São Paulo, 04 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Explicando a derrapagem
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As gerações nascidas nos anos 90 têm uma ideia bastante tênue sobre o período 1964-1985 e sobre a importância de noções como a produtividade

 

Os brasileiros nascidos por volta dos anos 80 do século passado só conhecem praticamente uma imagem do Brasil. As crises marcadas por planos econômicos - impedimento de um presidente e quase impedimento de outro, acontecidas num panorama de desigualdade, violência e deseducação -, roubaram da geração que está a caminho de comandar o País a esperança de vê-lo próspero, desenvolvido e seguro.

A deterioração da qualidade de vida nas grandes cidades brasileiras durante as últimas décadas pode estar chegando a um ponto crítico. Sem renda, infraestrutura e lei, os inchaços urbanos que proliferam pelo Brasil afora criaram um quadro de insolvência social que coloca um desafio colossal às futuras gerações. O pior é que estamos chegando a uma situação na qual já falta o insumo essencial ao enfrentamento desse desafio: a esperança.

Há distintas narrativas possíveis de um período histórico. Umas privilegiam os acontecimentos políticos, outras os econômicos, umas tantas o social e assim por diante. A leitura predominante do passado recente brasileiro está baseada quase que exclusivamente na política e ideologia. Resume-se essa leitura no corte ante e pôs regime militar, como se o acontecimento decisivo do passado recente fosse o ciclo de presidentes generais entre 1964 e 1985.

Também a desesperança que predomina no atual cenário não poderia advir do arejamento político acontecido com a instalação desta república ao fim do regime militar. O acontecimento que nos levou a este estado deplorável é outro, do qual não nos recuperamos até hoje.

Boa parte dos brasileiros que nasceram nos anos 50 viveram praticamente a metade de suas vidas acreditando que veriam um Brasil próspero, desenvolvido e seguro. Essa esperança nasceu da determinação da geração anterior em mudar o Brasil e que viveu, em 1952, a criação do BNDE e, em 1956, o Plano de Metas, a instalação da indústria automobilística e o início da construção de Brasília, inaugurada quatro anos depois. Mais do que um slogan, como país do futuro, o Brasil era um país com futuro.

O ciclo de reformismo autoritário que se inaugurou em 1964 fez materializar o que o Brasil ansiava ser desde o final da Segunda Guerra Mundial, até mesmo fazer da Brasília construída, mas deserta, a efetiva capital do País. Sobre ele se dividem até hoje as opiniões dos que o viveram, sobre ele ainda há boas discussões a respeito do quando e como deveria ter findado, mas os fatos não deixam qualquer dúvida de que foi o período no qual os brasileiros mais produziram, e prosperaram.

E quanto ao nível de bem estar dos países, não há alternativa: ele está diretamente ligado ao que produzem os seus cidadãos. O foco da discussão a respeito da grande ruptura ocorrida no passado recente do Brasil não deveria estar em 1964, mas em 1980, quando nossa indústria começou a diminuir sua participação no PIB, hoje em cerca de 17%, um fator determinante na queda da produtividade brasileira, a qual influi diretamente no PIB per capita do país, um dos que menos cresceu no mundo desde 1980, numa média anual de 1,5%, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

E o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), adotado pela ONU desde 1990 para medir o grau de desenvolvimento humano dos países, leva em conta, além da expectativa de vida e educação, o PIB per capita. Está fechado o círculo.

Num Brasil hoje governado por uma máquina administrativa encabeçada por 39 ministérios e aparelhada por dezenas de milhares de afiliados políticos; onde beneficiados por programas assistenciais do governo são considerados empregados; onde o sonho de milhões de pessoas é obter um emprego público, independentemente de sua formação e vocação; e principalmente, onde nenhum político, autoridade ou liderança setorial tem a coragem de denunciar a atarraxia que tomou conta do País, a palavra produtividade perdeu todo o sentido. 

Aliás, pode-se dizer que ela praticamente desapareceu do noticiário, surgindo aqui e ali só esporadicamente, num trabalho acadêmico, ou pior, em mais um desvario de mentiras governamentais.

Ao contrário do que muitos pensam, produtividade não é uma abstração de economistas, nem uma questão de metas de patrões e tampouco o pesadelo de sindicalistas. Dentre outros fatores, produtividade em um país envolve investimentos, educação e capital, humano e financeiro, e diz respeito aos impostos pagos, aos serviços públicos e privados oferecidos e até mesmo ao grau de realização individual de milhões de pessoas. Em suma, diz respeito à qualidade de vida de uma sociedade. E mais, diz tudo da diferença entre trabalho e emprego.

Para a retomada da discussão sobre o desenvolvimento do País, sabendo-se que o PIB per capita, por si só, não explica o nível de bem-estar  em determinado país, uma vez que grandes desigualdades na distribuição dessa renda geram tensões e desequilíbrios, é preciso ter em conta também a participação dos distintos setores da economia no produto nacional bruto, ou seja na soma de todos os bens e serviços produzidos no país e seus reflexos na composição da riqueza nacional e da representação política.

Uma economia baseada em num sistema produtivo primário (agricultura, pecuária e extrativismo) gera, por escala, expressiva renda nacional e sustenta as contas públicas. Ela é capaz de trazer benefícios às regiões produtoras, com melhorias no transporte, energia e serviços, bem como produzir alimentos em abundância, no caso da agropecuária.

Mas a riqueza que ela produz beneficiará principalmente os detentores dos meios de produção e das prerrogativas fiscais, proprietário e governo, remunerando apenas modestamente o trabalho no setor. 

Do ponto de vista político, o poder que o governo aufere de uma economia baseada no setor primário é imenso, na medida em que extrai dos proprietários o apoio de que necessita e da população pobre manipulada pelo assistencialismo os votos com que mascara sua representatividade.

Não é à toa que um contingente considerável de eleitores brasileiros não se sente representado politicamente, imprensado, de um lado, por um segmento pobre da população arregimentado pelas benesses governamentais, e de outro, por interesses estratosféricos que misturam o público e o privado.

Já uma economia baseada na produção de bens com elevada concentração de conhecimento requer trabalhadores altamente qualificados que, num sistema capitalista que reconhece custo e valor, recebem a remuneração equivalente à sua importância e participação no processo produtivo.

Embora o governo possa exercer sobre esse setor as mesmas pressões e obter vantagens idênticas às que extrai do setor primário, ele não pode manipular tão facilmente as pessoas melhor educadas, informadas e remuneradas que constituem o contingente de trabalhadores desse setor. São as economias das sociedades de alto desempenho, características dos países mais desenvolvidos.

O diferencial entre esses dois tipos de economia é o conhecimento, de cuja corrida o Brasil foi expelido, perdendo a Terceira Revolução Industrial, a Tecnológica, que tornou inviável a estratégia da substituição de importações e impôs custos exponencialmente maiores aos bens e insumos dos quais necessitávamos para o nosso desenvolvimento.

Este foi o acontecimento decisivo que formatou a conjuntura de estagnação do desenvolvimento brasileiro que já dura mais de três décadas.  

Depois da crise dos anos 80, o combate à inflação e à desigualdade consumiram todas as energias e atenções no País, como se fosse possível corrigir os efeitos sem atacar as causas. Para sair da situação de crise que vive há mais de trinta anos, o Brasil não precisa voltar no tempo para cometer os mesmos erros ou assumir outros já cometidos por tantos. Se por alguma razão misteriosa essa discussão não está nos livros e discursos brasileiros, é imperativo coloca-la aos mais jovens.

É olhar o mundo, reconhecer a derrapagem que nos colocou à margem da pista e sair em perseguição aos que continuaram a corrida. Mas para isso é preciso parar de desconhecer o conhecimento.

 



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