São Paulo, 25 de Setembro de 2016

/ Opinião

Mudança de humor dos investidores externos
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Os dados falam por si: do primeiro para o segundo semestre, as entradas de recursos externos caíram 29% para o conjunto dos países emergentes, enquanto a queda para cá foi de 77%

Dados da UNCTAD – a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento – mostram que até 2013 o Brasil constituiu um dos principais destinos para o investimento estrangeiro no mundo. De fato, fomos naquele ano a quinta principal destinação dos investimentos diretos estrangeiros, atrás apenas da China, Estados Unidos, Rússia e Hong Kong, província da China.

Dados mais recentes, referentes ao primeiro semestre deste ano, mostram um quadro completamente diverso. É bem verdade que ocorreu uma retração dos investimentos externos para os países emergentes como um todo, mas a retração desses fluxos de recursos foi maior para o nosso país que para os demais emergentes.

Os dados falam por si: do primeiro para o segundo semestre, as entradas de recursos externos caíram 29% para o conjunto dos países emergentes, enquanto a queda para cá foi de 77%. O que explica essa disparidade de comportamento dos investidores?

Há quem atribua a retração mais pronunciada no caso brasileiro ao interminável escândalo da Petrobras. Certamente ele influenciou, já que a Petrobras é a maior e mais conhecida empresa brasileira no exterior. Mas é difícil atribuir a mudança de atitude dos investidores somente à Petrobras e seus escândalos.

Há razões internas e externas para explicar a queda do IED no Brasil. Comecemos pelas razões externas.

O primeiro desses fatores externos diz respeito ao petróleo. A súbita e surpreendente queda dos preços do petróleo reduziu o volume de recursos nas mãos dos países exportadores. Está ocorrendo no mercado financeiro internacional um fenômeno oposto ao observado nas duas grandes elevações dos preços do petróleo promovidas pela OPEP.

Desta vez, a OPEP foi incapaz de reduzir a oferta e sustentar os preços no patamar anterior de US$ 100 o barril. A Arábia Saudita, o maior produtor e o país com o maior volume de reservas do produto, prefere ver os preços despencarem para frear a produção americana a partir do xisto. Com a queda dos preços, contraiu-se a liquidez internacional e os recursos disponíveis para investimento se retraíram. Hoje faltam “petrodólares” no mercado.

Um segundo fator é a retomada do crescimento nos Estados Unidos. Essa retomada vem sendo potencializada pelos baixos preços do gás obtido também a partir do xisto. O industrial americano hoje paga um terço do que paga o industrial japonês ou brasileiro. É fácil perceber o enorme ganho competitivo da indústria americana, especialmente a intensiva em energia.

As novas oportunidades decorrentes dessa mudança dos custos da energia nos EUA estão atraindo recursos que, de outra forma, e dirigiriam aos países emergentes.

Quando a promessa do ajuste se materializar, traremos de volta os investimentos

Finalmente, está chegando a hora de o Federal Reserve (banco central americano) iniciar o processo de elevação gradual das taxas de juros. Essa elevação se transmitirá a todo o mercado financeiro mundial e sinalizará que os EUA voltaram a ser tornar opção melhor de investimento que as correspondentes em muitos países emergentes.

Passemos às razões internas. Há motivos para todos os gostos, da incerteza provocada pelo resultado da eleição presidencial até o medíocre desempenho da atividade econômica interna. A elas se juntam a queda dos preços das commodities que tanto beneficiaram as nossas contas externas nos últimos anos e o próprio resultado do balanço.

Com relação ao balanço de pagamentos cumpre observar que, diferentemente do ocorrido em passado recente, caminhamos para uma situação em que o IED não será capaz de financiar o déficit do balanço de pagamentos em conta corrente. Não deverá surpreender se o déficit situar-se este ano próximo aos US$ 90 bilhões e o IED não ultrapassar US$ 60 bilhões.

Isso pode ser visto com clareza nos números referentes às captações de recursos no exterior mencionados anteriormente. Esses números acabam por tornar-se efeito e causa das dificuldades que enfrentamos em nosso balanço de pagamentos. A menor entrada de recursos deve-se a condições objetivas de nossa economia, mas a própria redução do IED induz a postergação da entrada de recursos.

Prometemos ajustar a economia com a escolha do novo time econômico. A simples constatação de que essa promessa é para valer criará um ambiente propício à retomada do investimento externo. Quando a promessa se materializar e for possível observar a correção paulatina do excesso de gastos do governo, a redução também gradual da inflação e o progressivo ajuste do balanço de pagamentos, mudaremos o humor dos investidores externos e traremos de volta o investimento. É pagar para ver.

 

 



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