São Paulo, 30 de Setembro de 2016

/ Opinião

Cai o pano
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O desemprego é apenas um dos sintomas de um conjunto de equívocos que o governo cometeu na política econômica

Desmanchou-se formal e definitivamente em fevereiro a fantasia de que o “novo modelo econômico”, concebido na administração anterior da senhora presidente, produziria resultados positivos na economia. Em fevereiro, foram fechadas 2.415 vagas formais de trabalho, o pior resultado para um mês de fevereiro desde a grande contração econômica mundial de 2009.

A manutenção e o crescimento do emprego vinham sendo apontados como a melhor faceta da política econômica heterodoxa praticada desde o segundo mandato do presidente Lula e aprofundado no primeiro da presidente Dilma.

Ainda recentemente, em pronunciamento pedindo apoio para as medidas econômicas ortodoxas que pretende agora pôr em prática, a senhora presidente afirmou que aquela política foi boa para a conjuntura de então; mas que a nova conjuntura de agora exigia que os instrumentos da política econômica tivessem sua direção revertida.

Dessa forma, a expansão fiscal agora dá lugar a um aperto fiscal, com o contingenciamento de gastos no período anterior à aprovação do orçamento da União para 2015. Aprovado o orçamento, a hora é de cortes no que foi aprovado.

Durante quatro, anos disseram-nos que a política de então assegurava o emprego do trabalhador. É duvidoso dizer que foi a política expansionista de gastos que tenha mantido o emprego por tanto tempo. É duvidoso também atribuir à suspensão das contribuições previdenciárias pelas empresas o que se apregoava como sucesso.

O fato é que desarticulou-se inteiramente a economia em nome da manutenção de um emprego que revelou-se sem sustentabilidade.
Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, traçam um retrato dramático do que está acontecendo no mercado de trabalho brasileiro.

Em janeiro e fevereiro foram encerradas 80.732 vagas de trabalho; em igual período de 2014 o saldo líquido das contratações havia ficado em 302.190 vagas abertas. Para evitar ficarmos olhando somente resultados de dois meses, no acumulado dos últimos 12 meses o saldo entre contratações e demissões está negativo em 47.228 postos de trabalho.

Portanto, não se trata de fenômeno esporádico ou acidental. Trata-se de uma tendência indicativa de que o pior pode ainda estar por vir.

A fantasia de que uma política econômica errada poderia produzir resultados corretos e sustentáveis desmanchou-se no ar.

Por que canais de transmissão o equívoco da política econômica zerou o crescimento, acelerou a inflação, desorganizou as finanças públicas e produziu, pela primeira vez em anos, um déficit em nossa balança comercial?

O aumento da incerteza desempenhou um papel importante na geração de todos esses maus resultados. Essa incerteza, do ponto de vista empresarial, freou o ímpeto em investir, não somente reduzindo a demanda por bens de capitais, como freando as contratações.

Houve uma esperança, no terceiro trimestre do ano passado, de que o resultado da eleição pudesse ser diferente e mudado o modelo econômico. Como isso não ocorreu, as empresas aguardaram tão somente a passagem do Natal e o Ano Novo para efetuar demissões.

As demissões, portanto, resultam diretamente da impossibilidade de ver-se uma recuperação da economia, pelo menos esse ano e talvez no próximo. Demitir custa dinheiro, e as empresas resistiram o quanto puderam para evitar fazê-lo.

Do lado dos consumidores, aumentou também a incerteza com relação ao futuro. Incentivados pelo crédito abundante e relativamente barato, as pessoas e as famílias se endividaram além da conta, contando com as promessas do governo de que a economia manteria o crescimento e o emprego.

A primeira baixa foi a do crescimento, e com ela seguiu-se, nos últimos doze meses, o esfriamento do mercado de trabalho.

Quem continuava empregado via os parentes, amigos e vizinhos contando histórias de perda de emprego. O engodo da inflação sob controle passou a ser sentido no bolso à medida que aumentavam os preços da feira e no supermercado.

A fantasia dos preços administrados não poderia mais durar, e agora o consumidor assustado constata que foi enganado quando examina a sua conta de luz.

E o membro da “nova classe média” que havia comprado um carro popular quando o IPI foi reduzido e o prazo de financiamento, aumentado, constata agora que não terá dinheiro para encher o tanque do tão sonhado carro.

O sonho do passeio de automóvel com a família no fim de semana será agora mais esporádico do que se antecipava.

Tudo isso é consequência dos equívocos de política econômica cometidos nos últimos oito anos. O emprego foi somente a última vítima desses erros a se revelar nos números oficiais.
 



No trimestre encerrado em agosto, a taxa subiu para 11,8% ante 11,2% no trimestre anterior, que já era a maior da série histórica do IBGE

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