São Paulo, 24 de Setembro de 2016

/ Opinião

Empresas endividadas em dólar
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Desta vez não foi diferente. As crises asiática e argentina também estiveram associadas à dívida do setor privado

Neil Irwin, correspondente econômico do New York Times, escreveu recentemente sobre o receio de que a valorização do dólar possa prejudicar os países em desenvolvimento nos quais as empresas tenham contraído empréstimos na moeda americana. Conforme diz ele, isso traz à memória a crise asiática de fins dos anos 90 e a crise argentina de 2002.

Contudo, Irwin parece ter se equivocado ligeiramente em um ponto: "A principal diferença desta vez", escreveu ele em seu artigo de 16 de março (aqui: nyti.ms/1CMu2Mq), "é que as empresas privadas, e não os governos, contraíram dívidas em uma moeda que não era a sua"

Na verdade, desta vez não foi diferente. As crises asiática e argentina também estiveram associadas à dívida do setor privado. A dívida pública da Ásia, em especial, era bem baixa quando irrompeu a crise. Vários economistas, inclusive eu, criamos de forma independente modelos de alavancagem, incompatibilidade de moedas e efeitos sobre o balanço patrimonial com o objetivo de compreender a crise asiática.

Isso é importante, creio eu, por algumas razões. De um lado, quem atentou para o que aconteceu à Ásia em 1997-1998 ficou vacinado contra a tentação de atribuir a causas fiscais as narrativas da crise — isto é, de ver tudo que sai errado como decorrência de déficits orçamentários.

(Este é um dos motivos que me levaram a contestar o artigo de Irwin; já houve uma tentativa bastante contundente de fazer o mesmo retroativamente com a crise do euro, por isso temos de resistir às tentativas de interpretar da mesma forma a crise asiática).

Por outro lado, ouço às vezes as pessoas dizerem que até a crise de 2008 os economistas não haviam dado atenção alguma à dívida privada como fonte de problemas econômicos.

No entanto, quem trabalhava na Ásia em 1998 estava bastante ciente dos problemas que a dívida e a alavancagem poderiam criar. Se não nos demos conta de como o aumento da dívida das famílias tornou os EUA vulnerável, isso se deveu a uma falha de observação, e não a um problema profundamente conceitual.

Conforme já tentei explicar em inúmeras ocasiões, a crise de 2008 nos pegou de surpresa, mas não foi, pelo menos no meu caso, nenhum choque — percebi quase de imediato que aquilo que estava acontecendo se encaixava muito bem nas estruturas existentes.

Sabíamos das corridas aos bancos, e no momento em que você percebe que algo bastante parecido com uma corrida ao banco podia acontecer em algumas formas de sistema bancário paralelo, foram necessários 30 segundos apenas para entender o pânico que se seguiu à derrocada do Lehman Brothers.

Sabíamos também dos efeitos sobre os balanços patrimoniais, e não foi nem um pouco difícil transferir esse conhecimento para o que se viu depois da bolha imobiliária.

Em outras palavras, escrevi em 1999 um livro intitulado "A crise de 2008 e a economia da depressão". Não foi muito difícil inferir que ela estava a caminho.



As ações de grupos que se empenham em contestar a legitimidade do presidente prejudicam a governabilidade e em nada contribuem para que o país possa superar suas imensas dificuldades

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Milhares de passageiros passam por dia em nossos aeroportos e sofrem com a falta de um serviço essencial, prestado por trabalhadores, é sempre bom repetir, credenciados para este fim.

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Ainda que estas ações aconteçam na escola e entre crianças e jovens, a lei deve ser cumprida e os responsáveis, punidos

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