São Paulo, 27 de Setembro de 2016

/ Opinião

Memórias de uma aliança com os hippies tolos e sujos
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Diferentemente dos VIPs, eles entendiam realmente tanto de gestão quanto de política

Dave Weigel, da Bloomberg, escreveu uma das retrospectivas mais interessantes sobre Harry Reid ressaltando o papel do senador de Nevada na resistência à tentativa do presidente George W. Bush de privatizar a Seguridade Social em 2005 — e, de modo especial, o modo como Reid construiu uma aliança com os blogueiros liberais. (Leia aqui o texto de Weigel).

Lembro-me muito bem do episódio, e por diversos motivos. Um deles se deve ao fato de que eu também estava escrevendo muito, derrubando um por um os argumentos ruins a favor da privatização. Não era a primeira vez que eu fazia esse tipo de coisa, mas esse debate foi diferente por dois motivos: foi muito acalorado, e pelo menos daquela vez minha argumentação venceu o debate político.

HARRY REID, SENADOR DEMOCRATA DE NEVADA/Foto: Stephen Crowley/The New York Times

 

Aquele foi também um período de formação para minha perspectiva de como os argumentos políticos se davam, de fato, nos Estados Unidos de hoje. Há sempre três lados: o da direita, que não está interessado em fatos ou em lógica; o da esquerda (que não é muito esquerdista — a esquerda americana, na verdade, é centro-esquerda não importa o critério que se use); e os autoproclamados de centro, que pouco influem sobre o eleitorado do país de modo geral, mas cuja influência é enorme em Washington. 

O que eu aprendi desde cedo a respeito do debate em torno da Seguridade Social foi que o centro queria desesperadamente acreditar na existência de uma simetria entre esquerda e direita —que democratas e republicanos ocupavam igualmente as extremidades cada um à sua maneira. Com isso, quem era de centro estava sempre em busca de meios de dizer coisas bonitas sobre os republicanos e suas propostas de gestão, ainda que fossem muito ruins.

Assim, em 2005, Bush fazia uma afirmação duvidosa cuja conclusão nada tinha a ver com os fatos: era um non sequitur perfeito. Em primeiro lugar, ele dizia que a Seguridade Social estava em crise; em segundo lugar, que a privatização era a resposta, embora em nada contribuísse para ajudar as finanças do sistema. Como alguém de centro poderia dizer coisas boas sobre tamanha má fé?

Bem, vejam o que disse Joe Klein, da revista Time, no programa "Meet the Press" em 2005:

"Concordo com Paul Krugman que as contas privadas nada têm a ver com solvência, e a questão é precisamente a solvência. Mas discordo do Paul porque creio que a política de contas privadas é terrível e também porque, na era da informação, vamos precisar de estruturas diferentes daquelas com que eram tratadas as prerrogativas na era industrial.

No entanto, é muito difícil fazer esse tipo de mudança nas circunstâncias políticas atuais em que há desavenças enormes entre os partidos. Nos últimos dez ou 15 anos, os democratas trataram o assunto de forma ostensiva e descaradamente demagógica. Não propuseram nada de positivo para a Seguridade Social, Medicare  ou para o Medicaid, por isso chegou a hora de se comprometerem."

O que posso dizer? Klein tem a seu favor o fato de haver reconhecido posteriormente que se equivocara totalmente nesse ponto. Contudo, o que observamos nesse caso foi o instinto de propor alguma coisa — qualquer coisa — que permitisse ao centro fingir que havia uma simetria entre os partidos.

A propósito, sobre os democratas não fazerem coisa alguma em relação ao Medicare (programa de seguro de saúde para pessoas com 65 anos ou mais) e ao Medicaid (programa de saúde para os pobres ou deficientes): é interessante observar as projeções para o orçamento feitas aproximadamente na época em que se debatia a questão da Seguridade Social.

Na ocasião, o escritório do Orçamento do Congresso previu que, por volta do ano fiscal de 2014, o gasto com o Medicare chegaria a US$ 708 bilhões e a US$ 361 bilhões com o Medicaid. Os números reais de 2014 foram US$ 600 bilhões e US$ 301 bilhões, respectivamente, apesar da expansão do Medicaid no governo Obama.

Ao menos parte desse gasto módico inesperado pode ser atribuído a medidas previstas pela Lei de Serviços de Saúde Acessíveis. Pode parecer estranho, mas o que se conseguiu não se deu à custa da destruição ou da privatização desses programas.

Mas, voltemos a 2005: o que Reid percebeu foi que era hora de parar de cortejar "Gente Muito Importante" [VIP] e, em vez disso, fazer uma aliança com os HTS — que poderíamos chamar, conforme convém aos bons modos, de hippies tolos e sujos. Diferentemente dos Vips, eles entendiam realmente tanto de gestão quanto de política. Foi um divisor de águas importante.   



Os bancos escoceses não são realmente tão escoceses assim — já que grande parte dos seus donos e negócios tem sede fora da Escócia e, por isso, são na realidade ingleses

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