira de Vasconcelos, editada por aquela universidade e o Senado Federal. 

Prova de que nem sempre as coisas foram assim no Brasil. Nem antigamente, nem tão antigamente, quando homens públicos vinham a público defender ideais, e não se escondiam nas sombras para defenderem ideias de um fracasso moral.

Por que é exatamente do que se trata o crime eleitoral de Caixa 2: um retumbante fracasso moral da Nação. E a tentativa de descaracterizá-lo, o desprezo pela Democracia.

Existe crime maior do que fraudar o processo que elege as pessoas que nos representarão em quase todas as expressões de vida em sociedade?

Há alguma dúvida de que o ocultamento de dinheiro privado e público para campanhas frauda o processo eleitoral, básico em uma democracia?

É possível a uma sociedade soberana se organizar democraticamente segundo a Lei, quando os que vão redigi-la já a fraudaram?

Estamos aqui dizendo dos aspectos morais da questão, por certo inevitáveis, por mais que alguns pretendam fazê-los desaparecer.

Afinal de contas, a teoria política se interessa primordialmente pelos fins a que o homem se propõe como ser moral, que vive associado a outros seres morais e persegue seus objetivos na vida em comunidade, como pontifica o autor citado. 

Claro que há aspectos mais chãos nessa tentativa de desmoralização da moral. O mais tosco deles o dilmismo, uma ampliação do epíteto ademarista “rouba, mas faz” para o banditismo petista “rouba pela causa”, terminando tudo em puro e simples roubo garantido pelo direito de roubar consagrado no Caixa 2.

Roubo sim, por que de onde você acha que vem o dinheiro do Caixa 2? 

Dinheiro do narcotráfico e de outros ilícitos à parte, o dinheiro do caixa 2 é público. Vem das compras públicas, que são vendidas pelos políticos, que cobram seu preço, que gera superfaturamento, que é pago por você cidadão e contribuinte. Assim, roubam eles, somos roubados todos nós, em tudo o que compramos e vendemos. 

Há quem coloque essa conta no tal do Custo Brasil, com toda razão. Um custo moral, político, econômico e social que sufoca o País.

Se não reagirmos, se tornará o custo perverso de ser brasileiro.

*KING, Preston (Org.). O Estudo da Política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1980.

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