São Paulo, 11 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Fios desencapados
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A lista de políticos investigados por Rodrigo Janot poderia trazer os nomes de Aécio e Dilma

 

Os eleitores não se surpreenderam com a presença dos nomes da presidente Dilma Rousseff e senador Aécio Neves na lista de políticos que se envolveram em escândalos de propinas em estatais, porque conhecem a origem do dinheiro que é gasto pelos candidatos a prefeito nas capitais, governos estaduais e, sobretudo, à presidência da República; mas, por recomendação do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, nenhum dos dois foi incluído nos inquéritos policiais instaurados no STF.

Os nomes dos dois candidatos ao Planalto no ano passado foram citados por delatores em depoimentos prestados ao juiz que preside a Operação Lava-Jato, Sérgio Moro, como possíveis usuários de dinheiro ilegal para pagar o custo milionário de suas campanhas.

Com sua atitude, Janot deixa claro que nem Dilma, nem Aécio tiveram má fé ao ponto de responder a inquéritos policiais por corrupção. Mesmo assim, os dois quase pegaram em fios desencapados.

O nome de Dilma aparece na lista porque o coordenador de sua campanha em 2010, ex-ministro Antonio Palocci, teria usado dinheiro sujo da Petrobrás para custear os gastos com sua candidatura.

Palocci vai responder a inquérito policial. Já, a inclusão do nome de Aécio se deu devido à delação de um dos presos pela Lava Jato de que também teria usado dinheiro ilegal, não proveniente do escândalo da Petrobrás, mas de negócios considerados malcheirosos em hidrelétricas de Mimas, Estado que o senador governou duas vezes.

Em tempo: o dinheiro de campanha não é arrecadado por candidatos, e sim pelos tesoureiros indicados pelos partidos.

Irritado, Aécio acusou o governo do PT de ser responsável pela inclusão do PSDB na lista de partidos envolvidos nos escândalos.

Os petistas ironizam o senador tucano, lembrando que seu antecessor na presidência do PSDB, deputado Sérgio Guerra, “enfiou no bolso” uma propina de R$ 10 milhões, para evitar a criação de uma CPI da Petrobrás no Congresso, já naquela época.

O deputado Guerra não responde a inquérito porque já morreu. Além dele, outro tucano que consta da lista é o senador Antonio Anastásia, ex-governador de Minas, acusado de embolsar uma propina de R$ 1 milhão.

Anastásia, porém, nega envolvimento no recebimento de dinheiro ilegal para sua Campanha. Só se surpreenderia, no entanto, com a inclusão de alguns nomes na lista quem não está atento à tradição que acompanha as campanhas eleitorais no Brasil, principalmente as de chefe de executivo.

De onde, por exemplo, Dilma e Aécio sacaram, cada um, cerca de R$ 300 milhões para custear suas campanhas no ano passado?  O maior volume de doações para os dois candidatos veio das mesmas fontes, como a dos empreiteiros.

Dilma e Aécio, porém, não são os únicos que abasteceram suas campanhas com dinheiro, inclusive do caixa-2 das empresas, e nem foram os primeiros e muito menos serão os últimos a manter a tradição nas campanhas para o Poder Executivo.

Todos os candidatos dos partidos que mais elegem os chefes de executivo se socorrem das mesmas fontes de doações. Os empreiteiros têm interesse em “colaborar” com os principais candidatos, aqueles que estão na ponta das pesquisas para ganhar a eleição, à espera de que no futuro consigam “amarrar” com os eleitos contratos milionários para a execução de obras.

É nessa fase da administração de prefeitos, governadores e presidente da República, devidamente empossados nos cargos, que os doadores têm a garantia de que terão de volta o montante das doações feitas, acrescidas de juros e correção monetária, que ajudam a pagar a tradicional propina.

 



Para Rodrigo Janot, procurador geral da República, o que havia de melhor no projeto original foi excluído e medidas retaliatórias foram incluídas. Procuradores da força tarefa da Lava Jato ameaçam renunciar coletivamente se a lei for aprovada

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O inquérito policial concluiu que os dois receberam R$ 1 milhão de propina de contratos firmados entre empreiteiras e a Petrobras

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O procurador-geral da República, Rodrigo Janot (foto), disse que houve desvio de finalidade na nomeação para “tumultuar” das investigações da Operação Lava Jato

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