São Paulo, 27 de Setembro de 2016

/ Opinião

Façam as suas apostas!
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A situação está confusa em termos econômicos e políticos. Mas existem alternativas que permitiriam superar a crise

O Brasil enfrenta uma situação econômica realmente difícil. Uma conjugação simultânea de baixo crescimento, inflação alta, crise fiscal, déficit na balança comercial e aumento do endividamento interno.

Como se fosse pouco, tudo isto é agravado por uma crise política de graves proporções, a assombrosa derrocada da Petrobras e uma possibilidade concreta de apagão energético. É para deixar a trabalhadores, investidores, empresários e analistas assustados mesmo...
 
Apesar de tudo, é forçoso considerar que o Brasil é um imenso mercado consumidor e que ainda mantém algumas vantagens sobre outros países emergentes: democracia consolidada, instituições mais sólidas, mercado com alta capacidade de absorver inovações e, não menos importante, a sábia tradição portuguesa de resolver conflitos pela negociação.

Não é pouca coisa. Este pode ser o contrapeso para se evitar uma tragédia de maiores proporções. Obviamente, se o Congresso Nacional estiver à altura da compreensão da extrema gravidade do momento para o país.
 
Ao colapso e à desesperança, portanto, há a alternativa de ir em frente, pois à toda crise corresponde uma oportunidade. O governo e o Congresso, todavia, tem que tentar alterar a maldição histórica que temos de mais perder do que aproveitar as oportunidades.

Tarefa gigantesca, face à questão fundamental de como sobreviver e reverter os sobressaltos que assolam a economia brasileira. Os ventos favoráveis que impulsionaram as exportações de commodities a bom preço, e o fôlego dado à indústria nacional – pela ênfase no consumo, ampliação de crédito e desonerações fiscais – foram bons enquanto duraram.

O problema agora é que ao invés de crescermos 4%, em média, como entre 2002 e 2008, tivemos um crescimento médio de apenas 1,3%, entre 2009 e 2014. Espera-se uma contração do PIB de quase 0,6% em 2015.

As coisas se complicam para a indústria e o comércio, na medida em que, a inflação ultrapassa os 7% e o poder de compra dos assalariados já declina significativamente. A volta da inflação – após duas décadas de relativa estabilidade – torna-se, cada vez mais, um desafio para os formuladores da política econômica.

Reajustes dos preços represados de importantes insumos, como energia elétrica e combustíveis, representam um adicional de pressão inflacionária, que poderá ter consequências devastadoras sobre a já frágil capacidade produtiva. Isso sem falar na acelerada desvalorização do real, que elevará o custo de importações necessárias à produção e alimentará, mais ainda, a inflação.

Para completar esse quadro em que se delineia a já tão batida imagem da “tempestade perfeita”, cabe acrescentar que o absoluto descaso com políticas sérias de educação básica e aprimoramento profissional constitui-se em fator adicional de empobrecimento.

A redução da renda disponível acentua-se com os baixos níveis de produtividade do trabalho. Não se pode esquecer que tivemos uma década de reajustes reais do salário mínimo acima das taxas de crescimento do PIB. Com a indexação ao PIB e aumento da inflação, em tempo de recessão os maiores prejudicados serão os assalariados.

Frente a essa miríade de problemas, como conduzir uma política econômica que recoloque o país no caminho do crescimento e da estabilidade? Como convencer a sociedade e seus representantes no Congresso que a festança acabou? Como substituir abruptamente a forte expansão consumo e do crédito pelo aumento da poupança e do investimento? E como conter o endividamento das famílias e o avanço do peso dos juros da Dívida Pública? Sobretudo, como operar com taxas de juros que sufocam a produção e o investimento?

Ressalte-se que a baixa proporção do Investimento em relação ao PIB vai ficar ainda mais baixa com os desdobramentos do colapso da Petrobrás, que é o maior investidor do país. Rebaixada para a segunda divisão, já na categoria de risco, a empresa pode disseminar para a economia como um todo a sua perda de credibilidade perante investidores internacionais.

Com relação aos juros, uma alternativa seria a de baixar os juros extorsivos, apesar do aumento da inflação. Tratar-se-ia de uma postura de risco, mas amparada na convicção de que a causa de aumentos de preços não é uma economia aquecida, mas sim a perda de valor do real, a carga tributária irracional e os custos dos insumos basicos.

Em princípio, este caminho implicaria em ignorar a inflação. Mas o risco concreto desta opção é aprofundar a queda do real, acelerar o custo dos bens importados e agravar a dívida externa que empresas e os três níveis de governo acumularam em função da oferta de dinheiro a juros mais baixos.

Apesar de tão desejada, governo e setor produtivo suportariam esta alternativa?

Enfim, com tantos problemas e tantas dúvidas, o governo terá condições protagonizar as mudanças essenciais para recolocar a economia nos trilhos e retomar os fundamentos macroeconômicos? Conseguirá se libertar da camisa de força ideológica e adotar o pragmatismo necessário para enfrentar a tempestade com serenidade e competência? Façam as suas apostas senhores!

 



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