São Paulo, 30 de Setembro de 2016

/ Opinião

A face do mal
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A partir dos anos 90 o Ocidente despejou indevidamente sua agressividade sobre o Islã, onde alguns passaram a combater a todos e a si próprios

Durante uma reunião cultural para adolescentes, um homem perguntou se conheciam o cavaleiro em armadura sobre cuja estátua ele pousava a mão. Como respondessem que não, o distinto senhor dignou-se a ensina-los. Com um amplo sorriso, ele nomeou o guerreiro, acrescentando a sua grande façanha: ter matado instantaneamente um judeu que, no decorrer de um encontro de teólogos na Idade Média, havia duvidado da virgindade de Nossa Senhora.

Um dos meninos, ao chegar em casa, contou o diálogo ao pai. Dali em diante, no horário costumeiro em que iam apanha-lo para as reuniões, ele estava no cinema, para onde havia sido previamente despachado por seu pai, que recebia pacientemente o ilustre cavalheiro.

O menino nunca mais compareceu àquelas reuniões, mas não demorou para perceber o quão privilegiado era por ter um pai que o afastasse definitivamente daquela forma de pensar e por ter começado a aprender um pouco de História fora dos livros. Já para entender que, como cristão, ele não podia ser inimigo do que era parte dele, levaria mais tempo.

Boa parte dos acontecimentos da segunda metade do século XX, o pós-Segunda Guerra, aqueles que se davam nas ruas, nos noticiários e nas convicções em choque, estão por ser historicizados, o que explica a escassez de boas narrativas e as dificuldades para a compreensão desse período da História pródigo em reviravoltas.

Uma delas, menosprezada nos grandes compêndios da diplomacia internacional, foi a assombrosa crise que mudou a face do Oriente Médio. O surto de ditadores árabes favorecido pelos desdobramentos da Guerra Fria, os resultados calamitosos da Guerra dos Seis Dias (1967) para os palestinos que apelaram ao terrorismo, o boicote árabe do petróleo (1973), a Revolução Islâmica no Irã (1979) e as duas Guerras do Golfo (1990-91 e 2003) acabaram por transfigurar o Oriente Médio e o Islã.

Antes disso, devido ao conflito, ideológico ou não, prevalecia um consenso das grandes religiões mundiais no respeito pelas diferenças, inclusive no Brasil, onde o farto anedotário sobre judeus e árabes, quase todo de autoria deles mesmos, e a sua convivência no Saara do Rio de Janeiro eram um exemplo do qual o País se orgulhava.

Nos anos 90 a situação mudou, não só no exterior, como aqui também. Inchaços urbanos e massificação cultural fizeram desaparecer a tradicional rejeição do brasileiro ao ódio religioso. Sinagogas, centros espíritas, casas de umbanda foram hostilizados e imagens atacadas, expondo uma intolerância desconhecida na cultura brasileira, cujos indícios, apesar de amenizada pelo nosso jeito de ser, persistem até hoje.

Na grande cena mundial, quem primeiro enfrentou o desafio de explicar o que estava acontecendo foi o norte-americano Samuel Huntington, em seu alentado “Choque de Civilizações”, a princípio bem recebido pela crítica internacional, mas depois desacreditado pelo discurso naïf do politicamente correto.

O mundo mudara no final do século XX, surgindo, ou ressurgindo como querem alguns, problemas que desafiavam as abordagens convencionais. Àquela altura, o senso comum ocidental sobre o Oriente Médio, os árabes e os muçulmanos, já fora deslocado pelas tensões da Guerra Fria e pelas posteriores perturbações decorrentes de imigrações e trocas culturais da globalização.

O desdobramento de tropas norte-americanas na Arábia Saudita após a derrota de Saddam Hussein no Kuwait alimentou a radicalização fundamentalista, e a invasão do Iraque para depô-lo oportunizou a violência em larga escala, servindo, respectivamente, como pretexto e deflagrador de uma guerra santa, não só contra Estados Unidos e Europa, mas também intra-religiosa e regional.

Mas se colocarmos essa combinação de radicalismo e violência numa perspectiva histórica ampliada podemos concluir que, mais do que uma reação ao Ocidente, ela expressa a frustração civilizacional que extravasou nos conflitos árabe-israelense, árabe-persa e sunita-xiita e que hoje inspira movimentos armados étnico-separatistas que vão das Filipinas ao Cáucaso.

Se há uma guerra promovida pelo Islã, ela não é contra o Ocidente, é contra todos e contra ele mesmo. Que o digam russos, chineses, nigerianos, curdos e, principalmente, os milhões de muçulmanos ao redor do globo.

O que aconteceu ao Islã das Mil e Uma Noites? Uma resposta pode estar na decadência do Califado de Bagdá a partir da primeira metade do século X, até sua definitiva submissão aos turcos seljúcidas em 1055, que encerrou a era brilhante da cultura árabe, não sem antes dela se expandir a Al-Andaluz, na Espanha, e ali criar, na sede do efêmero Califado de Córdoba, o maior centro cultural da época; cuja biblioteca somava mais de quarenta mil volumes.

Voltar-se sobre a sua história e averiguar como o conhecimento foi eclipsado pelo militarismo – a intolerância armada – talvez seja a monumental tarefa que o Islã deva atribuir às suas lideranças espirituais, havendo de se reconhecer, no entanto, que cem anos - desde o Protocolo de Damasco (1915) que delineou a independência árabe - foram insuficientes para superar uma questão que germinou por mais de oito séculos.

Mas há que se reconhecer também as dificuldades colocadas pelos ódios que afloram no trato dessa questão, ódios que se manifestam até mesmo da leitura destas linhas, um problema que não é exclusivo dos muçulmanos.

Paris é o palco do mundo. Se ali se anunciaram grandes mudanças para a humanidade, ali também se deram episódios dramáticos que anteciparam tragédias maiores. O massacre dos huguenotes na Noite de São Bartolomeu em 24 de agosto de 1572, o Terror que sequestrou a Revolução Francesa entre 1792 e 1794 e as lutas de rua que quase derrubaram a Terceira República em 1934 tiveram Paris por cenário, prefigurando a luta religiosa, o terror político e a guerra ideológica que estavam por vir.

Portanto, se ainda é cedo para extrair um significado dos acontecimentos de janeiro de 2015 em Paris, é justificada a inquietação com o que pode vir, em escala muito maior. A lição extraída dos episódios exemplificados é o ódio intestino comum a eles, sem o qual não teriam se manifestado o ódio religioso, o ódio político e o ódio ideológico que dividiram a sociedade francesa e deixaram um legado desastroso para a humanidade.

No palco de Paris já se encenaram peças de ódio que anunciaram o mal que assolou o mundo em épocas distintas. Hoje, a intelectualidade revolucionária de um Ocidente sem revoluções encara a perspectiva do inimigo total que o Islã representa como a oportunidade do século.

O ódio que essa intelligentsia devota ao próprio Ocidente alimenta os ódios dos quais ela precisa para fazer a revolução com o sangue dos outros, e só acidentalmente o seu.

É a História mostrando como o ódio das ambições desmesuradas esculpe a face do mal.



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