São Paulo, 04 de Dezembro de 2016

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A assinatura de um acordo-marco entre o Ocidente e o Irã resolve questões em quantidade maior que os problemas criados

Depois de 35 anos de infindáveis negociações entre o Ocidente e o Irã, finalmente firmou-se o acordo-marco que regula o programa nuclear iraniano Quem perdeu, quem ganhou?

A resposta mais simples é que ganharam as duas partes. O Irã ganha com a suspensão das sanções impostas pelos países ocidentais. Ganha também porque poderá manter cinco mil centrifugadoras enriquecendo urânio. Mais que isso, ganha cerca de quinze anos sem sanções, após o que poderá retomar o seu programa nuclear.

O que ganhou o Ocidente? Primeiro, a permissão para que inspetores internacionais monitorem continuamente a boa execução do que foi acordado. Desnecessário dizer que essas inspeções in loco transmitirão preciosas informações para as potências ocidentais.

Não somente sobre o programa nuclear, mas também sobre a disposição de equipamentos militares e sobre a economia do país. Além disso, a retomada de exportações ao país – tema de enorme importância para os europeus, cujas economias estão carentes de demanda para sua recuperação.

Segundo: o estoque iraniano de urânio enriquecido será reduzido, o que diminui a possibilidade de seu emprego militar. Mais importante, será transformado o reator de água pesada localizado em Arak.

Temia-se que com esse reator fosse possível ao Irã transformar urânio enriquecido em plutônio, o elemento essencial para a construção de um artefato nuclear. Essas e outras cláusulas do acordo ficarão em vigor por até 15 anos.

Finalmente, houve também ganhos pessoais para os negociadores. Isso aplica-se especialmente ao secretário de Estado norte-americano John Kerry. Para ele, essa era a última chance de deixar um legado significativo de sua atuação na gestão Obama.

Sua credibilidade estaria em cheque se nada resultasse dessa rodada de negociações. As negociações com o Irã eram sua única grande área de atuação; todos os demais temas relevantes da política externa norte-americana – Síria, Egito, Ucrânia e o combate ao terrorismo – estavam diretamente sob a supervisão do presidente Obama.

Do lado iraniano, o presidente Hassan Rouhani e o chanceler Javad Zarif estavam igualmente comprometidos com a obtenção de um acordo. Desde que as negociações haviam sido retomadas sob a sua liderança, a ausência de um acordo poria fim ao seu futuro político.

Contudo, o acordo-marco firmado não é o fim da história. Será preciso ratificar o acordado para transformá-lo em um acordo definitivo. Haverá dificuldades em convencer o congresso dos Estados Unidos de que esse é um acordo bom para o país.

O recente discurso do primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu perante o congresso norte-americano, em que atacou violentamente o acordo em gestação, obteve aplausos demorados dos parlamentares republicanos. Tampouco agradou o acordo à liderança da Arábia Saudita, grande rival do Irã na região.

A despeito dessa oposição, que não é desprezível, o acordo-marco dispõe de um nível de detalhamento que responde à maioria das críticas até agora apontadas. A forma de supervisão pelos inspetores assegura, na prática, que o Ocidente saberá, no curto prazo de um ano, se o lado iraniano está ou não cumprindo o acordado – e dará tempo suficiente para que represálias sejam postas em prática.

Supondo que ao final de todas as discussões em torno da aprovação do acordo-marco, no Ocidente e no Irã, o mais importante é averiguar que consequências decorrerão nos próximos 10 a 15 anos.

Com ou sem acordo, o Irã se tornará uma potência nuclear. Não será a única na região. Mas essa disponibilidade de um arsenal nuclear terá, como as demais, capacidade apenas dissuasória.

Nos próximos 15 anos, o Irã poderá lenta e cuidadosamente encontrar brechas no acordo e levar adiante o seu programa. Será muito difícil reunir o regime de sanções atualmente existente – e que levou o Irã à mesa de negociações.

Resultarão boas consequências do acordo no longo prazo. A suspensão das sanções carreará investimentos estrangeiros para o país. A maior abertura do Irã às forças da globalização reforçará aqueles que buscam uma sociedade mais pluralista.

Na contramão e na ausência de sanções, o Ocidente terá que aceitar outros comportamentos do Irã que não são de seu agrado, entre eles o seu programa de construção de mísseis balísticos e o apoio econômico e militar ao Hezbollah e ao regime sírio do presidente Bashar Assad.

De um acordo final resultará um Irã mais forte e mais cooperativo, mas com um comportamento mais volátil. A ausência dele produzirá um país mais frágil, mas mais beligerante. Não há outras opções a esses cenários.

 



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