São Paulo, 30 de Setembro de 2016

/ Opinião

Joaquim Levy e o "fogo amigo"
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O ministro da Fazenda enfrenta o boicote de parte do governo, em meio a poucas notícias positivas sobre a economia

A expressão “fogo amigo” foi usada pela primeira vez durante a Primeira Guerra Mundial para descrever ataques de uma força militar a seus próprios camaradas de armas.

Na frente ocidental, a guerra travava-se de dentro de trincheiras, com os inimigos muito próximos uns dos outros. A artilharia, postada atrás das linhas de sua própria infantaria, alvejava o inimigo, atirando por sobre seus próprios companheiros.

Como as trincheiras inimigas estavam muito próximas, ocorria às vezes que os obuses caíssem nas trincheiras de seu próprio lado. Daí a expressão.

Há na praça um grande zunzum em torno do que parece ser um crescente fogo amigo contra o ministro Joaquim Levy. Os sintomas estão visíveis a quem acredita que o diabo está nos detalhes.

Exemplo disso é a discussão em torno do valor do ajuste fiscal. Levy pediu um contingenciamento das despesas de R$ 70 bilhões a R$ 80 bilhões.

O Ministério do Planejamento preparou uma listagem de despesas a serem contingenciadas de R$ 69,9 bilhões. Em razão disso, o ministro do Planejamento anunciou que esse corte seria suficiente para produzir um superávit primário de 1,1% do PIB.  Levy havia anunciado inicialmente que o superávit a alcançar seria de 1,2% do PIB.

Como não se sabe qual será o PIB de 2015, não faria a menor diferença se o contingenciado anunciado fosse se 70, em lugar de 69,9. Ao anunciar um corte inferior ao desejado, ainda que meramente simbólico, passou-se uma clara mensagem, ao ministro e ao mercado.

Levy é importante para a estratégia de correção de rumos da senhora presidente, mas não é onipotente.

O fogo amigo não é disparado somente do Planejamento. Em postagem datada de 26 de maio em seu blog, José Dirceu chama de “sincericídio” os comentários de Levy a respeito da inutilidade de criar novos tributos sobre grandes fortunas, heranças, e mudanças na legislação do imposto de renda para tributar mais pesadamente os maiores rendimentos, os lucros e a movimentação financeira.

Algo parecido ocorre dentro do próprio partido do governo. Diariamente a política fiscal do governo é atacada no Congresso e, na votação das primeiras medidas do contingenciamento, alguns deputados do PT votaram contra.

Seja por não poder ou por não querer manter a tropa disciplinada, a senhora presidente acaba por reforçar a opinião de muitos de que o ajuste fiscal é coisa para os dois primeiros anos da administração.

Depois, a partir de 2017, seria desembrulhado um pacote de bondades, já de olho nas eleições em 2018.

Trata-se de um clima totalmente diverso do que se estabeleceu com o anúncio de que Levy comandaria o ministério da Fazenda.

Agora, vai se perdendo aos poucos a confiança adquirida com a posse do ministro, o que somente serve para deteriorar as expectativas dos empresários.

Prova disso é a divulgação dos resultados da última Sondagem da Indústria de transformação da FGV referente ao mês de maio. Segundo a sondagem, a confiança do setor industrial é a menor dos últimos dez anos.

 Consequência e reflexo disso, o documento mostra também que a capacidade ociosa das empresas é a maior para um mês de maio dos últimos seis anos.

Os dados da FGV mostram também que a deterioração das expectativas se refere não somente à avaliação da situação corrente, mas reflete também a retração das expectativas para os próximos meses.

Isso sugere que a retomada da atividade do setor industrial continuará frágil.

Em meio a tudo isso, há boas novas, poucas e nem sempre pela razão que seria desejável. Essas novas ainda não se refletem nas expectativas, tanto de consumidores como de empresários.

A principal delas diz respeito à melhoria significativa na balança comercial nos últimos meses. Essa melhoria decorre do fraco movimento das importações.

Há no mercado expectativas de que o volume físico das importações poderá cair mais de 10% em 2015. Conjugado com a queda generalizada dos preços no mercado internacional – especialmente do petróleo – é possível que o valor das importações caia quase 20% esse ano.

Se assim for, um dos problemas que mais se acentuou nos últimos dois anos, o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, poderá ser amenizado esse ano.

O lado ruim dessa melhoria da balança comercial é sua decorrência, em parte, da recessão interna.

A outra boa nova é a aprovação, pelo Senado, da Medida Provisória 665, que altera as regras de concessão do seguro-desemprego e do abono salarial.

Como queria o ministro Joaquim Levy, alvo do fogo amigo da parte do governo no Executivo. 

 



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