São Paulo, 05 de Dezembro de 2016

/ Opinião

"Grande demais para quebrar": A encruzilhada grega
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Mesmo subtraindo a economia, a Grécia é um protagonista essencial para os ocidentais em questões de defesa e geopolítica

Os americanos criaram uma expressão sedutora para descrever casos extremos da relação entre credores e devedores. Alguns desses últimos são "too big to fail", grandes demais para quebrar, arrastando em sua quebra também o credor.

Tudo indica que o governo grego não será capaz de honrar seu compromisso com o Fundo Monetário Internacional - e com os seus demais credores.

Tecnicamente, a Grécia dará um calote nos credores, criando um precedente grave para outros devedores que enfrentam dificuldades de pagamento semelhantes.

Contudo, ao contrário do que muitos supõem, não creio que estejamos diante do fim do mundo. A Grécia provavelmente ficará inadimplente se não for possível fazer-se um novo empréstimo ponte, jogando o problema para a frente. Mas algumas caraterísticas importantes da Grécia não serão abaladas pelos seus problemas financeiros.

A Grécia permanecerá um membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Como tal, é elemento vital do sistema de defesa do Ocidente no sudoeste da Rússia.

O fato de possivelmente vier a ficar inadimplente com suas obrigações financeiras não a exclui automaticamente da União Europeia. Certamente, se o pior vier a ocorrer, podes deixar temporariamente a zona do euro. E isso é tudo.

Fora da zona do euro, terá enormes problemas de pagamento dentro do país. O agravamento dos problemas econômicos poderá derrubar o atual governo. Mas a sua posição geográfica ficará inalterada, mesmo no pior dos cenários possíveis.

Para bem ou para mal, a Grécia está situada em uma das mais complicadas encruzilhadas do planeta. Ao seu Noroeste estão os Balcãs e a leste está a Turquia, onde profundas mudanças políticas estão ocorrendo. Ao Sul, está o norte da África, cuja Primavera degringolou e deixou uma enorme herança de problemas políticos.

Não interessa aos países europeus e aos Estados Unidos tornar a Grécia parte dos enormes problemas que já precisam administrar na região.

Um desmanche político da Grécia seria a "tempestade perfeita" para Washington e Berlim. As consequências políticas ultrapassariam em muito os problemas criados com uma "simples" inadimplência financeira.

"Estados falidos" politicamente, mesmo de tamanho econômico irrelevante e localizados no fim do mundo, como o Iêmen e a Somália, passam a consumir uma parcela expressiva da escassa atenção disponível de europeus e americanos.

O que dizer de um país aliado próximo da Ucrânia, onde ocorre o grande embate político entre o Ocidente e a República Russa? Se a Grécia deixar de honrar seus compromissos financeiros, o fará por total incapacidade de honrá-los, não por qualquer arroubo populista. Em seu programa de ajuste, a perda de poder aquisitivo da população já ultrapassou o limite do suportável.

Pedir novos sacrifícios é o mesmo, no atual momento, que pedir a derrubada do atual governo - sem qualquer garantia que outro governo que o sucedesse voltasse a pagar em dia seus compromissos com os credores.

É possível que a Grécia venha a aceitar condições mínimas impostas pelos credores. Mas, caso venha a ocorrer essa possibilidade, o FMI e os europeus terão que injetar novos recursos no país.

O que está em jogo é permitir que a Grécia continue respirando, mesmo que a água esteja pelo nariz.

Embora o FMI já tenha percebido isso, trata-se de saber se haverá espaço político para a Alemanha concordar com novos aportes de recursos à Grécia. A ausência de qualquer progresso nas negociações ao longo do mês não autoriza grandes otimismos.

Diante do impasse nas negociações até agora, o melhor que poderá acontecer para todos é ganhar tempo, ainda que ao custo de se obter um parco progresso nas necessárias reformas econômicas gregas.

Um novo socorro é o que se demanda na atual situação. Como já disse alguém, trata-se de uma "ponte para lugar algum".

Um pacote de socorro, ainda que de difícil aprovação, não permitirá que a Grécia possa voltar a se financiar no mercado internacional de capitais.

Sem esse acesso, a Grécia não retomará o crescimento, o elemento essencial para acertar assuas contas fiscais e, mais adiante, satisfazer as demandas dos credores.

Como já apontei, os riscos de uma inadimplência grega provocar um abalo na unidade dos países europeus é remoto, pela simples razão de que não interessa nem aos gregos nem aos demais europeus.

Uma eventual saída da Grécia do sistema europeu sinalizaria a fragilidade de um esforço dedicado ao longo de tantas décadas. Uma eventual saída da zona do euro já seria danosa o suficiente, mas a saída da União Europeia seria simplesmente catastrófico.

Entre outras consequências, poria em risco a Otan, justamente no momento em que esta confronta a Rússia. Poria em risco também as negociações para um mega-acordo comercial entre os Estados Unidos e a Europa para a convergência refilaríeis dos dois lados do Atlântico Norte.

Por fim, mostraria ao mundo a fragilidade dos esforços de integração econômica e política, fortalecendo acordos bilaterais nos mais variados campos, do econômico ao político.

Por tudo isso, é razoável acreditar que se empurrará o problema para a frente, sem qualquer garantia de que esse ganhar tempo resultará, mais adiante, em uma solução duradoura. Talvez seja o melhor que se poderá fazer agora, dada a falta de opções.

 



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