São Paulo, 26 de Setembro de 2016

/ Opinião

A economia por trás da indústria da música
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A renda de um superstar não mudou muito com o passar do tempo, apesar de grandes transformações tecnológicas e de gosto. Não é diferente do sucesso em outras áreas da vida

Em primeiro lugar, devo dizer que sou um grande fã da banda Arcade Fire, mas não tive nada a ver com a nova música de Will Butler sobre a crise da dívida grega. Seja como for, participarei de um painel intitulado "A economia das celebridades da música" durante o South by Southwest Music and Media Conference, no Texas, ao lado dos irmãos Butler (Will e Win), entre outros.

A análise de alguns aspectos não inteiramente aleatórios da economia do segmento de música tem me dado muita satisfação, mas de um tipo especial só para economistas.

Tenho me debruçado sobre o assunto do ponto de vista privilegiado da "teoria dos superstars", e me pergunto ao mesmo tempo se os dados fragmentários de que dispomos podem lhe servir de suporte. Sim, existe uma coisa chamada teoria dos superstars, conforme um ensaio clássico do economista Sherwin Rosen.

Há mais de 30 anos, Rosen disse que a tecnologia estava produzindo aumentos acentuados de desigualdade entre os artistas porque a mídia de massa ampliava substancialmente o alcance dos indivíduos talentosos. Houve um tempo, disse ele, em que os comediantes tinham de entreter ao vivo os auditórios do Borscht Belt [resorts de verão frequentados principalmente por judeus nova-iorquinos até os anos 70].

Alguns atraíam públicos maiores e que pagavam melhor do que outros, mas havia um limite para o número de pessoas que um comediante conseguia atingir -o que limitava a disparidade de renda entre eles. Nos dias de hoje, porém, um sujeito muito engraçado pode alcançar milhões pela tevê, e uma banda extremamente talentosa poderá vender seus discos pelo mundo todo — daí o surgimento de uma distribuição de renda desigual em que uns poucos são altamente recompensados.

O que há de interessante nessa história para a indústria da música é o fato de que aquilo que a tecnologia deu, ela agora está pegando de volta: uma vez que não é fácil ganhar dinheiro com música via streaming, os artistas estão sendo obrigados a depender de apresentações ao vivo. Portanto, é de se esperar que a renda seja mais igualmente distribuída.

Contudo, quanto mais eu estudo esse assunto, menos eu acredito que essa história seja verdadeira, pelo menos no caso da música. Em primeiro lugar, uma lição muito importante que aprendi com um ensaio de 2006 dos economistas Marie Connoly e Alan Krueger (aqui: bit.ly/1B5gCZk) é que os músicos, diferentemente da indústria de modo geral, nunca ganharam muito dinheiro com gravações.

Em 2002, por exemplo, ano em que a era de ouro do CD esteve próxima do auge, as maiores bandas ganhavam sete vezes mais com turnês do que com royalties. Basicamente, portanto, os músicos sempre dependeram mais com dos shows ao vivo.

Bem, a renda dos shows é extremamente concentrada. Mas será que isso tem algum significado especial para a tecnologia moderna de comunicação? Talvez não. Se me permitem, farei duas comparações, uma mais divertida do que a outra.

Primeiro, a comparação menos divertida: de que maneira podemos comparar a concentração de renda entre os músicos financeiramente bem-sucedidos com a distribuição de renda entre os americanos em geral também financeiramente bem-sucedidos? Sabemos que as rendas mais altas tendem a se acomodar, mais ou menos, em uma distribuição de Pareto em que, por exemplo, o percentil 99 está para o 99,9 assim como o 99,9 está para o 99,99.

As pesquisas dos economistas Thomas Piketty e Emmanuel Saez mostram que, em 2013, a renda do percentil 99,99 teve um aumento de 4,38 vezes, assim como  a do percentil 99,9 — que, por sua vez, teve um aumento de renda de 3,88 vezes, assim como o percentil 99.

Ao mesmo tempo, a Lista dos Ricos da Billboard de 2014 mostrou que a quarta banda mais bem paga, Bon Jovi, fatura 3,65 vezes mais do que o artista que ocupa o 40º. lugar do ranking, Carrie Underwood. Dada a nebulosidade desses números, eu diria que a desigualdade de renda entre as bandas bem-sucedidas financeiramente é semelhante à desigualdade observada entre os americanos em geral igualmente bem-sucedidos.

Mas, a renda polpuda dos superstars da música é alguma novidade? Bem, vamos examinar o caso de uma pessoa cujos números são muito sólidos: Jenny Lind, a célebre soprano sueca que fez uma turnê pelos Estados Unidos de 1850 a 1852.

JENNY LIND, SOPRANO SUECA/Foto: The New York Times

 

Os ingressos para o primeiro concerto de Lind foram vendidos, em média, por US$ 6, e esse parece ter sido o valor mais ou menos normal durante a temporada. Levando em conta a inflação, teríamos o equivalente a US$ 180 hoje, o que não é pouca coisa. No entanto, é preciso não esquecer que a renda e o salário reais estavam muito abaixo disso, portanto esse preço era, na verdade, alto demais se comparado à renda típica de então.

No total, Lind recebeu cerca de US$ 350.000 por 93 concertos, ou um pouco menos do que US$ 4.000 por apresentação. Isso equivale a aproximadamente US$ 2 milhões por apresentação atualmente. Em outras palavras, em uma primeira aproximação, Jenny Lind está em pé de igualdade com Taylor Swift. E note que estamos falando de um tempo em que não apenas não havia gravações, como não havia também amplificação, de modo que o tamanho do público era limitado pela acústica dos salões e pela projeção da voz do artista.

TAYLOR SWIFT/Foto:Richard Perry, The New York Times

 

Tudo isso me levar crer, no mínimo, que a economia por trás de um músico bem-sucedido financeiramente não é diferente do sucesso em outras áreas da vida, e não mudou muito com o passar do tempo, apesar de grandes transformações tecnológicas e de gosto.

Basicamente, músicos são como os banqueiros, com a diferença de que uns querem salvar nossa alma, enquanto utros querem destruí-la.



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