São Paulo, 27 de Setembro de 2016

/ Opinião

A estrada
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Temos finalmente um filme que retrata o esforço militar brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial. Mas os detalhes da participação da FEB são mais complexos e emocionantes

 

Finalmente os brasileiros tiveram a oportunidade de assistir a um filme que procura retratar a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que combateu durante a 2a Guerra Mundial no Teatro de Operações da Itália, de setembro de 1944 a maio de 1945.

O filme, Estrada 47, dirigido por Vicente Ferraz, faz bonito, contando uma história bem humana no cenário de guerra com a plausibilidade possível a uma ficção e dentro da perspectiva da intelectualidade brasileira.

Foi uma surpresa neste 70o aniversário do final da guerra. Quem sabe, ampliando-se essa perspectiva, tenhamos outros filmes sobre heróis bem reais, como o soldado Josino, o tenente Iporã ou o sargento Max Wolf.

Aí, quem vai se surpreender com a resposta do público vai ser o cineasta que mostrar o que esses homens foram e fizeram.

Mas, passados setenta anos do final da guerra, quem tem que se surpreender mesmo são os brasileiros, ao tomarem conhecimento da participação do seu país no maior conflito bélico da História.

Via de regra, as interpretações da participação do Brasil na guerra se restringem à FEB, tida por modesta, com uma única divisão, num teatro de operações secundário, quando a guerra já ia terminando.

Não existe atividade humana mais perigosa e dramática do que a guerra. Sabe-se como começa, mas ninguém sabe como ela acaba, e como acontecia ao programa do maior animador da TV brasileira, a guerra só acaba quando termina.

Não havia nenhum script para 2a Guerra Mundial terminar na Europa em 1945, e para quem pensa que ela estava vencida no final de 1944, sugere-se assistir na série Band of Brothers (HBO), o que enfrentaram os paraquedistas norte-americanos da 101a Divisão Aerotransportada, no Natal daquele ano, em Bastogne, diante da ofensiva alemã nas Ardenas - uma densa floresta que se estende da Bélgica e do norte da França ao Luxemburgo e Alemanha.

Na Itália, algo dessa natureza foi feito em menor escala. Na noite de 25 para 26 de dezembro, num lance de audácia, forças da 148a Divisão de Infantaria alemã (148a DI) e italianas atacaram o flanco esquerdo do V Exército, derrotando a 92a Divisão norte-americana.

A invasão aliada da Europa começara pela Itália, em julho de 1943 na Sicília e em setembro na península. Essa foi a frente destinada à FEB e, de todas da guerra, foi a mais mortífera para as divisões norte-americanas, onde o inimigo tinha a vantagem do terreno e dispunha de paraquedistas, blindados e remanescentes do Afrika Korps.

Depois de junho de 1944, com a queda de Roma, o desembarque na Normandia e a retirada de seis divisões aliadas da frente italiana para o desembarque no Sul da França, o Teatro de Operações da Itália não se tornou secundário.

Transformou-se numa frente de sacrifício, na qual as divisões alemãs em número equivalente ao das aliadas tinham que continuar a ser aferradas por uma ofensiva a todo custo, como confessaria o próprio comandante do V Exército dos EUA, General Mark Clark, sob pena de os efetivos inimigos se transferirem para outras frentes.

Foi a essa altura da guerra na Itália que chegou a FEB, ou melhor, começou a chegar, por escalões, com parte da sua força de combate, da 1a Divisão de Infantaria Expedicionária (1a DIE), para receber equipamento e completar o seu adestramento, não numa frente onde lutavam sessenta divisões norte-americanas, como na França, mas naquela em que só restavam sete.

Em setembro de 1944, o Destacamento FEB, constituído à base do 6o Regimento de Infantaria (6o RI), de São Paulo, que viera do Brasil no 1o escalão, era a única reserva do V Exército.

No dia 15 desse mês, os brasileiros entravam em ação num setor onde os alemães recuavam para as suas novas posições na Linha Gótica, encaminhando-se as operações para o Vale do Sercchio, onde seriam alcançados os primeiros êxitos do Destacamento FEB, em Massarossa, Camaiore e Monte Prano, e experimentado o primeiro revés, por excesso de confiança, em Castelnuovo di Garfagnana, que traria lições valiosas.

O juízo sobre a atuação da FEB na Itália prescinde de patriotadas e chauvinismos, bastando fatos, números, cronologia e algum espírito crítico para obtê-lo.

Em novembro de 1944, a 1a DIE, com seus outros dois regimentos, o 1o RI, do Rio de Janeiro, e o 11o RI, de Minas Gerais, recém-chegados à Itália, foi toda à frente de combate, assumindo um setor de 15 Km de extensão, no qual deveria realizar operações ofensivas e defensivas.

A essa altura, a FEB era a combinação de um regimento exausto e de dois inexperientes, prestes a enfrentar não Osttruppen, tropas de voluntários russos e bielo-russos usados pelos alemães em outras frentes, mas sim o verdadeiro Exército alemão, como as experimentadas 232a e 334a divisões.

Toda linha de contato com o inimigo era dominada pelo grande maciço montanhoso que ia de Monte Belvedere a Castelnuovo, encimado pelo Monte Castelo, que seria atacado quatro vezes pelos brasileiros, a 25 e 26 de novembro, integrando a Task Force 45 norte-americana, e a 29 de novembro e 12 de dezembro, sob a responsabilidade do comando da FEB. 

Neste último ataque, sob névoa e num terreno enlameado, os brasileiros chegaram a alcançar o topo de Monte Castelo, mas foram expulsos pelos contra-ataques alemães, ficando lá em cima, como testemunhas do sacrifício, os corpos dos nossos soldados que só seriam resgatados quando foi conquistada a posição em fevereiro do ano seguinte. 

A FEB entrara em combate e não mais sairia da linha de frente até o final da guerra. Era a única divisão brasileira na guerra: se ela saísse, o Brasil deixava a luta.

Suspensas as operações ofensivas em dezembro de 1944, devido ao fracasso dos ataques contra as fortes posições alemãs, não só dos brasileiros em Monte Castelo, mas de todos os aliados, do V Exército dos EUA e do VIII britânico, da costa do Mar Tirreno à do Mar Adriático, a FEB iria viver a estabilização das operações nas alturas dos Apeninos, durante um dos mais rigorosos invernos da região.

Foi quando, entre patrulhas, golpes de mão e incursões de parte a parte, tropa e comando da FEB amadureceram para o que estava por vir.

Era a estrada 64, varrida pelas lentes e tiros alemães, que tinha que ser aberta para que os aliados conquistassem Bolonha.

O IV Corpo de Exército dos EUA (IV CEx), ao qual estava subordinado a 1a DIE, planejou para fevereiro de 1945 uma ofensiva preliminar à da primavera, na qual a divisão brasileira e a 10a Divisão de Montanha do Exército dos EUA (10a Div Mth) seriam empregadas juntas para expulsar os alemães do maciço que dominava a estrada 64.

No dia 21 de fevereiro, depois de substituir os americanos da 10a Div Mth que haviam conquistado Mazzancana, a 1a DIE, com o 1o RI, o Regimento Sampaio, no ataque principal, atacou e conquistou Monte Castelo.

Nos dias seguintes, brasileiros e norte-americanos iriam apoiar-se mutuamente até limparem de alemães as alturas que dominavam a 64.

A FEB já era outra, culminando esta fase com a elegante manobra sobre Castelnuovo, que levou à conquista, pela retaguarda, do famigerado monte Soprassasso, que se debruçava sobre a estrada 64.

Na segunda reunião preliminar realizada no quartel-general do IV CEx , antes da grande ofensiva da primavera, em abril,  o comandante da FEB, o General Mascarenhas de Moraes, ao propor que a divisão brasileira protegesse o flanco esquerdo da 10a Divisão de Montanha, atacando Montese, respondeu em tom jovial à pergunta do comandante da divisão norte-americana sobre a capacidade da 1a DIE conquistar a cidade, perguntando ao seu colega se ele tinha certeza de que aproveitaria o êxito do sucesso brasileiro.

 Ao tomar conhecimento da conquista de Montese no primeiro dia da ofensiva aliada, 14 de abril, pela tropa do 11o RI, o Regimento Tiradentes, o General Crittenberger, comandante do IV CEx, disse ao seu estado-maior: “na jornada de ontem, só os brasileiros mereceram as minhas irrestritas congratulações; com o brilho do seu feito e seu espírito ofensivo, a Divisão brasileira está em condições de ensinar às outras divisões como se conquista uma cidade”.

Com o êxito da ofensiva aliada, os alemães perderam a Linha Gengis Khan, última posição defensiva ao sul do Rio Pó, e suas divisões se precipitaram em fuga para o norte, buscando transpor o grande rio e adentrar à Áustria pelos Alpes.

A divisão brasileira, que não era motorizada, improvisou e, embarcando sua infantaria nas viaturas da artilharia, saiu em perseguição ao inimigo.

No dia 27 de abril, a vanguarda brasileira destruiu em Collechio a vanguarda de uma força alemã bem maior que se viu impedida de prosseguir sua marcha para o norte e foi cercada pela 1a DIE.

Não aceitando a rendição incondicional, a força alemã foi atacada pelo 6o RI, o Regimento Ipiranga, e enviou parlamentares solicitando a cessação dos combates. Era a 148a Divisão alemã, a mesma que realizara a audaciosa ação no Natal contra os norte-americanos, e os remanescentes da Divisão Itália e da famosa  90a Panzergrenadier. veterana da África do Norte, num total de quase 15.000 homens, que se rendiam à 1a DIE, a única divisão aliada na Itália que logrou tal feito.

Nas palavras do General Mark Clark, “foi o magnífico final de uma atuação magnífica”. No dia 2 de maio os alemães se rendiam na Itália, a primeira frente de guerra na Europa onde se encerraram as hostilidades.

O Brasil foi à guerra e saiu dela muito diferente, caminhando para a democratização, a industrialização e o desenvolvimento, no que pode ter sido a maior mudança de sua história de nação independente.  Embora a FEB seja o capítulo mais lembrado da participação do Brasil na 2a Guerra Mundial, para se compreender a importância dessa participação é fundamental conhecer também o esforço militar brasileiro na defesa de sua soberania no Nordeste e no Sul do País, saber da Batalha do Atlântico Sul da qual participamos, entender o papel geopolítico deste país continente e destrinchar as manobras diplomáticas que evitaram a extensão do conflito à América do Sul.  

Nestes dias em que o País parece ter esquecido tanta coisa, a começar a noção do interesse nacional pelo seu próprio governo, da participação do Brasil num dos acontecimentos mais importantes de nossa era, o que não pode ser esquecido é que ele andou pela estrada certa, a estrada certa da História.