São Paulo, 29 de Setembro de 2016

/ Opinião

Je Suis Charlie - Parte 2
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A liberdade e a tolerância são conquistas recentes de uma humanidade que aprendeu a respeitar "o outro"

A história é curiosa. Ela usa frequentemente a intolerância como forma de puxar nossas orelhas para que sintamos o cheiro de nossos próprios excrementos.

Alguns exemplos. Em 1099 – há pouco mais de um milênio – os bravos combatentes da Primeira Cruzada chegaram a Jerusalém e massacraram de início os judeus e a seguir os muçulmanos. A carnificina para “libertar o túmulo de Cristo” é descrita por Amin Maalouf na “Cruzadas vistas pelos árabes”.

Em 1492, em nome da unificação ibérica sob a identidade cristã, Isabel de Castela expulsou os judeus da Espanha, e os sucessores dela, por meio da inquisição, perseguiram durante três séculos aqueles que eram forçados à clandestinidade para a prática de sua fé.

O exemplo mais recente e evocado foi o do 11 de Setembro de 2001, com 2.996 mortes nos Estados Unidos e, em meio à reação, os banhos de sangue das invasões do Afeganistão e do Iraque.

O 7 de janeiro de 2015 em Paris, com o massacre da redação do Charlie Hebdo, inscreve-se nessa mesma anormalidade. Os terroristas decidiram que não poderiam mais viver os jornalistas acusados de ofender a imagem do Profeta.

A intolerância não é apenas o preconceito exacerbado, em que “eu” decido que “o outro” está errado e não tem o direito de se exprimir. Ela, a intolerância, nos leva à impossibilidade radical de convivência com o confronto de ideias, com a própria concepção plural da sociedade em que as divergências são sempre mais numerosas, e administráveis, que a convergências.

É bastante recente a ideia de que o Estado deva proteger a convivência entre verdades políticas ou religiosas que se contradizem entre si. Tal mecanismo não existia durante as guerras religiosas provocadas pela Reforma, no século 16, após a cisão do cristianismo. Tampouco existia durante o processo de colonização, em que o Europeu era o único portador da verdade teológica, da verdade tecnológica, das formas eficazes de organização social.

A democracia, ampliada pelas revoluções americana e francesa, carregou em seu bojo uma ideia que rapidamente frutificou para a transformação do homem. Se eu sou livre para acreditar ou não no meu Deus, eu também o sou para exprimir meus pensamentos, para me organizar em termos partidários, sindicais ou associativos. E o sou também para empreender e criar minhas próprias riquezas (a “ética protestante” de Max Weber).

A tolerância não existe pela metade. Ela só é concebível em sua expressão por inteiro.

O assassinato dos jornalistas do Charlie Hebdo reacendeu uma luz de alarme. O Ocidente não conseguiu perpetuar seu modelo de pluralidade pelo qual, havendo lugar para todos, é somente inaceitável o papel daquele que nega os modos plurais de convivência.

A tolerância não é um atributo a ser exercido a portas fechadas, no confinamento dos templos. Ela deve e precisa se espraiar, atingir o tamanho do mundo. Não pode permanecer engaiolada, como nos pensamentos de um anônimo poeta alemão do começo do século 19. “Die Gedanken sind frei“ (os pensamentos são livres). Se somos livres apenas em pensamento, a opressão e a intolerância nos surpreende ao sairmos pela porta de nossas casas.

A liberdade e a tolerância sairam feridas com os atentados de Paris. Saímos às ruas para defendê-las. Não queremos ser livres apenas em nossas vidas interiores. É algo pelo qual existe um combate contínuo. Não estamos mais no Je Suis Charlie. Entramos agora na rotina do Je Suis Charlie – Parte 2.



A partir dos anos 90 o Ocidente despejou indevidamente sua agressividade sobre o Islã, onde alguns passaram a combater a todos e a si próprios

comentários

Não é correto atribuir o lado confessional - "muçulmano" - aos atos terroristas contra o Charlie Hebdo e contra civis da Nigéria

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O atentado de Paris demonstrou exemplar organização dos terroristas e não foi um ato isolado. Os muçulmanos na França continuam marginalizados

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