São Paulo, 30 de Setembro de 2016

/ Opinião

A undécima hora
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Qualquer que seja o desenlace com os gregos não está em risco o projeto de integração europeia. Apenas mostraria que a aceitação de países com estruturas política e econômica tão díspares foi um erro

À medida que o prazo vai se esgotando para encontrar-se uma solução para o impasse entre a Grécia e seus credores, o primeiro ministro grego Alexis Tsipras pretende retomar as negociações nesta sexta-feira (5). É a data final para que a Grécia acerte com eles um plano de ajuste que permita a liberação de €7,2 bilhões.

Há vários meses os leitores desse espaço vêm acompanhando a análise das consequências de uma incapacidade do país em chegar a bom termo com os credores. Na última quarta-feira (3) as negociações foram suspensas porque a distância entre as partes era ainda muito grande.

O fato é que os dois lados precisam ceder para que se materialize um entendimento, ainda que transitório.

O que se passa e quais as dificuldades reais para um acordo? De um lado, os números das necessidades de financiamento são gigantescos, considerado o tamanho econômico da economia grega. Primeiro, na sexta-feira a Grécia precisa saldar um empréstimo de €300 milhões devidos ao Fundo Monetário Internacional. Essa é apenas a ponta do iceberg; o pior vem depois.

O país deve ao todo, ao FMI, €1,5 bilhão pagável somente em junho. Em julho, a Grécia deve mais €452 milhões ao Fundo e €3,5 bilhões ao Banco Central Europeu (BCE). E em agosto, €176 milhões ao FMI e €3,2 bilhões ao BCE.

Do acordo anterior, €7,2 bilhões não foram desembolsados, à espera de um acordo que ainda não se concretizou. Sem esse acordo, a firmar-se em princípio até a meia noite de sexta-feira, a Grécia deixará de pagar o FMI e estará tecnicamente inadimplente.

Diversas consequências de um inadimplemento grego decorrerão. Os bancos europeus que emprestaram dinheiro ao governo grego não mais poderão ter acesso ao redesconto do BCE para obter fundos. Para cobrir suas necessidades de recursos, os bancos irão ao mercado para vender os títulos gregos e essa corrida ao mercado desvalorizará os títulos, causando grande prejuízo aos balanços dos bancos.

Empréstimos diretos do BCE e do FMI também ficarão obstados, já que essas instituições não poderão receber em garantia de novos empréstimos títulos similares de emissão do governo gregos depois que títulos similares estiverem impagos.

Portanto, dado o tamanho do problema, alguma solução, ainda que transitória precisará ser obtida até esta sexta-feira. A dificuldade está na diferença das propostas.

Do lado dos credores, a demanda inicial é de uma política fiscal que produza superávits primários da Grécia da ordem de 1% esse ano, 2% em 2016, 3% em 2017 e 3,5% do PIB em 2018. Esses números, do ponto de vista do governo grego, são irrealistas.

As razões para o irrealismo, do ponto de vista grego, são conhecidas. Atender às demandas dos credores demandaria cortes da ordem de 1% do PIB em 2016. Para tal, seriam necessários novos cortes em benefícios previdenciários e aumentos em impostos sobre o valor adicionado – traduzindo, sobre o consumo das famílias.  

Por que o comitê que representa os credores está sendo tão duro com a Grécia? As razões variam, mas algumas delas são identificáveis. Governos de países que aceitaram condições mais duras sentem-se sem condições políticas de aceitar que a Grécia obtenha condições melhores que as suas. Alguns desses países são mais pobres que a Grécia.

Outros acham difícil ter mais boa vontade para com um país que consideram sistematicamente inadimplente. Ceder agora, na visão desses, premiaria o mau desempenho e criaria precedente perigoso para outros países à beira de situação semelhante à da Grécia.

Como apontei anteriormente, é difícil imaginar que não se possa encontrar uma solução intermediária entre as propostas apresentadas. Um calote grego teria sérias consequências para o euro.

Além disso, está sendo visto como positivo o envolvimento pessoal do primeiro ministro Tsipras nas negociações. Isso confere maior credibilidade ao lado grego e poderá ser decisivo nessa etapa final das negociações.

É relevante, nesse contexto, que qualquer que seja o desenlace amanhã, dia 5, não está em risco o projeto de integração europeia. Apenas mostraria que a aceitação na zona do euro de países com estruturas política e econômica tão díspares foi um erro. Desse erro original decorreram todos os problemas, que não se esgotam com o caso grego.



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