São Paulo, 26 de Julho de 2017

/ Opinião

Explicando a derrapagem
Imprimir

As gerações nascidas nos anos 90 têm uma ideia bastante tênue sobre o período 1964-1985 e sobre a importância de noções como a produtividade

 

Os brasileiros nascidos por volta dos anos 80 do século passado só conhecem praticamente uma imagem do Brasil. As crises marcadas por planos econômicos - impedimento de um presidente e quase impedimento de outro, acontecidas num panorama de desigualdade, violência e deseducação -, roubaram da geração que está a caminho de comandar o País a esperança de vê-lo próspero, desenvolvido e seguro.

A deterioração da qualidade de vida nas grandes cidades brasileiras durante as últimas décadas pode estar chegando a um ponto crítico. Sem renda, infraestrutura e lei, os inchaços urbanos que proliferam pelo Brasil afora criaram um quadro de insolvência social que coloca um desafio colossal às futuras gerações. O pior é que estamos chegando a uma situação na qual já falta o insumo essencial ao enfrentamento desse desafio: a esperança.

Há distintas narrativas possíveis de um período histórico. Umas privilegiam os acontecimentos políticos, outras os econômicos, umas tantas o social e assim por diante. A leitura predominante do passado recente brasileiro está baseada quase que exclusivamente na política e ideologia. Resume-se essa leitura no corte ante e pôs regime militar, como se o acontecimento decisivo do passado recente fosse o ciclo de presidentes generais entre 1964 e 1985.

Também a desesperança que predomina no atual cenário não poderia advir do arejamento político acontecido com a instalação desta república ao fim do regime militar. O acontecimento que nos levou a este estado deplorável é outro, do qual não nos recuperamos até hoje.

Boa parte dos brasileiros que nasceram nos anos 50 viveram praticamente a metade de suas vidas acreditando que veriam um Brasil próspero, desenvolvido e seguro. Essa esperança nasceu da determinação da geração anterior em mudar o Brasil e que viveu, em 1952, a criação do BNDE e, em 1956, o Plano de Metas, a instalação da indústria automobilística e o início da construção de Brasília, inaugurada quatro anos depois. Mais do que um slogan, como país do futuro, o Brasil era um país com futuro.

O ciclo de reformismo autoritário que se inaugurou em 1964 fez materializar o que o Brasil ansiava ser desde o final da Segunda Guerra Mundial, até mesmo fazer da Brasília construída, mas deserta, a efetiva capital do País. Sobre ele se dividem até hoje as opiniões dos que o viveram, sobre ele ainda há boas discussões a respeito do quando e como deveria ter findado, mas os fatos não deixam qualquer dúvida de que foi o período no qual os brasileiros mais produziram, e prosperaram.

E quanto ao nível de bem estar dos países, não há alternativa: ele está diretamente ligado ao que produzem os seus cidadãos. O foco da discussão a respeito da grande ruptura ocorrida no passado recente do Brasil não deveria estar em 1964, mas em 1980, quando nossa indústria começou a diminuir sua participação no PIB, hoje em cerca de 17%, um fator determinante na queda da produtividade brasileira, a qual influi diretamente no PIB per capita do país, um dos que menos cresceu no mundo desde 1980, numa média anual de 1,5%, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

E o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), adotado pela ONU desde 1990 para medir o grau de desenvolvimento humano dos países, leva em conta, além da expectativa de vida e educação, o PIB per capita. Está fechado o círculo.

Num Brasil hoje governado por uma máquina administrativa encabeçada por 39 ministérios e aparelhada por dezenas de milhares de afiliados políticos; onde beneficiados por programas assistenciais do governo são considerados empregados; onde o sonho de milhões de pessoas é obter um emprego público, independentemente de sua formação e vocação; e principalmente, onde nenhum político, autoridade ou liderança setorial tem a coragem de denunciar a atarraxia que tomou conta do País, a palavra produtividade perdeu todo o sentido. 

Aliás, pode-se dizer que ela praticamente desapareceu do noticiário, surgindo aqui e ali só esporadicamente, num trabalho acadêmico, ou pior, em mais um desvario de mentiras governamentais.

Ao contrário do que muitos pensam, produtividade não é uma abstração de economistas, nem uma questão de metas de patrões e tampouco o pesadelo de sindicalistas. Dentre outros fatores, produtividade em um país envolve investimentos, educação e capital, humano e financeiro, e diz respeito aos impostos pagos, aos serviços públicos e privados oferecidos e até mesmo ao grau de realização individual de milhões de pessoas. Em suma, diz respeito à qualidade de vida de uma sociedade. E mais, diz tudo da diferença entre trabalho e emprego.

Para a retomada da discussão sobre o desenvolvimento do País, sabendo-se que o PIB per capita, por si só, não explica o nível de bem-estar  em determinado país, uma vez que grandes desigualdades na distribuição dessa renda geram tensões e desequilíbrios, é preciso ter em conta também a participação dos distintos setores da economia no produto nacional bruto, ou seja na soma de todos os bens e serviços produzidos no país e seus reflexos na composição da riqueza nacional e da representação política.

Uma economia baseada em num sistema produtivo primário (agricultura, pecuária e extrativismo) gera, por escala, expressiva renda nacional e sustenta as contas públicas. Ela é capaz de trazer benefícios às regiões produtoras, com melhorias no transporte, energia e serviços, bem como produzir alimentos em abundância, no caso da agropecuária.

Mas a riqueza que ela produz beneficiará principalmente os detentores dos meios de produção e das prerrogativas fiscais, proprietário e governo, remunerando apenas modestamente o trabalho no setor. 

Do ponto de vista político, o poder que o governo aufere de uma economia baseada no setor primário é imenso, na medida em que extrai dos proprietários o apoio de que necessita e da população pobre manipulada pelo assistencialismo os votos com que mascara sua representatividade.

Não é à toa que um contingente considerável de eleitores brasileiros não se sente representado politicamente, imprensado, de um lado, por um segmento pobre da população arregimentado pelas benesses governamentais, e de outro, por interesses estratosféricos que misturam o público e o privado.

Já uma economia baseada na produção de bens com elevada concentração de conhecimento requer trabalhadores altamente qualificados que, num sistema capitalista que reconhece custo e valor, recebem a remuneração equivalente à sua importância e participação no processo produtivo.

Embora o governo possa exercer sobre esse setor as mesmas pressões e obter vantagens idênticas às que extrai do setor primário, ele não pode manipular tão facilmente as pessoas melhor educadas, informadas e remuneradas que constituem o contingente de trabalhadores desse setor. São as economias das sociedades de alto desempenho, características dos países mais desenvolvidos.

O diferencial entre esses dois tipos de economia é o conhecimento, de cuja corrida o Brasil foi expelido, perdendo a Terceira Revolução Industrial, a Tecnológica, que tornou inviável a estratégia da substituição de importações e impôs custos exponencialmente maiores aos bens e insumos dos quais necessitávamos para o nosso desenvolvimento.

Este foi o acontecimento decisivo que formatou a conjuntura de estagnação do desenvolvimento brasileiro que já dura mais de três décadas.  

Depois da crise dos anos 80, o combate à inflação e à desigualdade consumiram todas as energias e atenções no País, como se fosse possível corrigir os efeitos sem atacar as causas. Para sair da situação de crise que vive há mais de trinta anos, o Brasil não precisa voltar no tempo para cometer os mesmos erros ou assumir outros já cometidos por tantos. Se por alguma razão misteriosa essa discussão não está nos livros e discursos brasileiros, é imperativo coloca-la aos mais jovens.

É olhar o mundo, reconhecer a derrapagem que nos colocou à margem da pista e sair em perseguição aos que continuaram a corrida. Mas para isso é preciso parar de desconhecer o conhecimento.

 



Ferramentas tecnológicas gratuitas, que podem ser acessadas na palma da mão, ajudam a planejar as tarefas da empresa e manter a rotina organizada

comentários

O cálculo é do Ministério do Planejamento, que faz uma avaliação positiva do impacto da mudança na correção de uma queda que se acentua desde os anos 80

comentários

Para Kelly Carvalho, economista da FecomercioSP, alta rotatividade, baixa remuneração e pouca capacitação de funcionários e gestores criam gargalos de crescimento e reduz a produtividade do segmento

comentários