São Paulo, 08 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Ainda sobre o PSDB. Ou: As máscaras caem
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O PT tem no PSDB um aliado dentro do projeto gramsciano de se manter no poder

 

Na última segunda-feira, comentei (leia aqui) o papel deletério desempenhado pelos tucanos na cena política brasileira.

Basicamente, a função do PSDB no esquema de poder petista é ocupar o espaço de uma real oposição. Esse é o resultado acabado de décadas de “ocupação gramsciana” de espaços, também chamada de “estratégia das tesouras” ou “centralismo democrático” por Lênin.

Os leitores querem mais elementos da união ideológica do PSDB e PT? Eu dou.

Os dois partidos são frutos da mesma geração de intelectuais esquerdistas e gramscianos da USP da década de 1960.

FHC, que até hoje comanda o partido, sempre foi marxista e gramsciano. Não à toa, atribuíam a ele o apelido de “príncipe da sociologia”. O “príncipe” aqui é o primeiro homem do Estado tal como descrito por Maquiavel, o pensador florentino inspirador de Antônio Gramsci, o ideólogo comunista que “criou” a esquerda brasileira moderna.

Ainda em seus tempos de ideólogo petista, Cristovam Buarque reconheceu juntamente com FHC que os dois partidos não divergiam no essencial, e havia uma enorme similaridade de pautas, ideologia e metas.

Em outra ocasião, com um tom de regozijo, FHC deu uma entrevista dizendo que ambos os partidos disputavam eleições para decidir quem iria “comandar o atraso” (leia aqui). Para ele, “nós (tucanos e petistas) não discutimos nem disputamos ideologia, é poder, é quem comanda”.

Quem não se lembra do sorriso no rosto de FHC ao passar a faixa presidencial para Lula, em 2003?

Ele também protegeu Lula e o PT no auge do mensalão, conforme eu comentei (leia aqui).

O atual Ministro da Educação, o professor da USP Renato Janine Ribeiro, tinha um sonho de unir os dois partidos em uma “grande coalizão” e entrou em um alegre e cordial debate com o mensaleiro José Dirceu sobre o assunto (leia aqui).

Dirceu, com visão estratégica gramsciana e dialética, mostrou a Janine porque a ideia não deveria proliferar (leia aqui).

Por óbvio, Dirceu sabe que unir os dois partidos seria abrir espaço para que uma direita surgisse.

Edmar Bacha, um notório economista tucano que ajudou a desenhar o Plano Real, deu uma entrevista recente (leia aqui) na qual disse: “o PT, se dispusesse realmente a virar outra coisa, eu acho que não haveria razão nenhuma [para não haver acordo]. Afinal, socialdemocratas somos ambos. ”

E o que seria um socialdemocrata? Na rede social Facebook, após ser questionado sobre seu apoio entusiasmado pela indicação de Luiz Fachin ao STF, Álvaro Dias deu a resposta dizendo “PSDB significa Partido da Social Democracia Brasileira, e Social Democracia significa Socialismo Democrático”, postou o senador (leia aqui).

Ele tem razão. Esta é a síntese da unidade ideológica do PSDB e o petismo. Ambos os lados admitem isso quando não estão se confrontando nas eleições.

Quando a popularidade de Lula e do PT estavam altas, a imagem que os tucanos passavam para seus eleitores era apenas de covardia pura e simples.

Agora, com o PT se desfazendo, vemos claramente essa profunda união ideológica que une as duas legendas. O PSDB é quase um "PT com nojinho" de sujar as mãos.

Por isso, os tucanos são alegres cúmplices do petismo. Por isso, jamais denunciaram o Foro de São Paulo e se opuseram com veemência aos projetos criminosos do PT como o “Mais Médicos”.

A fala delinquente de Aécio Neves (leia aqui) logo após sua derrota nas eleições em 2014 e seu desaparecimento durante os maciços protestos contra Dilma, mostrou, outra vez, qual seria o (covarde) jogo tucano.

A hesitação em pedir o impeachment esperando “fatos concretos” - como se estes já não existissem aos milhares -, é apenas mais um capítulo desse jogo de cartas marcadas.

O senador Aloysio Nunes Ferreira publicou um vídeo (assista aqui) no qual explica a “hesitação” dos tucanos em pedir o impeachment e justifica a estratégia de entrar com uma ação criminal comum contra a presidente Dilma.

Miguel Reale Júnior, o jurista tucano que fundamentou a ação declarou que o PSDB já tem preparado “um parecer jurídico justificando o pedido de impeachment, mas ele não será usado agora”, para não “desperdiçar a bala de prata”.

A pergunta é: por que não fazer os dois ao mesmo tempo - a ação criminal e o pedido de impeachment - já que ambos terão que passar pela Câmara de Deputados e pelo STF, o qual agora contará com mais um militante petista (Fachin), inclusive apoiado pelo próprio Reale?

Entretanto, o pior não foi isso: Miguel Reale desdenhou o Movimento Brasil Livre (MBL) – principal articulador dos protestos que levaram milhões às ruas em março e em abril - chamando-os de “meninos” e dizendo que eles não possuem “informação e cultura política” (leia aqui) por conta da insistência do movimento em pedir imediatamente o impeachment de Dilma.

A “cultura política” do PSDB, quatro vezes derrotada nas eleições para a presidência da República e cúmplice do projeto de poder do PT, não me parece ser muito eficaz, não é mesmo doutor?

As máscaras estão caindo. E caem justamente em um momento de inflexão da política brasileira, quando um movimento mais à direita começou a emergir e se organizar no campo das ideias, tomar as ruas em protestos e colocar em risco esse arranjo de poder baseado na dialética entre PSDB e PT.

Na quarta-feira, dia 27 de maio, o MBL concluiu a “Marcha pela Liberdade” (veja aqui)  com a chegada em Brasília. O movimento conseguiu uma audiência com o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e protocolou o pedido de impeachment.

Só mesmo um movimento outsider da atual cena política poderia conseguir tal coisa.

Os brasileiros não podem contar com “a cultura política” do PSDB para tirar o PT do poder. Mas podem contar com a força dos “meninos” do MBL.

Fora PT e PSDB! Yes, we kim!

 



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