São Paulo, 07 de Dezembro de 2016

/ Opinião

A ressaca pós-eleitoral
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A ressaca pós-eleitoral mostra de forma cabal que o "novo modelo econômico” foi um equívoco

Não surpreendeu ninguém que os dias seguintes da eleição trouxessem más notícias. Acontece quase sempre depois de eleições, mas dessa vez o conjunto da obra aprimorou-se.

Talvez a de maior significado, e de menor percepção pelo público, foi o resultado da balança comercial de outubro. Não foi um resultado qualquer: tivemos no último mês o pior resultado para um outubro desde 1998. O déficit ocorrido no mês ultrapassou US$ 1,1 bilhão.

Também, sob esse ponto de vista, das exportações a história não é boa. O desempenho das exportações foi pífio: com um valor de US$ 18,3 bilhões e configurou queda de quase 20% em relação a outubro do ano passado.

Alguém poderia argumentar que estamos passando por uma quadra ruim do mercado internacional e que isso explicaria o péssimo resultado obtido com as exportações. Alguns dos principais preços de nossas commodities exportadas – como minério de ferro e soja – o mercado mostra-se adverso. O preço do minério de ferro registra queda de 40% no ano e o da soja, 17%. No caso do minério de ferro, os preços se aproximam dos valores observados em 2009.

Com as quedas de preços observadas até agora, as exportações de produtos básicos amargam queda de mais de 15% no ano. O problema é que a queda nas exportações não se restringe ao segmento em que se observam grandes perdas de preços no mercado internacional. Na verdade, todos os segmentos de produtos de exportação estão em queda.

Os semimanufaturados estão em queda de 1%. Pior, nos manufaturados a queda no valor das exportações supera 30%.  É aqui que se localizam os principais problemas,  e para entende-los torna-se necessário fazer uma digressão pelo balanço de pagamentos em conta corrente – a soma do resultado da balança comercial com o saldo (negativo) da conta de serviços.

É fato estabelecido pela teoria econômica que, em situações de excesso de demanda interna relativamente à capacidade de produção da economia, o excesso vaza para o balanço de pagamentos, quer sob a forma de um aumento de importações, quer sob a forma de recursos necessários para financiar investimentos na economia que superam a capacidade de poupança interna.

Estamos, hoje, com um déficit em conta corrente que supera US$ 60 bilhões anuais, correspondente a 3,7% do PIB brasileiro.  Em agosto passado, o déficit foi de quase US$ 5,5 bilhões, recorde para o mês de agosto. Tem sido possível financiar com recursos externos o volumoso déficit em conta corrente brasileiro, o terceiro maior do mundo em 2013, segundo dados do Fundo Monetário Internacional.

Há consenso no mercado financeiro internacional que o percentual do déficit brasileiro em relação ao PIB – uma medida de solvência do país – já é elevado, relativamente à média dos demais países. Corremos o risco de nos aproximarmos de um percentual de 4% do PIB, o que acenderia luzes amarelas nas classificadoras de risco internacionais.

Um eventual rebaixamento da nota de crédito teria consequências danosas para a economia brasileira. O primeiro efeito seria a elevação do custo do rolamento da dívida e das novas captações necessárias para financiar o déficit. O segundo seria a própria dificuldade de atrair recursos, já que diversos financiadores somente podem financiar tomadores que dispõem de grau de investimento.

Mencionei até aqui somente resultados mensais negativos na balança comercial e no balanço de pagamentos em conta corrente. É claro que o resultado de um mês, mesmo sendo o pior desde 1998, não configura uma tragédia. A questão é saber qual o resultado acumulado nos doze meses encerrados em outubro e qual a tendência da balança para o futuro.

Também nesse quesito não estamos bem. No resultado acumulado dos dez primeiros meses deste ano o déficit da balança comercial foi de US$ 2 bilhões. Corremos o risco de apresentar um resultado para o ano como um todo pior que o observado em 2013, que já havia sido o pior observado desde 2000.

A ressaca pós-eleitoral não se resume aos maus resultados do setor externo. As tarifas de energia elétrica começam a ser reajustadas em todo o país, em média em 18%. O aumento anula a redução forçada pelo governo da conta de energia ocorrida em 2013 e impactará diretamente os índices inflacionários. Já não mais se espera que a inflação de 2014 possa ficar abaixo do teto de 6,5% estabelecido na meta de inflação. Para culminar, aguarda-se decisão do conselho de administração da Petrobras quanto ao reajuste do preço da gasolina e do diesel.

É claro que esses reajustes contribuem mais para a inflação sentida no bolso dos cidadãos que seus simples impactos diretos. O reajuste na tarifa de energia elétrica impacta custos no comércio e na indústria; parte, pelo menos, desse impacto precisará ser transferido, via preço, para os consumidores.

O mesmo ocorre com o reajuste dos combustíveis, que se traduzirá em aumentos de custos de toda a cadeia de transportes.

A ressaca pós-eleitoral mostra de forma cabal o que vem sendo repetido nesse espaço: o “novo modelo econômico” foi um equívoco de alto custo para a sociedade brasileira. Seus resultados econômicos se traduziram na estagnação do crescimento, na alta da inflação e na deterioração das contas do balanço de pagamento.



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