São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Opinião

A história e a verdade
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Estudos recentes fazem revelações históricas que não temos o interesse de conhecer. A verdade acaba sendo a versão de interesse dos poderosos do momento

Desde que o mundo é mundo, se tenta distorcer a verdade histórica, ao sabor do pensamento dos poderosos do momento. Mas a prática nunca vingou, e todos conhecemos a história com suas versões e fatos inquestionáveis. A verdade, geralmente, aproveita um pouco de cada versão.

Napoleão, até hoje admirado e criticado, não deixa de ser um dos maiores da história da França, apesar de restarem tão poucas vias, escolas e monumentos com seu nome. Em Paris mesmo, há uma rua modesta, embora no coração de Saint Germain. Mas a bibliografia sobre sua vida e obra deve estar entre as dez maiores do mundo.

No Brasil, a despeito de iniciativas de cunho ideológico, inspirados no ódio e no revanchismo, uma safra de historiadores e biógrafos modernos vem consolidando a história. E nisso não falta o testemunho de jornalistas que a viveram, como é o caso de Carlos Chagas.

Regina Echeverria é uma estrela que nasce neste mundo fascinante. Começou dedicada a biografar artistas, com sucesso e talento, como nos casos de Elis Regina e Cazuza, e chegou à história com a biografia consentida do presidente José Sarney. Agora assina a magistral biografia da Princesa Isabel, para muitos, a maior das brasileiras.

Na biografia de Sarney, por exemplo, registra em depoimento não contestado que Ulysses Guimarães era voltado exclusivamente para o dia a dia da política, sem o menor interesse por temas ou obras voltadas para o bem comum. O fato foi confidenciado pelo ex-presidente, que recebia, em média, uma vez por semana aquele que controlava o Congresso e a Constituinte. Ulysses, homem de bem e que amava a política, na qual estava desde muito jovem, realmente estava longe do herói desenhado pela campanha Diretas Já.

Carlos Chagas, jornalista e historiador de seu tempo, com inúmeros livros de sucesso, como o recente O Golpe Dentro do Golpe, revela que Ulysses participou de uma das minutas do Ato Institucional que formalizou o regime militar. No seu texto, defendia a perda dos direitos políticos por 15 anos, e não apenas os dez que acabaram por prevalecer no texto dos juristas de confiança dos militares. Vejam só: o homem das diretas queria ver os colegas fora da política por 15 anos! Certamente por achar dez pouco.

Achei graça ao ler esses dois textos, uma vez que, embora livros bem comentados e bem vendidos, um silêncio cobriu a revelação que parece, no meu modesto entender, muito relevante e jornalística. Afinal, os personagens estão entre os mais importantes de seu tempo.

Mês passado, passou como um furacão no noticiário a digna nota do Superior Tribunal Militar, presente no Brasil desde o Reino Unido, da maior importância e credibilidade, reagindo à ousadia de uma comissão a qual foi delegada a verdade de parte de nossa história, que chega a propor a extinção da Justiça Militar, cujo rol de membros, através dos séculos, por si só justifica seu papel de especializada – como o é a do Trabalho – no rápido julgamento de militares e de civis envolvidos em atos que possam atentar contra a segurança e a defesa nacional. Até então nunca se ouviu uma crítica a este tribunal, composto por militares e civis de alta credibilidade.

O que consola é que a verdade sempre vem à tona. Ela é imune aos ressentimentos de ocasião.

 



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