São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Chegaram as pulseiras inteligentes
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Os produtos de vestir serão úteis sobretudo porque permitem que as coisas nos monitorem

Assim como muita gente, eu também estou atento a todo esse frisson em torno do Apple Watch e tenho feito minhas especulações. Não é preciso dizer que não tenho nenhum conhecimento especializado nessa área. Mas, que coisa, e só por isso não posso dizer o que penso?

UM WEARBLE É CAPAZ DE REUNIR MAIS INFORMAÇÕES E CONSEGUE SER PARTE DO SEU VESTUÁRIO. FOTO: JIM WILSON/THE NEW YORK TIMES

Muito bem, aqui está minha versão patética de um insight genial: esses produtos de vestir ou wearables, como o Apple Watch, atendem, na verdade, a uma função diferente da que atendiam os aparelhos móveis anteriores. O smartphone é útil principalmente porque permite que monitoremos o que se passa; os produtos de vestir serão úteis sobretudo porque permitem que as coisas nos monitorem.

 

Conforme escrevi anteriormente, sou adepto do Fitbit, não porque tenha necessidade de uma métrica precisa para monitorar meu programa de condicionamento físico — acho até que continuo na mesma —, mas exatamente porque a coisa me espiona o tempo todo e não permite que eu me engane em relação aos meus esforços. Para ter um benefício desses, não tenho de saber interpretar as informações que a pulseira me dá — a versão básica do Fitbit consiste em uma pulseira lisa com transmissão via Bluetooth. Basta que eu cheque meu desempenho uma ou duas vezes ao dia.   

Bem, nesse caso as informações têm apenas um destinatário: eu mesmo (embora, ao que tudo indica, a Agência de Segurança Nacional também está me monitorando). Mas não é difícil imaginar como deve ser útil uma pulseira que transmite informações a outras pessoas — é fácil imaginar porque isso já acontece na Disney World, onde o wearable "MagicBand" monitora o visitante e informa a quem cuida dos brinquedos que você comprou ingresso e avisa os restaurantes que você chegou.

Sei que seu telefone também faz coisas parecidas, mas um wearable é capaz de reunir mais informações e consegue ser, ao mesmo tempo, parte do seu vestuário.

Mas será que as pessoas estão dispostas a ter no mundo real a experiência que tiveram na Disney? É quase certo que sim.

Veja o caso, por exemplo, da chamada "Regra de Varian", segundo a qual pode-se prever o futuro com base naquilo que os ricos têm hoje — isto é, o que os ricos desejarão no futuro é, em geral, parecido com o que somente os ricos podem ter no presente.

Se você passar algum tempo perto de uma pessoa rica, verá que os ricos nunca pegam fila para nada— e tenho de admitir que eu, que de modo geral nunca me preocupo com dinheiro, às vezes tenho invejo deles por isso. Há sempre um serviçal para garantir que haja um carro esperando por eles junto ao meio fio, e o maître os conduz diretamente à sua mesa.

É mais do que óbvio que as pulseiras inteligentes poderão replicar parte dessa experiência dos simplesmente ricos. Seu aplicativo de reservas informa ao restaurante os dados de que ele precisa para reconhecer sua pulseira, e talvez sua mesa apareça na tela do seu relógio, evitando assim que você perca tempo na entrada — você entra e se senta e é isso (o que já acontece na Disney World). Ou então você entra direto em uma sala de show ou de cinema com o ingresso adquirido previamente, e não há necessidade nem mesmo de escanear seu telefone.

Tenho certeza de que não é só isso — mas também todo tipo de serviço associado a um contexto específico, que dispensa você de pedir alguma coisa, porque os sistemas que o monitoram sabem o que você quer e do que vai precisar. Não é de dar medo? Mesmo que existam protocolos que imponham limites, revelando apenas o que e para quem do seu pedido, provavelmente seu perfil público se espalhará, e seu espaço de privacidade diminuirá.

Há dois pontos importantes nisso tudo. Em primeiro lugar, a maior parte das pessoas não tem tanta privacidade assim com que se preocupar: a imensa maioria de nós não tem vida dupla e nem grandes segredos — em geral, temos pequenos vícios, e a verdade é que ninguém se importa com isso. Em segundo lugar, a falta de privacidade, na verdade, faz parte da experiência de ser rico — o motorista, as empregadas e os porteiros sabem de tudo, mas são pagos para não contar, e o mesmo vale para a versão da classe média alta. Os ricos já vivem numa espécie de estado de vigilância privatizado. Agora, a oportunidade de viver num aquário dourado está sendo (de certa forma) democratizada.

Era isso o que eu queria dizer. Acho que os wearables estarão em breve em quase tudo, o que não significa que as pessoas olharão para o pulso e aprenderão alguma coisa. Pelo contrário, eles estarão lá para que a rede ubíqua de vigilância possa ver as pessoas e enchê-las de coisas. 



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