São Paulo, 07 de Dezembro de 2016

/ Opinião

A pergunta
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"Eu vim de graça", frase entoada domingo nas manifestações, é uma afirmação que rejeita um modo de governar e de tolerar a corrupção

O que houve no dia de ontem? É melhor começar pelo que não houve. Não houve depredações, saques, agressões, choques com a polícia e ataques às instituições, ao contrário do que ocorreu em 2013, promovido, é bom que se lembre, pelos partidos e agremiações satélites do PT com raízes no governo federal.

São muitas as diferenças entre o que ocorreu ontem e o que se passou em 2013, e também na sexta-feira, para que aqui se as enumere. Seria então possível extrair um significado das manifestações do domingo? Sim, basta lembrar um dos grandes refrãos que foram entoados: “eu vim de graça”.

Gritado por milhares, ele não foi ouvido pelo grande destinatário do recado, pois, à noite, compondo uma cena bem ensaiada, autoridades e figurantes convocados pelo governo vieram à TV proferir platitudes com as quais tentaram neutralizar as manifestações.

Primeiro se tentou coloca-las todas no mesmo saco, “desde que respeitem a lei”, como se fosse legal um governo patrocinar manifestações em seu favor com dinheiro público.

Depois, vieram as tentativas de deslegitimar as manifestações de domingo, rotulando-as de militaristas e declarando-se proibido falar de impeachment. Só podia dar no que deu: mais um panelaço e uma grande sensação de desalento com uma classe política que parece não ter jeito.  

“Eu vim de graça” significa que os brasileiros estão cansados dos erros, arbitrariedades e marquetagens do governo. “Eu vim de graça” significa que o que deslegitima uma manifestação não é o dinheiro de uns que dela participam, mas sim o dinheiro de todos que uns usam para seus fins.

“Eu vim de graça” significa que os brasileiros foram às ruas ontem em massa, por conta própria, pelos seus valores, pelas suas convicções, numa miríade de opiniões que convergem espontaneamente na condenação das práticas mentirosas e fraudulentas do governo federal.

Enfim, “eu vim de graça” significa, por diversas formas, e não só pelas manifestações de rua, que a sociedade brasileira não se dobrará àquilo que pretendem que ela referende e pague.

Mas se o crescimento da indignação com o que se passa no país é preocupante, muito maior deve ser nossa preocupação com a incapacidade dos detentores do poder em reconhecerem isso, insistindo na surdez que inviabiliza qualquer diálogo.

Procuram interlocutores que já não há, falam em medidas que ninguém acredita, continuam a tentar neutralizar os resultados das investigações e, ao fim e ao cabo, apostam tudo na mobilização e no aparelhamento, da militância e do Estado que pensam controlar.

E tudo isso por que? Simplesmente porque não têm nada a oferecer ao País, além de sua permanência no poder.

Não entendem o manifesto inconformismo da sociedade diante da possibilidade de continuação de uma prática criminosa de governar que tem a desfaçatez de vir a público alegar que o impeachment é golpe, coadjuvado por quem diz que isso não resolveria a crise em que o país está envolvido.

O que resolve então? Deixar que o governo continue a pôr e dispor ao seu bel prazer para encobrir as próprias falcatruas? Prosseguir na ciranda de conchavos para preservar uma governabilidade que perdeu o rumo? Fazer de conta que os responsáveis pelo acobertamento e pela operacionalização de desvios de bilhões de reais se transformarão, por um passe de mágica, nas vestais que farão cessar a corrupção?

Não há dúvida que o PT faz uma leitura vesga dos acontecimentos no País, cada vez mais solitário no descaminho pelo qual enveredou. O que é de estranhar é que a classe política brasileira deixe de enfrentar com os meios legais e constitucionais de que dispõe a gravíssima crise que se implantou no Brasil. E o que é estarrecedor é a pergunta que ela se recusa a enfrentar. 

O que pode ser mais importante para um povo do que a forma como é governado?  

 



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